A estratégia seguida por Portugal, alinhada com a esmagadora maioria dos países ocidentais, de suprimir o novo coronavírus através de um confinamento abrangente, parece ter sido a mais segura e sensata.

Contudo, subjacente a essa abordagem que tanto prejuízo causa à sociedade reside o objetivo de ganhar tempo para conhecer melhor o problema e serem tomadas medidas mais focadas, com vista a reabrir setores da economia com confiança. E, sublinhe-se, hoje ainda não há confiança necessária.

Tal é motivado pela persistente incerteza quanto i) ao risco de infeção (influenciado pelos mecanismos de propagação do vírus e pelo número de infetados ativos) e ii) às consequências de uma infeção, influenciadas pela idade das pessoas e condições de saúde pré-existentes. Por mais apoios financeiros que possamos querer obter da UE, sem clarificarmos estas questões o motor da economia não arranca.

Impõe perguntar-se: o que aprendemos durante este tempo? E qual é a nossa estratégia atual?

O mundo ocidental respondeu à Pandemia demasiado tarde, desconsiderando os sinais cada vez mais evidentes que vinham da Ásia. Alguns autores (com destaque para Tomas Pueyo com o artigo Coronavirus – why we must act now?) identificaram e modelizaram o surto muito mais cedo do que as agências nacionais de saúde pública que deveriam ter essa responsabilidade.

Através da internet deu-se o alerta à sociedade portuguesa logo no início de Março; muitas empresas começaram a enviar os colaboradores para casa e estes a tirar os seus filhos da escola.

Foi a sociedade que pressionou o governo a tomar medidas na sequência das notícias vindas de Itália e Espanha. O medo instalou-se. O Primeiro-Ministro respondeu rapidamente e em dissonância com os peritos que tinham menosprezado o problema até então.

O quase autoimposto confinamento teve resultados muito importantes: conseguimos “achatar a curva” sem atingir o limite de capacidade de um SNS desprovido de meios e, diga-se, os resultados de mortalidade são bons, fruto de uma boa gestão de recursos, meios humanos de enorme qualidade e outras razões que ainda procuramos compreender.

Será impossível calcular quantas vidas foram salvas pela aplicação precoce de medidas de contenção, mas ficamos elucidados ao olhar para a mortalidade per capita dos países que reagiram mais tardiamente e para o drama humano vivido nos hospitais sobrelotados.

Em Espanha, com todas as restrições impostas, a Covid-19 foi, de longe, a principal causa de morte durante Março e Abril, representando 37% dos óbitos. Perante um tsunami destes a única alternativa dos impreparados era procurar um abrigo. Dizer o contrário é puro cinismo.

Por intermédio de testes serológicos feitos em múltiplas geografias supõe-se que haja um número muito maior de pessoas infetadas do que as reportadas.

Se, por um lado, tal reduz a taxa de mortalidade por infetado para níveis inferiores aos que entidades como o Imperial College previam, ela é suficientemente alta para corresponder a um número devastador de mortes e que em nada teria alterado a decisão de confinar.

Existe ainda um “excesso de mortalidade” indicado pelas estatísticas em quase todos os países da EU, parte do qual poderá vir a ser atribuído à Covid-19.

Dentro dos pacientes que sobreviveram (a vasta maioria), começam a descobrir-se casos com implicações ao nível de outros órgãos para além dos pulmões, tais como o cérebro, o coração, os rins ou o fígado. E dado que essas pessoas são em geral desconhecidas, também o são as complicações que possam ter tido. Um exemplo que sugere a nossa cautela é o das 3 crianças que faleceram a 10 de Maio em Nova Iorque com Síndrome de Kawasaki e que, tal como outras 38 com problemas inflamatórios, testaram positivo para Covid-19, parte em testes de diagnóstico (PCR) e parte em testes para anticorpos (já depois da infeção).

Sabendo que, em geral, o risco com as crianças é felizmente muito baixo, há que continuar a estudar estes casos com a maior atenção.

