Olho para o meu receituário com um misto de admiração e desdém. Apesar de se prescreverem medicamentos eletronicamente, ainda há casos em que as receitas manuais têm lugar, e este resquício do passado é uma forma corpórea de um conceito sobre o qual muitos pacientes fantasiam: a omnipotência.
Como psiquiatra e terapeuta, vejo muitas pessoas, todas elas tão únicas como as impressões digitais que carregam na ponta dos dedos. Contudo, há um fio condutor em muitas das que passam pelo meu consultório (e principalmente nas mais novas): a crença na existência de um remédio miraculoso para todos os males e perturbações que as apoquentam. Ora, esta “fascinação” é substituída, na maior parte das vezes, por uma profunda desilusão quando eu, na minha qualidade de clínica da área da saúde mental, informo, o mais tardar a um quarto de hora do fim da consulta, que este “elixir” ainda não foi descoberto.
Devem pensar que acabei de me passar um atestado de incompetência. Afinal, de que serve uma psiquiatra com o seu receituário, que afirma não conseguir curar estas coisas? Será uma pessoa enfastiada pela vida, antiquada nas suas ideias? Posso dizer, com confiança, que não. Sou apenas uma realista que sabe que a cura para a “moléstia” que é a condição humana não está ao alcance de uns rabiscos ininteligíveis num receituário. Esse é um domínio da ordem dos deuses.
Mas não confundamos lucidez com desespero. Há lugar, e um lugar bem honroso, para a medicação. Em muitas situações, os psicofármacos são instrumentos essenciais: devolvem o sono, reduzem a ansiedade, apaziguam o desespero e anedonia, e criam uma plataforma mínima de estabilidade (a “muleta”) sem a qual o trabalho terapêutico é impossível. No entanto, é preciso entender que o comprimido pode abrir uma porta, mas não vai entrar por nós. E sobretudo não percorre o caminho. A medicação providencia-nos um mar mais ameno; o rumo vamos ser nós a ter que escolher.
Vivemos numa era em que a gratificação é instantânea e a frustração é intolerável. Espera-se que tudo aconteça com a fluidez de um swipe. E quando o sofrimento chega, como inevitavelmente chegará, há uma urgência quase ingénua em querer silenciá-lo. Quer-se o alívio imediato, o prazer sem o custo da travessia. O problema é que a travessia é precisamente o que nos define. A terapia e, por extensão, o processo humano de construção de sentido, é uma viagem longa, demorada, às vezes labiríntica. São vinte quilómetros para entrar na floresta e outros vinte para sair dela. Não há atalhos. A pressa, na saúde mental, é inimiga da profundidade e da realização.
Portugal é um país que consome quantidades impressionantes de psicofármacos. E, no entanto, não somos mais felizes. O que nos diz isto? Talvez que o sofrimento não se deixa medicar em definitivo. Que o que nos falta não é sempre mais serotonina, mais dopamina, mas mais complexidade, mais camadas. A doença mental, quando existe, deve ser tratada com a maior seriedade, com ciência e, quando necessário, com fármacos. Mas o vazio existencial, a falta de propósito, o sentimento de desenraizamento e de perda de sentido não cabem todos no universo que é um comprimido revestido por película. Pertencem a outros domínios: o terapêutico, o filosófico e, para alguns, até o religioso.
É nesse território que se dá a verdadeira cura, não no sentido biomédico, mas no de integração. É lá que o sofrimento é processado, transformado e, por vezes, transmutado em sabedoria. Que as gavetas desordenadas não ficam menos cheias, mas sim mais organizadas. Este processo exige tempo, escuta e, sobretudo, vontade de ser escutado. Exige um tipo de coragem que o nosso tempo não incentiva: a de olhar para dentro sem filtros, sem distrações, sem apps que nos prometem felicidade em 10 passos simples.
Muitos dos meus pacientes chegam ao consultório com discursos moldados por uma cultura de autoajuda, de wellness que promete milagres com a leveza de um slogan. Há uma certa violência nesta linguagem publicitária, uma violência mascarada de otimismo, porque transforma o sofrimento numa falha moral e a cura num produto de consumo. A psiquiatria, quando se deixa seduzir por esta lógica, perde a sua alma. E a terapia, quando tenta competir com o imediatismo das redes sociais, perde a sua profundidade.
É importante ser honesto: não há varinhas de condão, nem protocolos universais, nem “fórmulas rápidas” para lidar com as dores da existência. O processo terapêutico é, muitas vezes, uma caminhada de resistência, uma maratona. É preciso tolerar o desconforto, acolher a dúvida, permitir que o tempo (esse velho alquimista!), faça o seu trabalho. A boa terapia é mais semelhante a um lento amadurecimento do que a uma reparação mecânica. E tal como nas plantas, não se força o crescimento, apenas se cria o contexto certo para que aconteça. Por isso, quando me sento frente a alguém em sofrimento, não vejo apenas uma “doença” para tratar. Vejo uma história interrompida, um significado por reconstruir. A medicação, quando necessária, é uma ferramenta. Mas o verdadeiro trabalho faz-se no encontro. É aí que o humano se reconhece no humano, e é dessa troca que pode nascer algo transformador.
Não sou uma psiquiatra com crise de identidade, como alguns poderiam pensar. Sou uma psicoterapeuta-psiquiatra que faz o seu próprio processo de desenvolvimento pessoal, e é nele, nas suas nuances e contradições, que encontro os mais profundos insights. Não nos tornamos terapeutas por acaso: chegamos a este ofício porque conhecemos, de algum modo, o peso e a beleza da alma humana. Aprendemos que há dores que se tratam, e há dores que se atravessam. E que o papel do clínico não é prometer um mundo sem sofrimento, mas ajudar o outro a encontrar sentido dentro dele.
Talvez seja isso que mais falte hoje, espaço para o sentido. Vivemos rodeados de estímulos, mas órfãos de significado. A felicidade tornou-se um imperativo e a tristeza, um escândalo. Mas o ser humano não é feito apenas de alegria. É um ser trágico e simbólico, que precisa de compreender o seu sofrimento para poder crescer com ele.
E, curiosamente, é nesse processo lento e exigente, tão distante das soluções rápidas e gratuitas do nosso tempo, que se encontra algo parecido com a cura, a convalescença.
Porque, no fim, a boa psiquiatria não se mede pela quantidade de comprimidos prescritos, mas pela qualidade das conversas que brotam. E a boa terapia, essa, é o exercício paciente de escutar e ser escutado, duas das artes mais subversivas do nosso tempo.