Antes de cada initium não há vazio, mas uma tensão, uma compressão daquilo a que não se consentiu ainda surgimento. Aquilo a que os textos sagrados chamam “início” nunca é um ponto colocado na ponta de uma linha; é uma ruptura na continuidade, um afrouxamento do que estava fechado, uma concessão súbita de espaço. O hebraico בְּרֵאשִׁית (bereshit – “no princípio”) não significa “era uma vez”. Aponta para uma abertura, uma incisão por onde o ser pode passar. A criação não é o fabrico de algo a partir do nada, mas a interrupção de uma plenitude sufocante, a primeira permissão consentida à diferença.
É por isso que a primeira palavra não nomeia uma coisa – liberta a luz. Não o sol, não as estrelas, mas a própria luz, anterior a todo o corpo, anterior a toda a medida. A luz não é um objecto, mas condição. Ela não decora o mundo; consente-o. Torna as coisas possíveis antes de as tornar visíveis. O brilho de tudo aquilo que começa não é ornamental, mas soberano. Estabelece o direito a aparecer. Todo o verdadeiro início repete este gesto primordial: abre uma clareira onde algo, até então impensável, pode de repente surgir sem justificação.
A esta força, os gregos chamavam ἀρχή (archē), e nesta palavra conservaram uma inquietação que a linguagem moderna perdeu. Archē significa origem, mas também ordem, regra, princípio. O que começa não fica para trás de nós como uma memória a consultar; avança à nossa frente como uma necessidade que vincula. Um começo não é passivo; governa o que virá depois. Traça a sequência como uma lei que não foi ainda escrita, mas que já está em vigor. É por isso que os inícios nunca são suaves. Impõem uma forma antes mesmo de ser dado o consentimento.
A imaginação mítica nunca tratou as origens como relíquias. Tratou-as como armas. Zeus reina não por ser eterno, mas por ter interrompido uma linhagem. Cada geração de deuses nasce de uma mutilação, de uma devoração, de uma deslocação violenta: Úrano é castrado, Cronos é destronado, Cronos é derrubado pelo preciso filho que procurava impedir. O cosmos avança através de feridas. A renovação não negoceia com aquilo que a precede; ela anula a sua autoridade.
Em Hesíodo, a história não é uma narrativa de progresso, mas de descamação. Cada era perde algo da luz anterior, mas cada uma deve chegar como que intocada, como que recém-exposta. Até o declínio entra no mundo com frescura. A própria corrupção não se repete; chega sempre pela primeira vez. Este paradoxo é essencial: nada entra na existência sem novidade, nem mesmo a putrefação.
O Deus bíblico não luta para começar o mundo. Ele fala. A própria fala torna-se o modelo da criação. “Faça-se” não é uma descrição; é um imperativo. A realidade obedece porque foi interpelada. O mundo existe porque foi convocado para a audibilidade. Todo o início é, portanto, um discurso, um apelo lançado àquilo que ainda não pode responder.
É por isso que a invocação precede a narrativa. Homero não começa por relatar acontecimentos, mas por pedir uma voz – “Canta, musa.” A epopeia nasce não da memória, mas do apelo. O início não sabe; convoca.
Calipso oferece a Ulisses uma eternidade sem arestas, uma duração sem interrupção, uma vida que não precisaria jamais de recomeçar. Ele recusa-a. Prefere o tempo exposto do regresso, o áspero ritmo das partidas e das chegadas. Escolhe a ferida da finitude em vez da anestesia da permanência. A frescura da chegada importa mais do que a segurança da estagnação. Para o mito, herói nunca é aquele que perdura. É aquele que teima em recomeçar.
Na Odisseia, cada ilha não é um episódio que se acrescenta ao anterior; é um mundo que revoga este último. A geografia não se acumula. Ela substitui-se. Ulisses sobrevive porque permite o apagamento. Não carrega a praia anterior para a seguinte. Aqueles que recusam esta novidade absoluta ficam imobilizados: os Lotófagos dissolvem-se em doçura sem memória. As vítimas de Circe não sofrem; são aprisionadas numa forma que deixa de recomeçar. No mito, o maior perigo não é a morte. É a continuação sem renovação.
O brilho daquilo que começa é insuportável precisamente porque lhe falta contexto. Surge antes da interpretação. No Génesis, a luz precede os luminares. O significado precede a estrutura. O choque do initium reside nisto: algo brilha antes de poder ser explicado. Permanece nu, injustificado, exposto. É por isso que os inícios cegam.