Existe depois a abordagem sueca que levantou muito debate, mas cujo interesse, no que nos diz respeito, se resume ao domínio da filosofia política. De facto, a mitigação leve da doença levada a cabo pelos suecos não é replicável na grande maioria dos países ocidentais – mais densos, com maior convivência intergeracional e com sociedades menos cívicas e cumpridoras das suas responsabilidades.

E, ainda assim, a Suécia segue com uma mortalidade acumulada 4 a 6 vezes superior aos seus vizinhos, arriscando vir a descobrir mais pessoas com complicações graves de saúde relacionadas com a Covid-19.

A verdade é que a abordagem sueca, procurando manter uma maior “normalidade” na sua sociedade (repare-se que nem aconselha o uso de máscara) e ambicionando a imunidade de grupo, não evitou uma quebra na previsão do PIB para 2020 em linha com os seus vizinhos escandinavos.

Isso dever-se-á fundamentalmente a dois aspetos. Em primeiro lugar, nenhum governo consegue obrigar as pessoas a consumir quando não há confiança – e será manifestamente difícil haver confiança com um número crescente de infetados desconhecidos nas ruas (o trânsito em Estocolmo caiu 75% e inúmeros eventos foram cancelados por falta de procura). Em segundo lugar, tratando-se de uma estratégia isolada, ela tenderá a manter a Suécia afastada do resto da Europa à medida que os infetados ativos no país continuam a subir, em contraciclo com o resto do continente (veremos como os destinos turísticos vão receber os suecos).

Em suma, a abordagem sueca parece ser objetivamente muito arriscada, para dizer o mínimo. Todavia, mesmo que venha a ter sucesso, considero-a moralmente inaceitável.

O mais importante para a Europa, e também para Portugal, é constatar onde falhou para não voltar a cometer os mesmos erros.

É bastante claro que falhou ao não olhar para como as democracias asiáticas, com experiência no SARS e no MERS, lidaram com o problema. Em Portugal demoramos quase 2 meses (!) a adotar uma medida tão económica e eficaz como as máscaras – talvez a razão mais importante para Taiwan, Hong Kong e a Coreia do Sul terem conseguido evitar os lockdowns.

Quase à força, aprendemos a lição de que as máscaras são, afinal de contas, fundamentais. Tão ou mais importante, o lockdown ditado pela incompetência ocidental acabou por contribuir para ficarmos consciencializados para o problema que temos em mãos. A combinação do estado de alerta e o uso de máscaras não só diminuirá a taxa de transmissão como também o grau das infeções. É cada vez mais evidente que certas atividades, quando feitas de forma desprotegida, tais como falar efusivamente e cantar, são muito prejudiciais pela enorme carga viral que libertam. Se forem combinadas em ambientes com muitas pessoas – os chamados “super spreaders” – podem ser letais.

Este é o ponto de situação ao final de dois meses, altura que Portugal tem uma média de 200 casos diários (cerca de 20% do pico), já com algum efeito da abertura da economia. Embora seja um valor positivo, tem existido dificuldade em reduzir o número de casos para os níveis de países comparáveis, como a Áustria, com menos de 50 casos diários.

À medida que mais atividades vão sendo retomadas, corremos o risco de os novos casos subirem para níveis com os quais António Costa será forçado a “dar um passo atrás” o que seria absolutamente inaceitável. Seria inaceitável constatar que ao final deste tempo Portugal não tenha desenvolvido uma arma adicional para travar esta batalha, ao invés de simplesmente bater a retirada e suprimir novamente a liberdade das pessoas. A sociedade não o permitirá. A economia não aguentará.

Enquanto não houver melhores formas de tratamento e sabendo ser inevitável o surgimento de novos casos, sobretudo com a abertura de fronteiras (tão importante para o turismo), a solução passa por conseguir “apagar rapidamente os fogos”.

Para isso precisamos do contact tracing e que este artigo tão bem explica. É uma metodologia dispendiosa, mas múltiplas vezes mais barata do que um novo confinamento e tudo o que ele representa. Para identificar mais infetados (muitos deles pré-sintomáticos), precisamos de recursos humanos e tecnológicos que detectem muito rapidamente 70 a 90% os contactos com quem um infetado esteve nos dias anteriores ao contágio. O tempo é crucial. Estudos demonstram que mais de dois dias de demora na identificação dos contactos torna esse rastreamento inútil. Os contactos têm que ficar imediatamente em quarentena e testados. Por conseguinte, a nossa capacidade de testar tem que subir consideravelmente, num fator de 5 a 10 vezes.

