Quando a 11 de Maio neste artigo perguntávamos se a estratégia estaria a falhar, já havia alguns sinais nesse sentido, após as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, e do 1º de Maio na Almirante Reis.

A 18 de Maio quando num artigo de Pedro Ribas Araújo, se perguntava se haveria algum plano de backup, era já reconhecida a necessidade de estarmos preparados para o ressurgimento de casos com o desconfinamento.

Na altura já defendíamos a necessidade de se investir numa equipa de rastreamento com um número elevado de recursos humanos, para rastrear contactos e antecipando a importância de se desenvolver uma aplicação de “contact tracing”, com bases de dados independentes (para protecção de dados dos utilizadores). Só assim seria possível “evitar novos confinamentos e poder entrar no Outono em maior segurança”.

Constata-se que pouco ou nenhum investimento foi feito, e que a Aplicação desenvolvida pelo INESCTEC continua “guardada no armário, não se notando qualquer vontade política para desbloquear a situação.

Sabe-se hoje que no concelho da Amadora por exemplo, com 177 mil habitantes, havia 4 pessoas a fazer os rastreios e que o reforço de outras 5 pessoas demoraram 2 semanas a chegar.

Mesmo esse número de recursos para um universo tão grande de habitantes (e tantos casos) torna a situação impossível de controlar e é completamente desfasado da realidade dos países Europeus, que apostaram no rastreio, como forma de quebrar as cadeias de contágio.

Quando na altura sugerimos a contratação de uma generosa equipa de recursos humanos para rastreio generalizado em Portugal, estimamos o investimento em cerca de 2 milhões de euros mês. Esse custo comparado com os prejuízos económicos de termos descontrolo de casos (já para não falar dos mortos), era insignificante.

O Reino Unido colocou Portugal na lista de países com regresso com quarentena para os britânicos, bem como cerca de 20 países por essa Europa fora, o que para o Turismo Português irá representar uma perda potencial de centenas de milhões de Euros.

O Governo foi incompetente ou mesmo negligente. A dimensão da incompetência e da irresponsabilidade por parte das autoridades sanitárias, ainda não é totalmente clara, e não pode ainda ser apurada na sua totalidade, mas espera-se que o Governo a partir de agora tome as medidas adequadas para conter os surtos.

É caricato que seja o próprio Governo Britânico a ajudar e a explicar como “contornar” a situação, sugerindo que nada impede um turista britânico de voar para um aeroporto espanhol e vir passar férias a Portugal.

A falta de profissionalismo na coordenação política das várias entidades públicas que intervêm neste processo, mostra o quão importante teria sido a criação do Gabinete de Pilotagem da Covid-19, à imagem do que a maior parte dos países desenvolvidos fizeram.

É claro agora que as decisões que as entidades têm tomado e as informações contraditórias que os principais responsáveis políticos têm veiculado publicamente, Presidente da República incluído, devem-se a não haver uma estratégia claramente definida, planeada e estruturada, para fazer frente à epidemia.

O atender aos interesses políticos que tem levado o Governo a abrir continuadamente excepções a forças políticas, para manifestações, festas e afins, ao contrário do exigido à população em geral, e em detrimento do interesse público, mostra uma incapacidade gritante do Governo para assumir a responsabilidade que este momento de “guerra à Covid-19” exigiria.

Quando se chega a este extremo, quando nos afecta a todos pessoalmente, a milhares de portugueses, e nomeadamente ao turismo, que é uma das principais bases de sustentação do país actualmente, não podemos ficar impávidos e serenos a assistir a tudo isto.

Estamos a ficar fartos das manifestações que só alguns “especiais” podem fazer, das “Festas do Avante”, dos concertos no Campo Pequeno, que passam esta falsa sensação de segurança e normalidade, quando estamos cada vez piores e mais longe de onde devíamos e poderíamos estar, depois de um esforço gigantesco de todos nós, fechados durante meses em casa, para agora deitarmos tudo a perder.

