Caro Fazal,
Escrevo-te estas linhas impelido por uma vergonha que não me larga — a vergonha do que estão a fazer-te neste país que, até há pouco, julgávamos plural e acolhedor.
Dei-me conta de que a nossa amizade já conta com quase oito anos. Conhecemo-nos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quando foste meu aluno no Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. No final do semestre, tive o privilégio de conhecer melhor a tua comunidade — os Ahmadi — e o seu inaudito compromisso com a Paz, precisamente por ser essa a condição que vos é negada no Paquistão. É precisamente por isso que me custa tanto assistir ao que te está a acontecer. Ver-te a ser tratado com suspeita, reduzido a um número ou a um estereótipo, não é apenas um erro: é uma injustiça. E é também um sinal do que está a falhar colectivamente.
Aprendi contigo que os Ahmadi, sendo uma expressão dissidente do Islão — como se pudesse haver ortodoxia na relação íntima de cada ser com o divino — são brutalmente perseguidos no Paquistão. Relatas-me frequentemente atentados, destruições de mesquitas, linchamentos públicos — uma violência cega e sistemática. Vejo agora como alastra em Portugal a mesma intolerância, o mesmo fanatismo, a mesma ignorância. Uma boçalidade sem nome. No Paquistão são perseguidos e mortos por não serem considerados muçulmanos. Em Portugal, são perseguidos e injuriados por serem muçulmanos. Esta injustiça é intolerável. E sempre, no teu olhar, a serenidade de quem resiste sem ódio. Portugal não pode esquecer que a sua identidade se construiu no cruzamento de mundos. Negar a presença do outro — especialmente de quem aqui veio construir com dignidade a sua vida — é trair a própria história.
Foi a teu convite que participei no Simpósio da Paz da Comunidade Ahmadiyya, em Londres — uma experiência marcante. Disse-te que sou agnóstico, que cultivo uma admiração profunda pelo pensamento budista, mas reconheço em todas as religiões caminhos possíveis de aperfeiçoamento espiritual. O que mais me tocou foi a ausência total de proselitismo na vossa comunidade. Pelo contrário: celebram a diferença religiosa. Encontram no diálogo, na aceitação e na paz, o sentido último da existência.
Percebi como estão activos na sociedade inglesa: empresários, académicos, profissionais de todas as áreas — parte dinâmica do tecido social. Nesse mesmo ano, tive a honra de conhecer o vosso Califa, Hazrat Mirza Masroor Ahmad. Desde esse encontro inaugural, acompanhei muitas das suas intervenções e mensagens. A sua presença no mundo é um apelo contínuo à paz universal, sem exclusões, sem sectarismo.
A criação do Ahmadiyya Muslim Prize for the Advancement of Peace é prova disso. Desde 2009, este prémio tem distinguido personalidades e instituições de várias latitudes que se dedicam à causa da Paz. Cito apenas alguns dos recentes laureados: em 2017, o Dr. Leonid Roshal, pediatra de Moscovo e especialista da OMS, por apoiar crianças vítimas de guerra; Em 2018, Fred Mednick, fundador da Teachers Without Borders; Em 2019, Bárbara Hofmann, da ASEM, que ajudou mais de 180.000 crianças vítimas de conflitos; Em 2020, Adi Roche, da Chernobyl Children International; Em 2022, Tadatoshi Akiba, ex-presidente da câmara de Hiroshima e activista contra armas nucleares; Em 2023, David Spurdle, fundador da Stand by Me, que resgatou mais de 20.000 crianças em 11 países.
Durante anos, lamentámos que não pudesses integrar a delegação portuguesa nesses encontros, por estares há mais de uma década à espera da cidadania portuguesa. Só muito recentemente obtiveste o passaporte e a liberdade de viajar. Contudo, sempre cumpriste os teus deveres fiscais e cívicos como qualquer cidadão. Um paradoxo tão gritante como terem comprado um terreno, solicitado autorização para construir um templo para, enfim, vê-lo impossibilitado por ignorâncias e xenofobias.
Sei que a comunidade Ahmadi em Portugal acalenta dois grandes sonhos: receber a visita do seu Califa e construir uma sede digna, onde possam celebrar a fé em paz e segurança. Sempre julgaram que Portugal era solo fértil para isso. Acreditaram que aqui, ao contrário do Paquistão, seriam respeitados enquanto crentes e enquanto seres humanos.
Lamento profundamente que essa esperança tenha sido traída. Lamento que tenham descoberto, do modo mais cruel, que o fanatismo, a intolerância e o medo do outro também aqui fazem morada. