Há poucos dias, a minha família recebeu em casa uma encomenda de um móvel. Nada de extraordinário: apenas mais uma entrega numa cidade habituada ao vaivém diário de estafetas, carrinhas e prazos para cumprir. Dois senhores brasileiros muito simpáticos e prestáveis apareceram à porta. Um deles, franzino mas teimoso na sua determinação, insistia em transportar sozinho uma das partes do móvel, demasiado grande para caber no elevador e demasiado pesada para ser carregada por um único par de braços, escada acima. O colega, igualmente disponível, carregava o resto do conjunto, ambos claramente pressionados pelo relógio e pelas outras entregas que, imagino, os esperariam ao longo de um dia interminável.

“Eu estou habituado, eu consigo!”, disse o primeiro, com um sorriso quase orgulhoso, como quem está mais preocupado em não atrasar a rotina do que em poupar a coluna. Oferecemo-nos para ajudar, claro. No final, depois do esforço e de uma breve troca de agradecimentos, aqueles dois homens seguiram o seu caminho, uma vida frenética, dura, cheia de pesos que carregam muito para além dos móveis que transportam. Pesos que não se vêem e que raramente se discutem.

Fiquei a pensar neles. E, sobretudo, na facilidade com que, enquanto sociedade, construímos narrativas hostis sobre pessoas como eles. Pessoas que chegam de outros países, outras culturas, outras realidades, e que são recebidas, demasiadas vezes, com desconfiança, crítica, xenofobia e, tristemente, até violência física. Uma parte significativa do discurso público sobre imigrantes tornou-se uma espécie de reflexo condicionado: são “aproveitadores”, “preguiçosos”, “indesejados”. Repetem-se estas palavras com a segurança de quem nunca se deu ao trabalho de olhar verdadeiramente para o outro.

Esquecemo-nos, convenientemente, de quantas vezes os “nossos”, portugueses de “gema” (seja lá o que isso for), orgulhosos da sua suposta moral superior, se aproveitam destas mesmas pessoas. Esquecemo-nos das empresas que lucram com a vulnerabilidade alheia, dos intermediários que cobram taxas ilegais, das falsas promessas que trazem pessoas desesperadas para situações ainda mais desesperadas. E esquecemo-nos, sobretudo, das histórias individuais que se escondem por detrás de cada rosto cansado que encontramos nos nossos serviços, nas obras, nos supermercados, nas limpezas, nas entregas.

É difícil para mim calar-me sobre isto. Não por razões políticas ou unicamente de carácter moral, mas porque estas histórias entram literalmente no meu consultório. Vejo-as em carne viva. Pessoas que me procuram em prantos, em desespero total, num estado de pânico que não resulta apenas de patologias e traumas prévios, mas de uma violência social contínua. Pessoas que, para poderem ganhar o pão que as sustenta a si próprias e muitas vezes às suas famílias, são submetidas a jornadas de trabalho extenuantes com horários incomportáveis, a humilhações constantes, a trabalhos precários, a ameaças veladas. São vítimas de indivíduos e organizações gananciosas e, ironicamente, frequentemente xenófobas, que se permitem explorar quem consideram inferior, fraco ou descartável. E confesso que embora as minhas crónicas costumem ser pautadas por nuance, equilíbrio e intuito de reflexão, a ira e a mágoa que este tema me provoca deixam-me mais incisiva e direta. As pessoas que tratam outras assim deviam ter vergonha na cara. Devia pesar-lhes a consciência. Devia assombrá-las um certo tipo de pesadelo moral ao fim do dia e no seu sono.

Não tenho qualquer problema com imigração controlada. Nenhum. É legítimo que um país pense a sua capacidade de acolhimento, planifique recursos, crie integração realista e sustentável. Mas o que me indigna, e profundamente, é ver esta bandeira usada como cortina para justificar o injustificável. Estas pessoas a serem usadas para uma escravatura moderna, normalizando o abuso, cultivando a indiferença organizada. Isso, sim, faz-me sentir vergonha. Vergonha do que se passa em Portugal. Vergonha do que se passa no mundo.

Pergunto-me: onde está a nossa tão proclamada evolução moral? Onde se esconde a empatia? Para que nos servem as infinitas evoluções tecnológicas, a inteligência artificial, o conforto quase ilimitado das cidades modernas, se não somos capazes de um mínimo “incómodo” para reconhecer o outro como ser humano? A tecnologia evolui a um ritmo vertiginoso, mas o nosso coração, esse músculo moral que deveria acompanhar o progresso, parece frequentemente atrofiado.

Há um contraste que já vi muitas vezes, em silêncio, nos corredores dos hospitais e unidades clínicas. Noutro dia falava sobre isto com uma colega de profissão. Discutíamos aquilo de que as pessoas falam nos seus últimos momentos de vida. Não apenas em cuidados paliativos, mas também em unidades intensivas, onde a proximidade da morte se torna demasiado concreta. O que emerge nesses momentos não são lamentos por oportunidades profissionais perdidas ou por património não acumulado. Nunca ouvi alguém, prestes a morrer, dizer que gostava de ter comprado mais um imóvel ou acumulado mais uma promoção. O que lhes falta, e que dói mais que qualquer doença do corpo, são os momentos com os outros. O calor emocional. A paz de saber que deixaram algo de bom no mundo. A certeza de que viveram com alguma forma de dignidade e de benevolência. A morte, nesses instantes, torna-se um espelho que revela com brutal clareza o que realmente importa.

Não podemos viver permanentemente a pensar na morte; isso seria paralisante. Mas talvez devêssemos pensar um pouco mais nela. Não no sentido mórbido, mas como lembrete ético, como bússola de prioridades. A presença inevitável da morte ajuda-nos a recordar os remorsos que não queremos levar connosco. E usar os outros como instrumentos descartáveis para servir um deus materialista, frágil, inconstante, tão volátil como o tempo deste outono, é, estou convencida, um dos piores remorsos que alguém pode cultivar.

O que me impressiona é como, apesar de tudo, estas pessoas continuam. Continuam a carregar móveis pesados, a trabalhar até ao limite, a sorrir perante a indiferença ou até a hostilidade. Continuam a acreditar que pode haver um futuro diferente para si e para os seus. E, enquanto sociedade, nós continuamos a falhar-lhes repetidamente. O mínimo que lhes devemos é vê-los e escutá-los. Reconhecer o seu esforço. E, sobretudo, garantir que não são tratados como mercadoria humana, mas como aquilo que verdadeiramente são: seres humanos com vidas complexas, sonhos legítimos e um valor intrínseco que não depende do país onde nasceram.

A moralidade de uma sociedade revela-se na forma como trata os seus mais vulneráveis. E, neste momento, o espelho mostra uma imagem bem feia. Talvez esteja na altura de deixar que esta imagem nos repugne. Porque há verdades incómodas que quando admitidas são, na verdade, um primeiro passo para a decência.