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O recente desaparecimento de José-Augusto França coloca-nos frente a frente com uma inevitabilidade: o deslaçar da memória física e vivencial dos grandes vultos da cultura do século XX.

Partamos de uma breve e útil comparação. Em 1975, o físico Stephen Hawking desenvolveu o chamado paradoxo da informação. Segundo Hawking, um buraco negro possui um mecanismo de retenção de memória apelidado de horizonte de eventos. Toda a informação que atravessa esse horizonte já não regressa, pois existe apenas um sentido, ou seja, o do não retorno. A questão paradoxal prende-se, porém, com o destino dessa informação: desaparece ou poderá ser reconstituída? A radiação de Hawking procura responder precisamente a esta questão. As partículas que saem do buraco negro são, aparentemente, totalmente aleatórias e não possuem qualquer relação com as originais. Qual o risco que este paradoxo encerra? Segundo Hawking, como é o passado que nos diz quem somos, a perda dessa informação implica sempre uma perda de identidade.

Regressemos à actualidade. É certo que a história da cultura possui mecanismos de reconstituição distintos, mas dependerá sempre, ultrapassado esse horizonte de eventos, de uma reorganização póstera da memória. Será assim viável imaginar que a cada desaparecimento físico de um grande vulto da cultura arriscamos uma gradual perda de identidade? Os últimos anos foram particularmente nefastos para o desmoronar dessa memória física e presencial. O recente desaparecimento no horizonte de eventos de Cruzeiro Seixas e Eduardo Lourenço, em 2020, e agora de José-Augusto França são disso exemplo. Recordo aquando do lançamento, em 2019, do seu Diário Não Diário na BNP, Cruzeiro Seixas afirmar com orgulho não possuir duas coisas: dinheiro e vaidade! Tinha, no entanto, uma memória prodigiosa e, durante mais de uma hora, foi um privilégio ouvi-lo desfiar um manancial vivo de experiências, de recordações, de conversas. Eu lembro-me, porque estava lá.

A história da cultura portuguesa contemporânea parece enfrentar a passos largos o mesmo paradoxo da informação de Hawking. Ao perder-se a memória presencial de um indivíduo, resta sempre a sua radiação cultural, dispersa nos seus escritos, nas suas entrevistas, nas suas obras. Estas, porém, não possuem já a dinâmica da memória viva que se desenrola através do diálogo, mas dependem já de uma reinterpretação póstera de quem as reconstitui. Umberto Eco alerta-nos precisamente para os riscos disfuncionais dessa interpretação pelo simples facto de existirem três níveis distintos de intenção: a intenção do autor; a intenção da obra; e a intenção do leitor ou observador. Neste sentido, ao perder-se o actor cultural no horizonte de eventos, perde-se a leitura íntegra do objecto da memória que o mesmo produz.

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O “dever de memória” constitui precisamente o princípio tutelar e fundacional do discurso de José-Augusto França. Memória é talvez a palavra que profere mais vezes e que parece constituir, no seu entender, a própria essência objectificada da arte quando afirma que “cada objecto artístico contém a sua própria origem”, ou seja, a memória da sua identidade. Em 2012 tive igualmente o grato prazer de assistir à sua comunicação na Fundação Calouste Gulbenkian, na abertura do IV Congresso de História da Arte Portuguesa. A pretexto de Marcel Duchamp e do relevante papel dos movimentos que haviam talhado a modernidade cultural do século XX, José-Augusto França afirmou de forma arrebatada: «Eu lembro-me, porque estava lá!». Esta afirmação provocou um inegável espanto. Estávamos todos perante a memória viva de alguém que havia presenciado, falado, absorvido e processado quase todos os vultos e eventos marcantes da modernidade da arte do século XX.

Nove anos depois e em plena era do online, do culto do não presencial e da produção/retenção remota de informação, o contacto directo com a memória viva reveste-se, hoje, de um valor incalculável. A pretexto deste valor, deve-se precisamente a José-Augusto França o papel de fiel depositário de memórias pessoais e transmitidas de uma das mais extraordinárias personalidades do século XX – José de Almada Negreiros – O Português sem Mestre. Em 1974, no prefácio da monografia dedicada por si ao artista, França confrontava-se precisamente com o valor que a memória viva sempre representa para o concerto possível dos fragmentos vivenciais que sobejam do inevitável horizonte de eventos: «Este livro foi escrito em vida de Almada Negreiros e é publicado, por atraso da 1ª edição, quatro anos depois da sua morte. O artista desapareceu sem ter tido conhecimento do texto que, doente já, extremamente fatigado, não foi possível comunicar-lhe. (…) Perderam-se assim, e para sempre, uma ou outra informação, um ou outro acerto, que só de Almada Negreiros podiam vir e que tornariam mais preciso este trabalho». A cadeia de transmissão havia-se quebrado em 1970 e, com ela, uma longa amizade, mas sobretudo a memória viva de uma das mais enigmáticas e profícuas gerações da história da cultura portuguesa – a geração do Orpheu.

