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As direções do presidente Luís Filipe Vieira fizeram um trabalho notável de recuperação da situação económica e financeira do clube e aos dias de hoje, em tempos de pandemia, o SLB chega com contas saudáveis, com liquidez, credibilidade, com inferior dependência da banca em relação aos seus rivais, com uma academia elogiada no mundo inteiro e uma organização profissional extra-desporto que funciona e é reconhecida internacionalmente.

Contas saudáveis, contudo, são condição de sucesso e sustentabilidade futura, mas não são garante de conquistas de títulos.

O desporto, sobretudo o de equipa, não é Matemática, ou seja, se investirmos o dobro não é matemático que ganhemos o dobro.

Há outros factores tão ou mais importantes para o sucesso desportivo, como a ambição, a humildade, a garra, o espírito de equipa, a identidade, a cultura de clube. E o SLB é um clube de desporto, não é uma sociedade de investimentos. A grande maioria dos seus sócios não tem qualquer objectivo financeiro, a única coisa que quer, é ver boas equipas, bons jogadores e a conquista de títulos. Mas, sobretudo, quer ver equipas que tenham o ADN histórico do clube, ou seja, que ganhando ou perdendo, “morram” dentro do campo a lutar pelas vitórias.

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A gestão do clube tem de ter em atenção estas premissas. Digo isto, porque o que vejo é que a gestão desportiva do SLB tem sido mais parecida com a de uma gestora de um fundo de investimento de jogadores do que tendo como objetivo a conquista de títulos.

Acumulam-se jogadores, comprando todas as épocas 20 a 25, dos quais mais de 50% nunca vestem a camisola do Benfica. Quando o plantel precisa de um defesa esquerdo ou de um trinco, compram-se três extremos porque estavam em fim de contrato, ou estavam baratos, ou têm potencial de valorização; e quando precisamos de um avançado rápido que ganhe espaço, compramos um avançado sem mobilidade porque estava em fim de contrato. Inevitavelmente, época após época, chegamos ao fim da janela de contratações e faltam-nos SEMPRE dois a três jogadores para posições chave.

Ora, esta política até pode, eventualmente, ser um bom negócio e a direção estar a defender os interesses do clube. Mas não é esse o nosso negócio e retira o foco do maior objetivo.

O nosso negócio é construir plantéis equilibrados, com várias soluções para o técnico, com um misto de juventude e veterania, um misto de talento e garra, com competitividade de jogadores para cada posição, etc., etc., etc., ou seja, um plantel que nos permita atacar em todas as frentes e conquistar títulos.

Boa gestão desportiva não é comprar por cem e vender por mil. Boa gestão desportiva é construir plantéis dentro dos orçamentos possíveis e ganhar títulos.

As receitas da Liga dos Campeões têm que ser o objetivo principal e não as vendas de jogadores. Eu sei que é mais fácil e menos imponderável vender um bom jogador do que ir longe na Liga dos Campeões, mas tem de ser por aí.

Quanto construímos plantéis desequilibrados e os resultados desportivos não aparecem, temos imediatamente de vender jogadores, como aconteceu esta época, aliás, com o Rúben Dias.

Está na hora do desporto assumir a sua importância no clube, a estrutura desportiva tem de ter mais força dentro da organização – o futebol e as modalidades amadores. A obsessão tem que ser ganhar títulos e reconquistar prestígio internacional.

Nas provas europeias, se estivermos atentos às conferências de imprensa dos treinadores das equipas adversárias do Benfica , como é que eles veem o atual Benfica? Um clube histórico. Que forma bons jogadores. E que os vende como ninguém. Ponto. Estas opiniões são o reflexo do modelo desportivo do Benfica que tem confundido política desportiva com modelo económico.

Mas é esta a expectativa dos sócios? Ser o clube que forma e vende bem? Tenho a certeza que não. Temos um bom modelo económico, mas temos uma péssima política desportiva.

Em segundo lugar, o discurso vigente, sempre à volta dos milhões e dos recordes de vendas de milhões, da melhor academia do mundo, das OPA mal explicadas e que, mais uma vez, até poderia ter sido um bom negócio para o clube, mas que 99% dos sócios não compreendeu nem quer compreender, tem criado um ambiente de novo-riquismo burguês, acomodado, que se transmite às equipas desportivas.

