Caí. Caí durante o que me pareceu uma eternidade, mas que afinal durou apenas segundos — e esses segundos mudaram completamente a minha vida. Em 2020, sofri uma queda numa escadaria. Não tive sequelas imediatas, apenas o corpo dorido e a sensação inquietante de que algo tinha mudado. Contudo, mês após mês, a dor tornou-se mais intensa e persistente. Fiz inúmeros exames, consultei várias especialidades e a resposta era sempre igual: “Está tudo bem consigo, os exames não acusam nada.”
Na minha cabeça, multiplicavam-se cenários e dúvidas. Sentia-me culpada por me sentir frustrada, por não conseguir aceitar que tudo estivesse aparentemente “normal” quando o meu corpo gritava o contrário. Cada gesto simples — levantar-me, vestir-me, cozinhar, andar — transformava-se num enorme esforço.
Durante cinco anos, fui várias vezes caso de estudo de fisioterapeutas. Eles percebiam a dor, notavam a alteração muscular, mas ninguém conseguia dar-me respostas concretas. Chorava discretamente na casa de banho, sem querer que ninguém notasse. Sempre tive orgulho no meu trabalho e temia que, se soubessem da minha condição, me considerassem incapaz. Cada dia era uma batalha silenciosa, com ansiedade e cansaço que me drenavam física e emocionalmente. Havia noites em que parecia impossível continuar a acreditar que algum dia poderia viver de forma minimamente normal.
Em 2024, finalmente, dois reumatologistas deram-me o diagnóstico que nunca tinha imaginado: fibromialgia. Inicialmente, senti-me assustada e desorientada, mas também aliviada por perceber que não estava a enlouquecer. A dor tinha agora um nome, uma explicação. Pesquisei sobre a doença e assustei-me ainda mais: a informação disponível era confusa, contraditória e, na maior parte das vezes, insuficiente para compreender o impacto real desta condição crónica e invisível.
Percebi que teria de aprender a conviver com uma doença sem cura, sem permitir que ela definisse quem sou. Tive a sorte de ter uma família fantástica, um marido extraordinário e uma fisioterapeuta amiga que me apoiaram e ajudaram a aceitar esta nova realidade. O processo não foi fácil: estava no cargo que sempre sonhei, a desempenhar a função que mais gostava, mas o meu corpo implorava por descanso. Conduzir tornou-se impossível, o teletrabalho não era permitido e precisava da ajuda de outras pessoas para me deslocar. Cheguei mesmo a ir às urgências e esse episódio obrigou-me a refletir seriamente sobre prioridades e limites.
Tomar a decisão de deixar o trabalho foi doloroso. Senti-me derrotada, como se a doença tivesse ganho e eu tivesse perdido o controlo da minha vida. Foi uma fase escura, de medo e tristeza. Mas com o tempo, ao focar-me na minha saúde e bem-estar, aprendi a caminhar lado a lado com a doença. Passei a dar-lhe a mão em vez de lutar contra ela, mesmo que ainda haja dias difíceis. Cada pequena conquista — tomar banho sem dor intensa, conseguir dar uma curta caminhada, rir com amigos, sentir-me viva — tornou-se uma vitória.
Hoje sinto-me mais forte, resiliente e capaz. Não sou a minha doença. Sou uma mulher com vontade de viver, de trabalhar e de ser feliz, mesmo com dor. Sei que muitas entidades empregadoras têm preconceitos sobre doenças invisíveis, e por isso questiono sobre quando devo ser honesta ou não, sem comprometer oportunidades. É por isso que partilho a minha história: para sensibilizar, para criar empatia, para que se perceba que a dor existe mesmo quando não se vê.
Tenho 32 anos, uma doença reumática para a vida e uma dor invisível que me acompanha diariamente. A dor nem sempre é visível, mas é sentida profundamente. Isso merece ser reconhecido, compreendido e respeitado.
Não sou apenas a minha dor; sou a minha história, a minha força e a minha determinação. Cada desafio ultrapassado, cada dia em que me levanto e continuo, é uma prova de que é possível viver com intensidade, mesmo quando a dor é uma companhia constante.
Beatriz Pereira Matos é licenciada em Comunicação Empresarial, tem o curso de Marketing de Moda e certificação em Consultoria de Imagem. Especialista em comunicação, marketing e eventos, está atualmente envolvida num projeto como wedding planner [ajuda a planear e a organizar casamentos]. É uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a FAI Therapeutics, um projeto da Ferraz Lynce (Grupo Iberfar), e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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