Habitualmente, pensa-se o futuro da sociedade a partir do desfecho de eventos políticos, eleições, orçamentos de Estado, etc. Discute-se também os riscos que podem resultar para esse futuro dos conflitos e dos extremismos políticos. O impacto destes eventos pode ser brutal e justifica a nossa atenção e reflexão coletiva.

Porém, existe um perigo para o nosso futuro que se está a desenvolver paulatinamente e cujos efeitos vamos começando a sentir com cada vez mais força: o perigo que resulta das alterações climáticas. Para além do debate político que se exige em torno desse perigo, precisamos também de debater o papel das empresas na crise climática, bem como o mais amplo papel das empresas na sociedade.

É inquestionável a influência que as empresas exercem na sociedade. Se a geração de lucro é causa e efeito da razão de existir das empresas, a forma como atuam na prossecução desse objetivo tem impactos vários. Por essa razão, é exigível às empresas que tenham uma visão clara do seu impacto, atuando não apenas em conformidade com a legislação vigente, mas também seguindo padrões éticos e morais.

E porque falamos de Ética e Moralidade, esta discussão tem ganho, como que por inerência, um caráter político e partidário e passa frequentemente a ser ideológica. Mal.

Os políticos têm de fazer o seu trabalho e contribuir para debelar estes problemas e assegurar o nosso futuro em sociedade. Mas nós, individualmente e como colaboradores, clientes e investidores das empresas temos de fazer a nossa parte.

A sustentabilidade é um dos grandes desafios do nosso tempo, abordando temas essenciais como alterações climáticas, responsabilidade social e justiça económica. No entanto, muitas vezes, o debate em torno da sustentabilidade é contaminado por agendas ideológicas que desviam o foco da necessidade de encontrar soluções práticas e efetivas. Quando a discussão se torna ideológica, há um risco de que os argumentos percam o seu propósito original e sejam usados para promover interesses políticos ou divisões de identidade. Isto tem resultado numa polarização do debate, onde a atenção se concentra em questões políticas ao invés de encontrar soluções que beneficiem todos.

Por isso, é importante abordar a responsabilidade das empresas e a sustentabilidade sem recorrer a motivações partidárias ou ideológicas. A adoção de práticas sustentáveis e éticas por parte das empresas não é, ou não deveria ser, uma questão de ideologia política, mas sim uma responsabilidade coletiva e universal. A responsabilidade empresarial é uma obrigação para com o futuro e para com o bem-estar comum e não é para ser instrumentalizada pela agenda política. A verdadeira missão é encontrar um caminho onde a prosperidade económica, social e ambiental andem de mãos dadas.

As empresas têm um alcance que toca diversas dimensões da vida em sociedade, influenciando a economia, o ambiente e as estruturas sociais. Através da criação de emprego, contribuem para o desenvolvimento económico local e global. Além disso, as práticas empresariais influenciam a forma como bens e serviços são produzidos e consumidos, moldando a cultura de consumo e afetando todo o ecossistema de fornecedores e parceiros. A produção, o consumo de recursos e os resíduos gerados têm impactos diretos e indiretos no ambiente, tornando as empresas agentes fundamentais no debate sobre sustentabilidade e conservação de recursos naturais.

Para responder aos desafios de hoje, as empresas precisam de incorporar a sustentabilidade como um pilar estratégico nas suas operações. Isso significa adotar práticas que promovam a redução de impactos ambientais, o uso eficiente de recursos e o respeito pelas comunidades onde atuam. É necessário que as organizações evoluam de uma perspetiva puramente económica para uma abordagem mais holística, que integre os aspetos sociais e ambientais nas suas decisões.

Sobre os custos, que são incontornáveis. É preciso coragem para discutir quem suporta os custos nas mudanças que temos de fazer na forma como vivemos, incluindo a forma como as empresas desenvolvem a sua atividade. Esta discussão tem estado em boa parte ausente do debate em torno do futuro. Existem empresas cujo modelo de negócio está a ser, e será ainda mais profundamente, impactado, por exemplo, pela necessidade de combater as alterações climáticas e esse impacto terá custos. Quem o suporta? Os acionistas? Os trabalhadores? Os reformados cujos planos de reforma investem nas ações dessas empresas? Não existe uma resposta única e é necessário que o debate – sempre difícil – seja feito caso a caso.

A legislação estabelece o mínimo obrigatório que as empresas devem cumprir em termos de práticas laborais, direitos humanos e proteção ambiental. No entanto, existe uma diferença, por vezes significativa, entre aquilo que a lei exige e o que é moralmente considerado correto pela sociedade. Embora as empresas em si mesmas não sejam entidades morais, as pessoas que fazem parte delas ou as que as sustentam na condição de clientes e investidores, são, e trazem consigo valores, princípios e responsabilidades que devem refletir-se no seu trabalho e no seu consumo e investimento. A preservação do lucro não pode ser usada como justificação para ações prejudiciais ao ambiente e à sociedade, mesmo que inadvertidamente.

O desafio para os próximos 10 anos será reduzir o “gap” entre o desenvolvimento das regras legais e as expectativas morais da sociedade. As empresas precisarão de adotar uma postura mais ativa, alinhando-se com as exigências éticas e sociais da comunidade em que operam. A responsabilidade corporativa vai além da conformidade legal: é uma questão de princípios e valores que têm impacto real no ambiente, na sociedade e nas pessoas.

Contudo, é necessário não sobrecarregar as empresas com uma carga moral que isente as pessoas que nelas trabalham de responsabilidade. Um dos riscos de transferir toda a obrigação ética para as empresas é que os colaboradores podem sentir-se menos pressionados a agir de acordo com seus princípios morais, assumindo uma postura de neutralidade ou desresponsabilização porque “alguém está a fazer por eles”. Todos – empresas, trabalhadores, clientes e demais stakeholders – têm responsabilidades coletivas e individuais neste caminho.

Nos últimos anos, a pressão sobre as empresas para adotarem comportamentos éticos tem vindo a aumentar, mas é importante equilibrar esta responsabilidade com a ética individual. A ética e a responsabilidade social não podem ser meramente políticas institucionais; devem ser parte integrante da cultura organizacional e dos comportamentos diários de todos os colaboradores. Isto significa que, mesmo dentro de uma empresa orientada para o lucro, as decisões individuais devem ser tomadas com consideração pelo impacto social e ambiental, reconhecendo que o bem-estar coletivo é uma prioridade. E sim, o lucro pode ter de ceder.

Além disso, é importante que a empresa não sirva como uma desculpa para os colaboradores se furtarem às suas responsabilidades pessoais. Pelo contrário, a ética empresarial deve basear-se numa responsabilidade partilhada, onde todos os membros da organização têm um papel a desempenhar.

Nos próximos anos, precisamos que as empresas evoluam e se tornem agentes que contribuam para o desenvolvimento sustentável, para o respeito pelos direitos humanos e para a prosperidade coletiva. A responsabilidade social deve ser encarada como uma oportunidade de crescimento, uma forma de fortalecer as relações com a comunidade e garantir um futuro mais equilibrado para todos.

A sustentabilidade deve estar no centro da estratégia empresarial, informando as decisões e orientando os processos internos de forma a equilibrar os interesses económicos, sociais e ambientais. E este debate não é ideológico, nem sequer político. Não é wokismo. Trata-se, sim, de manter o foco naquilo que realmente importa: agir de forma responsável e contribuir para um futuro onde o progresso seja sustentável, inclusivo e justo.

Bruno Ferreira é managing partner da PLMJ. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.