O caso dos guarda-redes da seleção de Espanha é paradigmático. Na última convocatória para o Campeonato do Mundo que acabou por conquistar, Luis de la Fuente chamou Unai Simón, guarda-redes do Athl. Bilbao, David Raya, guarda-redes do Arsenal, e Joan García, guarda-redes do Barcelona. E o titular, ao contrário do que seria expectável, não é o que ganhou a Premier League nem o que ganhou a La Liga — é mesmo o que defende a baliza dos bascos.

Esta segunda-feira, no London Palladium, Joan García superou a competição e recebeu o Troféu Yashin das mãos de Peter Schmeichel, sendo eleito o melhor guarda-redes do mundo. Sucedeu a Gigi Donnarumma e tornou-se o primeiro espanhol a ganhar a distinção desde que esta foi implementada, em 2019, juntando-se a um lote de antigos vencedores que inclui não só o italiano como Alisson, Thibaut Courtois e Emiliano Martínez. Aos 29 anos, com uma carreira totalmente dedicada ao Athl. Bilbao, aproveitou os minutos no palco para fazer aquele que, sem grandes sombras de dúvidas, foi o melhor discurso da noite.

“A verdade é que é um orgulho para mim poder estar aqui a receber este prémio. Um prémio que seria impossível se não fosse pela ajuda de muitas pessoas a quem estou eternamente agradecido. Entre elas estão os meus pais e a minha irmã, que me educaram com princípios e valores que me fazem ser a pessoa que sou hoje”, começou por dizer, referindo-se depois à namorada, um “oásis de tranquilidade no meio de um mundo tão caótico como é o futebol”.

Natural de Murgia, uma vila com pouco mais de mil pessoas no País Basco, é filho de um agente da Guardia Civil e de uma agente da Ertzaintza, a polícia autónoma basca. Já contou que começou a ser guarda-redes apenas para jogar à bola com os amigos, já que faltava sempre alguém para ir à baliza nas partidas na rua, e entrou nas camadas jovens do Athl. Bilbao quando era adolescente. Estreou-se pela equipa principal em agosto de 2018, contra o Leganés, e desde então leva mais de 270 jogos pelo clube, tendo conquistado a Supertaça de Espanha em 2021 e a Taça do Rei em 2023/24.

No discurso, naturalmente, Unai Simón também recordou os amigos de sempre. “A minha quadrilha de infância que trago comigo há mais de 20 anos. São eles que me lembram de que muitos dos que estamos aqui nesta sala somos uns privilegiados na vida, na sociedade que temos, e são eles que fazem com que mantenha os pés na terra”, atirou. Mais à frente, o guarda-redes lembrou alguns dos treinadores que o acompanharam nos últimos anos, sem esquecer os selecionadores, e também os colegas de equipa na seleção e no clube.

“Luis de la Fuente, Ernesto Valverde, Luis Enrique. Os meus companheiros de seleção, Joan, David, sem vocês teria sido impossível conquistar o troféu que conquistámos este verão, um dos verões mais bonitos da nossa vida. Os meus companheiros do Athl. Bilbao, em especial Óscar de Marcos, Iñiko Lekue e Gorka Guruceta. Três das pessoas mais maravilhosas que o futebol me ofereceu”, disse o espanhol, que se tornou internacional em 2020 e que já leva 69 internacionalizações.

Ainda no discurso, Unai Simón deixou palavras ao próprio Athl. Bilbao. “Um clube que me deu tudo. Aprendi a amar as suas cores, a sua história e sobretudo a amar uns adeptos a quem estou eternamente agradecido. É por tudo isso que estou aqui hoje a receber esse prémio, muito obrigado a todos”, acrescentou o guarda-redes, que ao longo dos últimos anos foi recusando várias abordagens e propostas de outros clubes para permanecer no País Basco, perto de casa e da família e a jogar no clube de sempre.

Por fim, mesmo antes de descer do palco do London Palladium, o espanhol acabou por deixar a mensagem mais emotiva da noite — e fazer com que muitos recorressem rapidamente ao telemóvel para ver de quem estava a falar. “Por último, gostaria de agradecer a Koldo Asúa, que descanse em paz. Ensinou-me a entender o futebol de uma maneira diferente daquela que eu compreendia. Ensinou-me que há muita coisa no futebol para lá dos troféus, de ganhar jogos ou dos reconhecimentos individuais. O verdadeiramente importante é o legado que cada um de nós deixa quando isto tudo acaba. O importante é sermos reconhecidos por sermos boas pessoas, bons companheiros, para lá dos triunfos que tenhamos”, indicou, levando praticamente toda a gente a questionar-se sobre quem era Koldo Asúa.

Passou de “inseguro” a “diferente” e tornou-se o número 1: Simón bateu no fundo em 2021, mas tudo mudou com uma conversa (e Luis Enrique)

Ora, Koldo Asúa, que morreu em dezembro de 2021, trabalhou durante 13 anos no Athl. Bilbao e desempenhou diferentes funções nas camadas jovens do clube, acabando por ser integrado no Departamento de Atenção ao Jogador, ocupando-se do acompanhamento pessoal e académico dos jovens jogadores, mantendo contacto com as famílias e com as escolas. Era conhecido como “professor”, até porque tinha mesmo dado aulas de Línguas e Literaturas, e foi uma figura fundamental para várias gerações da formação dos bascos.

Unai Simón lembrou ainda “o melhor exemplo”, alguém que “aos 83 anos continua a ser recordado por tudo o que deu, dá e vai continuar a dar” ao Athl. Bilbao: José Ángel Iribar, mítico guarda-redes que fez toda a carreira nos bascos, entre os anos 60 e 80, somando quase 500 jogos e tornando-se também internacional por Espanha, que representou no Mundial de 1966. Agora, Simón prolonga o legado de Iribar, Carmelo Cedrún, Raimundo Pérez Lezama, Andoni Zubizarreta e até Kepa, ocupando a posição de guarda-redes que no Athl. Bilbao se tornou sinónimo de longevidade e sucesso.