O Gabinete do Primeiro-Ministro emitiu um comunicado sobre o reconhecimento do Estado da Palestina. Por mais distante que esteja da aberração inglesa, que condicionou um tal reconhecimento ao cessar-fogo, degradando numa penada o Reino Unido, Israel e o próprio Estado da Palestina, além da entorse das vetustas e prudentes tradições diplomáticas por via da chantagem em público; por mais distante que esteja do voluntarismo delirante de Macron (delirante, mas com boas razões económicas e eleitorais), a posição do governo português labora nos mesmos erros fundamentais.

Em primeiro lugar, ao fazer avançar o processo de reconhecimento no decurso da guerra, toda e qualquer proposta será inevitavelmente vista como um ganho ou uma perda no conflito, o que acarreta consequências. Independentemente do resultado das negociações, uma das partes, o Hamas, julgou-se logo suficientemente forte para endurecer as negociações sobre a libertação dos reféns.

Em segundo lugar, apesar de se fazer passar por positivo o facto de o interlocutor diplomático ser a Autoridade Palestiniana, favorece-se o ofuscamento permanente no que diz respeito às condições locais. A Autoridade Palestiniana afirma uma coisa em inglês para os jornalistas ocidentais, diz outras em árabe para consumo interno (deliberadamente mal traduzidas, quando o são, pelos meios de comunicação social ocidentais; o caso clássico é judeus em árabe acabar traduzido em inglês por forças militares israelitas).

Em terceiro lugar, o comunicado inclui um parágrafo vergonhoso e imperdoavelmente anti-semita: a «evolução altamente preocupante do conflito, seja na dimensão humanitária, seja na repetida alusão à possibilidade de anexação de territórios palestinianos». Com a indisfarçável sonsice de quem sabe muito bem o que está a dizer, estas duas linhas responsabilizam Israel pela situação humanitária – sem sequer sentir a necessidade de recorrer à falsa simetria e à falsa equidistância −, caucionando a propaganda implacável do Hamas, cujo êxito em grande parte das opiniões públicas, e ainda mais nas opiniões publicadas, não pode ser escamoteado.

Com isto, o governo português toma partido: contra Israel. Acresce que nunca evidenciou «disponibilidade para iniciar o procedimento», qualquer que ele fosse, quanto mais relativo ao reconhecimento de um Estado. A evolução altamente preocupante na dimensão humanitária na Ucrânia contribuiu para o «arranque de um processo de reconhecimento» dos territórios conquistados pela Rússia? Que disponibilidade houve para iniciar um qualquer procedimento em função da repetida alusão à destruição do Estado de Israel por parte do Irão? Dois pesos e duas medidas: pesos que pesarão nas consciências e medidas que serão a medida da cobardia.

Por último, o erro essencial. Se se iniciar o processo do reconhecimento do Estado da Palestina agora legitima-se retroactivamente o Hamas e o recurso à violência, inclusive contra civis − civis israelitas e civis palestinianos. Historicamente, o Estado Palestiniano passará a ter sido fundado em 7 de Outubro de 2023. Toda a campanha militar e de propaganda, o seu braço civil usado com uma maestria de absoluto rigor científico, sairá vitoriosa. Pensar que esses vencedores desaparecerão do palco histórico ou é um caso psiquiátrico ou é fazer o jogo do Hamas. Seja como for, o Hamas terá conseguido algo que a propaganda por si só nunca lhe dá, mas que constitui sempre o seu desígnio: produzir a verdade.  Porque passará ser verdade que o Estado palestiniano só veio a existir por acção do Hamas. Um facto novo que estará além de toda a propaganda − já não precisará dela.

Assim, não se resolve um problema, criam-se antes condições ainda mais difíceis para que um dia venha a ser resolvido. Além da questão local, os reflexos da legitimação da violência em todo o mundo ocidental não deixaram de se fazer sentir − dos lobos solitários aos chamados territoires perdus de la République. Qualquer que venha a ser o desfecho de toda a situação, o simples facto de o problema ser equacionado nestes termos é já uma vitória do Hamas. A factura de um tal erro será apresentada a breve trecho. É só esperar.