Sinceramente, e sem querer ser injusto para alguma modalidade, a maioria das equipas do Benfica estão amorfas, burguesas, acomodadas, resignadas, sem reação, raramente se superam, raramente cumprem mais do que os serviços mínimos.

É urgente reencontrar o ADN do clube e isso faz-se através de pessoas que o conheçam e o tenham vivido, dando-lhes poder de decisão e de responsabilidade e direcionando a organização para o desporto e para os títulos – e não para os orçamentos.

A mística que ganha jogos e títulos não se compra nem se vende, cultiva-se dia-a-dia. Não devemos ser uma organização comercial de compra e venda em primeiro lugar e, em segundo, uma equipa de futebol de competição.

É preciso voltar a ter uma cultura de clube vincada como já tivemos. É preciso fazer mais com pouco e não pouco com muito. Estávamos no bom caminho quando fomos campeões com uma equipa jovem, formada em casa, que deveria ter sido reforçada com três ou quatro jogadores experientes e de qualidade inquestionável em posições específicas que estavam débeis. Mas, como sempre, fomos buscar um jogador alemão caro para uma posição de que não precisávamos, porque foi uma “oportunidade”.

Entretanto, mudámos totalmente a estratégia. Assim, estamos constantemente a adiar o sucesso desportivo e a dar tempo e espaço aos nossos rivais diretos para se recomporem.

Rui Costa conhece o clube desde pequeno, foi jogador de topo, é um ídolo do clube, é um inquestionável benfiquista e entende, com certeza, toda a importância desta conversa. Mas será que tem poder para isso? E será que quer ter poder e responsabilidade? Estará disposto a sair se não concordar com a política desportiva? Sinceramente, não sei e acho que maioria dos benfiquistas também não sabe.

Quem é que manda, no fundo, no futebol? Quem é responsável? É o presidente? É o Rui Costa? É o treinador?

Até agora, tem sobrado sempre para os treinadores e jogadores. Depois, mudam-se treinadores e jogadores e a atitude é a mesma.

A organização tem que mudar.

O foco e o discurso, sobretudo interno, mas também externo, tem que voltar a ser o do desporto e o da obsessão em ganhar jogos, seja nos infantis ou nos seniores, seja em jogos amigáveis ou na final da Liga Europa, e conquistar títulos.

Os milhões são apenas um meio e não um fim.

E por muitos milhões que tenhamos, o Real Madrid, o PSG, o Manchester City e talvez mais uns 20 clubes na Europa terão sempre muito mais do que nós para investir e, por isso, o meio para lá chegar tem que ser reencontrando a nossa identidade e a nossa cultura de clube.

Já ganhámos duas Ligas dos Campeões, estivemos em cinco finais e, já nessa altura, o Real Madrid e o Barcelona eram clubes mais ricos e tinham os melhores jogadores do mundo. Estes resultados foram conquistados com talento, ambição, humildade, garra, espírito de sacrifício e o dinheiro teve muito pouco a ver com isso. É este o caminho.

Os tempos são diferentes, eu sei, e a lei das transferências não nos permite segurar os melhores jogadores eternamente, mas é possível fazer muito melhor desde que tenhamos a cultura certa e a estratégia desportiva correta.

Se não mudarmos, vamos continuar a ganhar títulos intermitentemente, até pela debilidade financeira dos nossos rivais internos, mas nunca reconquistaremos a hegemonia e o glamour de outros tempos. Continuaremos a ser uma equipa da segunda ou terceira divisão europeias.

Há uma direcção eleita com uma grande maioria e, pessoalmente, não sou adepto de revoluções e eleições antecipadas, pois são muito perigosas.

Mas será que o presidente Luís Filipe Vieira, que merece ficar na história como um grande presidente, ainda tem a energia para perceber que é preciso fazer de outra forma e que o modelo seguido não nos leva à glória?

Espero que a equipa melhore bastante ainda durante esta época, a tempo de conquistar algum título nas três frentes onde ainda está presente. Mas espero ainda mais que, para lá dos resultados desportivos de curto prazo, haja a humildade e a inteligência para mudar e que as nossas equipas, de todas as modalidades mas sobretudo a do futebol, voltem a ter a “chama imensa” de que fala o nosso hino.