É imprescíndivel a contribuição da tecnologia (incluindo Bluetooth e códigos QR em edifícios), sendo que a aplicação de contact tracing para telemóvel tem que ser usada por uma grande parte da população para ser eficaz. Isso é teoricamente possível atendendo à boa penetração de smartphones na sociedade portuguesa (75%).

Contudo, um rastreamento manual/humano será imprescindível para complementar e dar robustez ao sistema. Estima-se que sejam necessárias 15 pessoas por dia para tratar cada novo caso. Ou seja, para 500 casos (que podem surgir diariamente), seriam necessárias cerca de 7500 pessoas a serem contratadas pelo governo. O objetivo é manter sempre os novos casos nas dezenas e, na pior das hipóteses, nas poucas centenas.

Voltando à aplicação, os grandes desafios são o da escolha da tecnologia, do modelo de funcionamento e do tipo de garantia de privacidade dada aos cidadãos.

Parece evidente que o protocolo deva ser compatível ou comum a muitos países europeus – determinante para abrir as fronteiras mais rapidamente – e alicerçado numa tecnologia fiável.

Um grupo de países onde se incluem a Alemanha, a Áustria, a Suíça, a Irlanda e a Itália optou por um modelo dito descentralizado, com recurso à tecnologia desenvolvida pela Google e pela Apple. Portugal, tal como outros países, segue uma via distinta com o desenvolvimento de uma tecnologia própria pelo Inesctec.

Sem tirar o mérito à solução, não se compreende porque não existe ainda uma discussão pública sobre as vantagens e inconvenientes deste sistema e da sua eficácia.

Pela comunicação social é sabido que o sistema em questão funcionará de forma voluntária (só descarrega quem quer). Em caso de infeção, o utilizador só divulga a informação recolhida pela aplicação se expressamente o autorizar. Ainda que tal faça sentido, infelizmente só uma pequena parte dos contactos será passada para tratamento.

Como é fácil de imaginar, se retirarmos aqueles que nem descarregam a aplicação e aqueles que não quererão estar a “incomodar” os seus conhecidos com uma quarentena forçada, restarão poucos utilizadores realmente úteis. Isto é corroborado pelas experiências de Singapura e da Noruega com penetrações na ordem dos 20, 30% e resultados abaixo das expectativas.

Para a aplicação ter uma boa penetração ela deve ser i) instalada automaticamente (por exemplo estando embebida numa aplicação Android ou IOS) e ii) ser “opt out”, designadamente terá que ser o utilizador a manifestar expressamente que não consente o envio dos contactos detetados pela aplicação (e não o inverso). Este pequeno detalhe faz toda a diferença e deveria ser discutido.

Trata-se efetivamente de uma intrusão na esfera privada, mas cujos efeitos serão mitigados se houver transparência e garantias por parte das entidades sobre o uso da informação. Relembremos que essa informação se resume exclusivamente aos contactos e à localização dos potenciais infetados, sempre de forma codificada, garantindo-se que não há ligação direta entre os números e o seu utilizador, por exemplo, com bases de dados separadas no Ministério da Saúde e na Anacom.

Muitos mais dados são já partilhados por todos nós diariamente com os gigantes tecnológicos a troco de muito pouco. Desta vez, pelo menos, o retorno é grande.

Resta muito pouco tempo (ou nenhum) para o contact tracing ser discutido e implementado. É muito provável que venha a ser fundamental para o regresso a uma maior normalidade e ao restabelecimento de confiança, sem a qual a economia não poderá reemergir de forma sustentada.

Finalmente, trata-se de dotar o país de uma infraestrutura fundamental para futuras pandemias, as quais poderão atacar mais os nossos filhos que os nossos pais.

Agradecimentos ao Carlos Macedo e Cunha e ao Think Tank informal “INFO | Covid-19” pelos seus contributos.