E não foi por falta de avisos… é revoltante tudo isto. É que se houve algum “milagre português”, devemo-lo apenas aos portugueses, pois a gestão da epidemia pelo Governo foi e é de desenrasca. O fim anunciado, e revogado, das sessões do Infarmed é a prova do falhanço da estratégia de contenção da pandemia.

Surpreende a atitude de Marcelo Rebelo de Sousa e de Graça Freitas, não pelas pessoas em si, mas pelos cargos que deveriam exercer, em que a propósito desta pandemia, já ninguém acredita no que é proclamado pelo Presidente da República e pela Directora Geral de Saúde, por culpa exclusiva dos próprios.

Estamos na cauda da Europa, outra vez, e a delapidar a boa imagem construída, e isto vai e está-nos a sair muito caro. O Primeiro-Ministro, António Costa, já devia ter percebido que preocupar-se mais com o palco mediático, do que com o país, vai trazer-lhe maus resultados.

Rodeado de gente que mostra pouca preparação, o Primeiro-Ministro e a sua equipa mostram diariamente que continuam mal informados sobre a epidemia da Covid-19.

Em vez de ter constituído uma equipa de gente conhecedora e competente para analisar todos os “papers” que diariamente vão saindo e auxiliar na tomada de decisão, António Costa e a sua equipa política passaram a decidir de forma exclusivamente política, desapoiada e medíocre.

Começamos bem nesta pandemia, sobretudo graças à atitude cautelosa de todos os portugueses, mas quando foi preciso passar do “desenrascanço” para o planeamento e boa execução, o Governo demonstrou a mesma competência com que já nos tinha brindado nos incêndios de 2017.

E para complicar ainda mais as coisas, temos depois os partidos políticos em geral, que desde o PSD e o CDS que parecem ter-se demitido de fazer oposição neste tema, o Bloco de Esquerda e o PCP, que em plena pandemia, de forma totalmente irresponsável e com muito pouco bom senso, apostaram em manifestações no 1° Maio, Manifestações Anti-Racistas e Anti-Capitalistas, e agora até o Chega com manifestações anti-anti-racistas.

As manifestações e a mensagem de relaxamento e laxismo que transmitiram, destruíram a nossa hipótese de sairmos rapidamente da crise epidemiológica em que nos encontrávamos e fizeram com que aprofundássemos ainda mais a crise económica em que estamos, ao limitar gravemente a possibilidade de acolhermos o turismo estrangeiro, que esperávamos nos pudesse salvar em parte, a economia neste verão.

É por isso incompreensível que não se testem todos os passageiros que chegam aos aeroportos portugueses, sobretudo de origens com números muito elevados de infecções, como o Brasil e EUA.

Isto é de uma irresponsabilidade inadmissível. A falta de controlo aos passageiros em voos que aterram em Lisboa, pode ser uma das fontes de origem dos casos de infecções que têm surgido na capital, no último mês. De facto, a região de Lisboa e Vale do Tejo poderá ter estado a ser semeada de casos Covid em Abril, Maio e Junho, a partir de pessoas vindas do Brasil e dos EUA, países com enorme prevalência de casos.

De notar que, na Europa, praticamente só Portugal (e em particular Lisboa) manteve abertas estas ligações.

As justificações que nos foram sendo dadas eram pouco estudadas e obviamente enviesadas, para qualquer um que pense um pouco nelas. Não há registo de que a construção civil tenha sido causa de contágios no resto do país. Não há registo de que se tenham deixado de utilizar os transportes públicos no resto do país. E até a questão de se estar a testar muito em LVT, veio agora o Instituto Ricardo Jorge demonstrar que não existem mais testes na região de Lisboa do que no resto do país.

Nestes últimos meses terão entrado em Lisboa muitas dezenas de milhares de passageiros, em aviões que quase garantidamente vinham com infectados, em voos de várias horas onde é manifestamente impossível estar sempre de máscara, e que terá permitido entrar um grande número de infectados em Lisboa.

Certamente em número suficiente para terem contribuído em força para semear Lisboa de Covid, e que após o início do desconfinamento e com a ausência de medidas do Governo para aumentar a disponibilidade de transportes públicos, terá tido uma propagação fácil, como agora se vê.