Quando Platão descreve a ascensão da caverna, o primeiro encontro com a verdade não é a compreensão, mas a dor. Os olhos ardem, a alma recua. O conhecimento começa por ser uma violência contra o hábito. A clareza vem depois, como uma cedência. O novo não acalma. Desorienta.
O latim principium preserva essa mesma severidade. Nomeia um começo, mas também um fundamento, uma autoridade, uma fonte de ordem. Um princípio não persuade. Obriga. Recomeçar não é exercer a liberdade, mas submeter-se a uma diferente necessidade.
Esta necessidade é o que Espinosa mais tarde reconheceria como alegria – não prazer, não satisfação, mas o aumento de poder que acompanha o alinhamento adequado. Não se escolhe a alegria. Ela acontece quando algo começa corretamente. É o sinal de que se cruzou um limiar e que a resistência diminuiu.
O mito já o sabia muito antes de a filosofia o nomear. Dioniso não é o deus do prazer; é o deus da chegada. Ele aparece, e com a sua aparição o mundo tem de reorganizar-se ou despedaçar-se. A sua epifania é súbita, intolerável, inegociável. A novidade não pede autorização.
A criança divina é sagrada no mito não porque seja inocente, mas porque encarna desde o início, sem demora. Hermes rouba o gado no dia do seu nascimento. Apolo mata a serpente assim que os seus membros o conseguem sustentar. O novo não se submete ao velho. Ele afirma-se por inteiro.
Na narrativa bíblica, Adão nomeia os animais, e nomear, bem o sabemos, não é classificar, mas inaugurar. Dar um nome significa estabelecer a primeira relação, fixar um vínculo onde antes nada existia. A própria linguagem começa enquanto brilho, surgindo antes da gramática, antes da lei. As palavras brilham brevemente, perigosamente, antes de se endurecerem em regras.
Toda a cultura sabe que o nascimento da fala é também o nascimento da transgressão: a Torre de Babel não é punida pela sua altura, mas pela sua continuidade. Ela tenta fundar um começo sem dispersão, uma unidade sem ruptura. Deus intervém não para humilhar a ambição, mas para reintroduzir a diferença. A renovação exige dispersão. A frescura absoluta não pode ser centralizada.
A tradição sobrevive apenas pela interrupção. Um ritual que se repete sem qualquer perigo deixa de começar e torna-se inerte. Aquilo que não pode ser quebrado também não pode ser renovado.
O calendário romano colocava este conhecimento sob o signo de Jano, o deus de duas faces. Vê para trás e para a frente, embora as porta se abram apenas para um lado. O limiar não tolera demoras. Hesitar demasiado no início significa perecer aí. O brilho marca a travessia.
Em Ovídio, a metamorfose não permite o retorno. Dafne não recupera o seu corpo. Ácteon não desperta da sua transformação. O início altera as condições de possibilidade. Assim que o mundo se abre de uma certa maneira, a memória não pode voltar a fechá-lo.
É por isso que a nostalgia odeia inícios. Ela anseia por uma luz que já não existe.
As Escrituras são implacáveis neste ponto. A mulher de Lot olha para trás e transforma-se em sal. Ela tenta preservar o que tem de dissolver-se. O passado endurece-a, transformando-a num objecto. A renovação não tolera olhares lançados para trás.
A frescura absoluta de um novo começo não é a inocência recuperada, mas a exposição assumida. Continua sem proteção, sem garantia, sem explicação. Ela brilha porque ainda não foi justificada.
Tanto no mito como nas Escrituras, a luz é perigosa. Sémele é consumida por ela. Faetonte não consegue governá-la. Moisés precisa de cobrir o rosto depois de encontrá-la. O novo excede o corpo que o recebe. E, no entanto, sem esse excesso, nada começa.
A criação não é um acontecimento concluído num tempo sagrado. É um padrão que se repete sempre que algo começa realmente. Cada genuíno início ecoa bereshit e cada vez que a luz se separa das trevas, o mundo recomeça.
A renovação das coisas não é, portanto, um ciclo reconfortante, mas uma sucessão de choques. O mundo não é velho. Está perpetuamente exposto. Cada instante é jovem porque se abre sem precedentes. O brilho é a marca dessa abertura – não a clareza, não a explicação, mas o aspeto nu. O novo brilha porque não foi ainda racionalizado. Começar é consentir essa luz injustificada.
Nada garante a continuação daquilo que começou. O mito não oferece segurança. As escrituras não oferecem segurança. Existe apenas o acto: a abertura, a separação, o sussurro que rompe o silêncio. E, no entanto, isso basta. Porque onde quer que algo comece de forma absoluta, o mundo, por um instante, é recriado.
Feliz 2026!