Imagine-se a seguinte situação: sente-se desmoralizado, sem energia, frequentemente triste e sem prazer no dia a dia (por vezes, nem no convívio daqueles que mais ama). Descuida-se, isola-se, o trabalho parece-lhe penoso. Durante longo tempo hesitou em pedir ajuda médica, justificando a si próprio que “era uma fase”, “tudo melhoraria após as férias”, “após a mudança de emprego” ou depois de resolvido um “problema familiar” pendente.

Enfim, os problemas resolveram-se, mas a sua situação não. A sua família insiste para que procure ajuda e finalmente fê-lo. Iniciou tratamento mas as semanas passam e não se sente melhor. Volta ao médico, a medicação é mudada, sabe que tem mais algumas semanas até poder notar melhorias. O tempo passa, os sintomas não melhoram, e a frustração e a preocupação são enormes.

Relatos como estes são muito frequentes na minha prática clínica. Correspondem a situações de Depressão Resistente ao Tratamento, que formalmente se define como uma depressão em que não ocorre melhoria dos sintomas com dois ciclos de tratamento com antidepressivos diferentes em dose e duração de tratamento adequados, confirmada a correta toma.

Por razões nem sempre claras, pelo menos 30% das depressões são resistentes ao tratamento.

Frequentemente, a culpa instala-se: “não estou a fazer o suficiente”, “a culpa é minha por estar assim”, “não tenho força suficiente e por isso o tratamento não resulta”. Na verdade, a culpa desproporcionada é um dos principais sintomas da doença. E dos mais perversos, porque vejo muitos dos meus pacientes aprisionados na culpa da própria doença e imobilizados para o seu tratamento, sem esperança na melhoria (ou no merecimento da melhoria).

Mas não é verdade. Ninguém tem culpa por sofrer de uma depressão resistente. Como partilho frequentemente em consulta, é o equivalente a não melhorar sob tratamento sequencial de antibióticos ou de medicamentos para controlo da diabetes ou da tensão arterial. Ninguém controla isso, ninguém pede isso.

O que fazer então nestas situações? Como pedir ajuda?

Nesta situação, os pacientes beneficiam de uma abordagem especializada com profissional com diferenciação na área.  Quer no Serviço Nacional de Saúde quer em regime privado, existem profissionais e equipas multidisciplinares dedicadas a estas situações – equipas que trabalham com os pacientes e suas famílias, adotando estratégias psicoterapêuticas, farmacológicas e tratamentos físicos (estimulação magnética transcraneana, electroconvulsivoterapia modificada).

O tratamento deverá seguir um protocolo específico, com etapas bem definidas. Dados europeus e nacionais mostram que com frequência a estratégia de tratamento não é uniforme, atrasando a evolução e prejudicando o prognóstico.

Considero que o primeiro passo é estabelecer uma relação empática e de suporte, com possibilidade de acesso rápido para resolução de problemas ou esclarecimento de dúvidas (sobre a medicação, sobre os efeitos adversos, sobre estratégias comportamentais).

Em consulta especializada deve ser revisto o caso clínico em detalhe – a evolução dos sintomas, os tratamentos realizados até à data (fármacos e respetivas doses), bem como a duração do tratamento e efeitos adversos.

Frequentemente, na minha prática clínica, a entrevista com a família e/ou amigos, com a concordância e presença do paciente, assume um papel muito importante. Fazendo-o, pretendo esclarecer dúvidas que me ficaram do relato do paciente e criar uma aliança terapêutica entre mim, o meu paciente e a sua rede de apoio.

Pondero frequentemente o pedido de análises laboratoriais/exames caso se justifique esclarecer dúvidas quanto à presença de outra doença (por exemplo, quanto ocorrem sintomas pouco habituais ou queixas físicas inespecíficas). Um diagnóstico não identificado pode complicar o tratamento da depressão.

É importante o agendamento ágil das consultas – a experiência acumulada demostra que uma nova medicação instituída demorará entre quatro a seis semanas a fazer efeito. Assim, esperar pouco tempo pode corresponder a comprometer uma hipótese de tratamento eficaz, mas esperar muito tempo até rever o plano implica atrasá-lo. É recomendável assim a realização de consultas com periodicidade mensal.

Aprendi com a minha experiência que é tranquilizador discutir planos alternativos ao tratamento que vai ser iniciado. Ter um plano de futuro é uma barreira à desmoralização.

Porque boicota o futuro e rouba vidas, na depressão resistente nenhum tratamento médico deve ser descartado. Desde a psicoterapia, à combinação adequada e sensata de fármacos, dos tratamentos inovadores, recentemente aprovados e comparticipados (de administração hospitalar) ao tratamento com electroconvulsivoterapia modificada (eficaz, segura e ética), é preciso reunir esforços para o tratamento ambicioso da depressão.

Não seria aceitável tratar um cancro pela metade. Porquê aceitar na depressão?

Carolina Rocha Almeida é médica especialista em Psiquiatria, com formação específica em depressão resistente. Coordenadora da Unidade de Electroconvulsivoterapia na ULS Lisboa Ocidental, trabalha também no Hospital Lusíadas Alfragide. É assistente convidada na NOVA Medical School.

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Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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