Alguns anos antes, Almada havia sido mitificado, já em plena Primavera Marcelista, enquanto fiel depositário de memórias dessa mesma geração. Em 1969, era, no dizer de José-Augusto França, o único sobrevivente de um grupo marcado por um fatal horizonte de eventos: «A raiva ou depressão suicida em Amadeo e em Sá-Carneiro, ou a ironia decilitrada em Pessoa.» Terá sido essa percepção, ou seja, o seu valor enquanto memória viva de uma geração, o motivo da sua presença no programa inaugural do Zip Zip, gravado a 24 de Maio de 1969 e transmitido dois dias depois. Almada representava à época uma ligação directa e vivencial com uma geração que havia desaparecido há muito, mas que permanecia ainda no imaginário colectivo enquanto símbolo de rebeldia e inconformismo. A entrevista constitui em si própria, um documento fragmentário, mas valiosíssimo para se entender a corrente de mudança que, entretanto, já se adivinhava. Esta percepção torna-se evidente no modo como Raúl Solnado o apresenta: «Ele é uma das figuras mais importantes da cultura portuguesa contemporânea e é um homem apaixonante e muito mais jovem do que eu. Fui-lhe pedir para ele vir ao nosso programa e ele disse que sim». A percepção que fica, decorridos 51 anos, é que Solnado e Carlos Cruz defrontavam a célebre Esfinge de Tebas. O pendor enigmático do homem, do artista, mas sobretudo da memória viva de um tempo glorioso dará o mote a toda a entrevista. Carlos Cruz começa precisamente por aí: «Gostaríamos que relembrasse um pouco aqui connosco, como é que começou a sua ligação com todo esse movimento, esse grupo, como é que aparece integrado, porque, segundo eu julgo saber, Almada Negreiros era o mais novo nessa altura no grupo. Como é que se deu essa aproximação?» A resposta de Almada será desconcertante. De tal forma que o público que assistia à entrevista não se apercebe da extrema ironia que contém: «Quando algumas pessoas têm a mesma desgraça, juntam-se (…) ninguém nos supôs, que nascessem determinados portugueses naquele momento, de modo que nós estávamos fora da sociedade, se é que havia sociedade!». O silêncio impera. Carlos Cruz retoma a questão: «E agora a todos estes anos de distância, o que é tem para dizer em relação ao nascimento desses novos portugueses, que Almada Negreiros chama, como é que observa o mesmo fenómeno à distância de 50 anos?» A resposta será lapidar – «Perdi-o de vista! Sinceramente perdi-o de vista. Até fiz o possível de o perder de vista. Porquê? Por causa dos outros que viessem, das novas gerações que aparecessem. Isso comprometi-me eu, era que quanto eu pudesse, acompanhava-os sempre até hoje». O discurso, fundado sobretudo no passado e pleno de sentido de ruptura, é todo ele apolítico. Algures no decorrer da conversa, Almada confirma precisamente o temor que José-Augusto França sentirá aquando do seu desaparecimento, a 15 Julho de 1970, quando lamenta perder-se para sempre a memória viva daqueles tempos. Quando questionado por Carlos Cruz acerca das circunstâncias do seu encontro com Fernando Pessoa, responde: «É precisamente assim que vem nos jornais!».

Torna-se evidente que a politização do discurso invadiu, hoje, todos os sectores da sociedade. Futebol, política e fait-divers não se distinguem entre si e impõem-se sobre a paisagem cultural. Gerações ávidas por memórias vivas como aquela que o Zip Zip ilustra, ou já não existem, ou sucumbiram a uma absoluta indolência bovina perante os inenarráveis atentados à inteligência humana que as televisões transmitem. Também as redes sociais estimulam e animam-se com a shitstorm do momento. A informação encontra-se também subjugada a um movimento pendular compreendido entre a ocorrência do facto, a sua divulgação, e a maior ou menor polémica que motiva. Quanto maior a reacção, maior será o movimento pendular e a permanência do evento. É deste movimento que vivem as redes, mas também os comentadores, os jornais, as televisões, os profissionais do comentário político, contando sempre que o discurso de ontem desapareça no horizonte de eventos para dar lugar, hoje, ao seu contrário. O “dever de memória” de que nos falava José-Augusto França caiu em desuso. De que forma reagiria Almada Negreiros ao horror da indigência cultural que impera tanto na política como no espaço público? Nunca saberemos na primeira pessoa, mas possuímos vestígios e fragmentos que convidam a uma resposta. No célebre manifesto à exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, Almada esforçava-se por acordar uma geração do torpor que a ensombrava: «E que horror, caros compatriotas, deduzir experimentalmente que de todas as nossas Conquistas e Descobertas apenas tenha sobrevivido a Imbecilidade. E daqui a indiferença espartilhada da família portuguesa a convalescer à beira-mar.»