Se as outras regiões do país têm tido poucos casos, o facto de estes casos se concentrarem à volta do único aeroporto na União Europeia que manteve as ligações aéreas abertas com esses países, não deveria ser causa de espanto, deveria ser causa de constatação e de rastreio epidemiológico, só que… não há recursos suficientes para isso ser feito.

Será assim tão difícil instalar nos aeroportos portugueses zonas de testes rápidos com sala de espera de resultados? Como é possível que passageiros entrem em Portugal sabendo que estavam infectados ao entrar num avião em Londres e saírem dos aeroportos sem qualquer tipo de controlo epidemiológico e por vontade própria irem ao hospital, verificar o seu estado de infecção?

Não é preciso ser-se uma sumidade em epidemiologia para se perceber que com a entrada de passageiros infectados com a Covid-19, o contágio foi exponencial no desconfinamento em Lisboa e Vale do Tejo, porque a densidade populacional é muito elevada, os transportes públicos foram reduzidos durante o confinamento e ainda não retomaram o nível pré-confinamento, e portanto não permitem o distanciamento necessário, e porque um elevado número de manifestações com presença de pessoas provenientes de vários concelhos, que se deslocaram para estas manifestações em camionetas onde partilharam percursos durante bastante tempo, servem também de meios de propagação.

Os especialistas que trabalham com a DGS prevêem uma subida significativa de novos casos três semanas após o início do próximo ano lectivo, que arranca a 14 de Setembro, o que não é de estranhar atendendo a que os miúdos até aos 10 anos vão continuar a ir para as escolas sem máscaras.

Os exemplos de países como o Luxemburgo, Israel e outros que estão a passar de verde para vermelho, deviam ser analisados com mais atenção. Cada vez mais crianças estão a ficar infectadas nas escolas e as escolas já proíbem os funcionários de divulgar os casos de infectados, inclusive aos professores. Há muitos mais infectados nas escolas do que os números publicados, e os Governos não pedem desculpas, nem recuam, apenas dizem que a culpa é dos pais, pois os miúdos não deviam vir infectados para as escolas.

Portugal tem de se preparar bem melhor que até agora, para o que aí vem. Devíamos estar a actuar como outros países da União Europeia e não destoar a nível Europeu como agora o fazemos.

Na maior parte dos países a utilização das máscaras passou a ser regra, pois é necessário um padrão, até à pandemia passar (provavelmente com o surgimento e disponibilização de vacinas). Se não houver uma regra clara geral e permanente para utilização de máscaras, o que teremos é a manutenção da destruição da economia, e maiores problemas no plano da saúde e da segurança epidemiológica.

Muitos países montaram equipas de rastreio epidemiológico, com dimensão suficiente para a população desses países, com milhares de pessoas afectas aos rastreios. Em Portugal a única coisa à grande, são os anúncios, a publicidade, e o engodo constante aos portugueses. Onde andam os 500 ventiladores e os milhões que se gastaram para comprar algo que nunca cá chegou?

A continuar assim e se não resolvermos o problema da entrada de turistas nas próximas semanas, a queda da nossa economia será ainda maior do que as piores estimativas até agora apontavam. Já muitas vozes nos avisam que um novo resgate, poderá estar a caminho.

É preciso por isso que o Governo, de uma vez por todas, aposte na segurança epidemiológica do país, com uma forte aposta em Rastreio, Testes, Higiene e Protecção, e garantir que há uma comunicação clara e concertada entre todos os actores da Saúde Pública, para promover essa estratégia de segurança.

Seria também importante o Governo apostar numa forte campanha promocional do Turismo português nos principais mercados emissores, com a mensagem que somos um pais epidemiologicamente seguro e apostar num maior controle nos aeroportos, por forma a transmitir maior confiança a quem pretende visitar Portugal.

Agradecimentos ao Think Tank informal “INFO | Covid-19”, ao Pedro Ribas de Araújo e ao Zé António Campos e Matos pelos seus contributos.