A massa vota em si mesma e, quanto mais medíocre for, mais mediocridade elegerá. Como esperar que uma massa alérgica à reflexão, que se move em função do que se diz dentro de si, que se ergue pela causa que a moda dita, consiga conceber representantes diferentes da sua própria representação?

Em democracia, a multidão escolhe a sua representação. E parece-me óbvio, ou talvez apenas aparente, que escolherá sempre como representante aquele que mais se lhe assemelhe.

Ora, um povo acrítico, impulsivo e incapaz de produzir reflexão atrai inevitavelmente candidatos do mesmo perfil.

Os génios são génios exactamente por serem excepção, e os medíocres, medíocres são, exactamente pelo contrário. A regra é a mediocridade.

Que não se entenda, porém, como um juízo de valor ou moral entre os virtuosos e os defeituosos. Nada disso. Constato um fundamento humano, algo que é próprio da nossa natureza, da nossa condição antropológica.

A mediocridade não é um acidente, mas sim a base estrutural da humanidade. É o todo, a repetição, o habitual; é o garante da estabilidade. A genialidade é a raridade, é o rompimento com a normalidade. A natureza do génio é também a mediocridade, mas destaca-se num determinado campo, em que rompe com a normalidade. Fora desse campo, é tão medíocre quanto os restantes medíocres. O que digo é que, sem a mediocridade enquanto fundo, a genialidade não existiria. É uma questão estrutural.

E como existirão sempre génios e medíocres — pois as suas existências estão dependentes dos seus opostos — precisamos de elevar a consciência dos medíocres para elevar a originalidade dos génios. Elevar todos a génios seria uma contradição lógica. É impossível pela própria natureza. Se todos fossem génios, ninguém seria génio; se todos fossem medíocres, ninguém seria medíocre.

Elevar a consciência dos medíocres é garantir a protecção dos génios. Enquanto nós, os medíocres, vivemos para o imediato e temos dificuldade em pensar para lá das limitações da nossa natureza, os génios vivem constantemente fora da sua época, o que leva sistematicamente ao choque entre ambos. Somos feitos de naturezas que, de tanto terem em comum, se diferenciam no que há de maior. Pois até um génio, fora do seu campo de genialidade, é um ser medíocre. A diferença é que não é apenas medíocre.

A mediocridade é o terreno plano onde se eleva a montanha da genialidade.

Uma massa humana tendencialmente medíocre e incapaz elegerá, como seu líder, um representante medíocre e incapaz. Incapaz de ver para lá do imediato, de se confrontar com os limites da sua natureza e tentar explorá-los, incapaz de ser mais do que um plagiador ou de produzir reflexão.

As massas que não procuram, que não questionam, que não veem para além da aparência e que não vislumbram para lá do imediatismo dificilmente produzirão representantes superiores a si mesmas. Se eles são os seus representantes, eles são a sua representação.

Fernando Pessoa escreveu que, de tão disciplinados, “mais parecemos um exército do que uma nação de gente com existências individuais.” Esta tendência colectiva leva-nos a agir em função do todo, dentro do todo e para o todo, sempre com receio de nos diferenciar. Encontramos na massa uma segurança ilusória, mas que, em simultâneo, nos anula como indivíduos.

Sou, é sabido, conservador. Um defensor da prudência — a virtude maior do conservadorismo. Por vezes, este posicionamento é confundido com inactividade, com a produção do nada e a elevação da imobilidade. Mas faço questão de esclarecer: é precisamente o oposto.

Sou promotor da máxima actividade, do diálogo, da reflexão e da discussão. Sempre fui, como gosto de dizer, um “extremista da liberdade de expressão”. É no confronto de pensamentos divergentes que surgem as melhores e as piores ideias e, por vezes, fragmentos que podem, se trabalhados, reforçar a coesão social.

É nesse ambiente de diversidade intelectual que pode nascer uma massa crítica, exigente, forte e corajosa. Uma massa que, ao cultivar o espírito crítico dentro de si, inevitavelmente formará representantes que, sendo reflexo dessa mesma exigência, serão eles próprios mais capazes e mais íntegros.

Criemos, pois, uma sociedade de coragem moral, vigorosa, batalhadora, guardiã da herança e da tradição. Uma sociedade construtiva e promotora de excelência.

Tudo começa em algum lado, e esse lugar é dentro de cada um de nós, no primeiro passo dado com consciência.