Os episódios recentes no Governo com o caso do Secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território que criou duas empresas que podem vir a beneficiar com a nova lei dos solos, na Assembleia da República com o caso insólito do Deputado Arruda e no Bloco de Esquerda que despediu funcionárias do partido que ainda estavam a amamentar, vieram descredibilizar, ainda mais, a classe política. O que não se previa tarefa simples, uma vez que se deixou de acreditar e confiar nos políticos há imenso tempo, fruto da desonestidade, incompetência e falta de qualidade de grande parte dos atores políticos.
Começando pelo caso do Secretário de Estado, não se percebe porque demorou duas semanas a apresentar a sua demissão perante o silêncio do 1.º Ministro. Após a notícia ter saído na comunicação social, a demissão deveria ter ocorrido de imediato. Demorou a sair e diz que sai para não beliscar a credibilidade do Governo, só que já a beliscou bem!
No caso do Deputado Arruda, ficámos todos a saber que por ter sido constituído arguido num processo em que lhe é imputado o roubo de malas, saiu do Chega, tornou-se Deputado não inscrito e até passou a ter mais algumas regalias. Tudo isto sucede com um Deputado do partido que mais levanta a bandeira contra os bandidos, mas que tem vários Deputados com processos judiciais. Aliás, as declarações prestadas pelo Deputado Arruda são bem elucidativas do critério “rigoroso” na escolha das pessoas para as listas de candidatos a Deputados. Tudo isto é completamente anedótico, mas real!
Por fim, no caso do despedimento das funcionárias do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, depois do caso ter sido denunciado publicamente, surge a dizer que errar é humano, assumindo o erro cometido. Só que quem gere uma empresa, uma instituição ou um partido político não pode cometer erros deste calibre. Para além disso, Mariana Mortágua é conhecida por ser impiedosa com as entidades patronais na defesa dos trabalhadores, disse impiedosa, porque nessas circunstâncias nunca usou a argumentação que agora aplica em relação ao partido que dirige, demonstrando total incoerência e falta de credibilidade política.
Já agora, parece andar tudo desatento às nomeações que têm sido feitas pelo atual Governo, as clientelas partidárias da AD lá vão sendo colocadas aqui e ali, ou seja, mudam os Governos e mudam as clientelas, mantendo-se o modus operandi que tanto nos tem prejudicado e que não há maneira de se inverter, num sistema completamente viciado e desprovido de valores.
Os Portugueses só têm o que merecem, porque permitiram e elegeram ao longo de décadas gente malformada, sem ética, desonesta, sem formação e incompetente. Não importa dizer-se que a culpa é da esquerda ou da direita, a culpa é de todos.
Infelizmente, os três F’s do tempo da ditadura, continuam a ser predominantes na nossa pobre sociedade que vive uma enorme crise de princípios e valores que nos vai corroendo, tal como o comodismo e alheamento de um povo que nada exige e com tudo se conforma.
É muito difícil inverter este ciclo sinuoso, mas cabe-nos a nós, enquanto cidadãos deste País, fazermos alguma coisa para mostrar à classe política que estamos cansados deste sistema viciado e descredibilizado.
Em suma, no nosso panorama político, aplicam-se bem as expressões “é cada tiro, cada melro” ou “cada cavadela, cada minhoca”. Veremos até quando…