Há uma série de fatores históricos, económicos e culturais que contribuem para o atraso de Portugal em relação a outras nações europeias e globais. Desde logo esta permanente incapacidade para estabelecer um mínimo de consensos que importam a todos os portugueses – e os beneficiariam –  e que são o esteio para uma visão coletiva – que não existe –  e para uma estratégia transversal feita de pontos comuns – e que também não existe.

A par com esta incapacidade há uma lógica apenas de curto prazo pelo que nunca ninguém consegue sucesso sustentável sem o longo prazo, a paciência, o investimento e, finalmente, o expectável retorno. A mudança de projetos e de prioridades e de critérios, como se um projeto estruturante como é o de Portugal, pudesse ser tratado com a mesma facilidade com que se troca de camisa todos os  dias, conduz apenas a exemplos de verdadeiro horror: como pode um aeroporto demorar mais de 50 anos a saber o seu futuro local? Nem é a ser construído. É mesmo a saber o seu local!

É absolutamente fatal não colocarmos algum altruísmo quando nos entregamos a causas públicas, a pensar o país e a fazer trabalho por ele. Seja a que nível for.

Nuno Palma, em as Causas do Atraso Português, destaca muito bem, e de forma clara, o impacto da “maldição dos recursos”, comparando a riqueza trazida pelo ouro do Brasil com a dependência atual de fundos europeus, sendo sabido que esses “recursos” apenas conduzem a uma estagnação económica e a uma total falta de desenvolvimento interno​. Mais, dir-se-ia, são uma das dimensões que mais explicam a ausência de uma visão e uma estratégia comuns e com um mínimo de lógica de longo prazo.

Vivemos de balões de oxigénio, de pequenos “recursos”, quando o que nos faz falta é a dor, mas dor à séria, pela total ausência de recursos que nos obrigasse, de facto, a reinventarmo-nos.

Portugal critica-se e atribui culpas por fracasso atrás de fracasso a razões histórias (e a regimes anteriores), bem com a fatores exógenos – causas externas. Mas, como também refere Nuno Palma, falta a Portugal, obviamente, uma autoanálise profunda e, em consequência, diria eu, uma visão e o desenho de uma estratégia de longo prazo. Tudo são remendos. Tudo é curto prazo. Não há consensos. Não há consistência comportamental e nunca, por nunca, se consegue perceber nas classes políticas e seus derivados, cada vez menos capazes e apenas centrados no seu umbigo, um pensamento e uma ação que coloquem os interesses do país, dos portugueses e das poucas empresas decentes que temos acima dos interesses e guerras de quintal.

Como referia a semana passada o CEO do BPI, já era tempo de nos centrarmos mais no que nos une do que naquilo que nos separa. Deixando a questão, óbvia para qualquer gestor, sobre se é normal andarmos em permanente perturbação!? É claro que a resposta deve ser inequívoca: não podemos suportar mais esta permanente tendência para sobrepor qualquer questiúncula aos interesses da nossa pátria.

Gerir Portugal é gerir uma grande empresa. Não há, nem tem havido, uma vontade de consensualização, de que lado seja, esquerda ou direita, uma vontade genuína de fazer diferente e de olhar o futuro, e não apenas o curto prazo e os interesses pessoais.

A desorganização, a cultura do deitar abaixo, a inveja, o tomar como nosso o trabalho de outros, o criticar por criticar, a ausência de mérito efetivo e sua recompensa, a incapacidade de construção e de ver os benefícios positivos para todos, a pequenez na visão, a lógica paroquial e do pedaço – para um país que já de si é ínfimo – criam desabados sentidos como “apetece deitar a toalha ao chão”.  Mas, também, e que tal “Bora lá pensar Portugal”, como dizia João Pedro Oliveira e Costa.

Bora lá pensar e fazer crescer Portugal. Porque estamos todos, todos mesmo, fartos disto. Os únicos que não parecem estar fartos disto são os portugueses que nos representam nas instituições onde tudo vale – a linguagem tem de facto de ser moderada, a educação deve ser um fator a ter em consideração, o respeito deve ser praticado, o ataque baixo deve dar lugar à civilidade, à elevação e à seriedade com que devemos fazer as coisas. Porque, de facto, estamos mesmo fartos disto.

E o estar farto disto não contribui, em nada, para soluções.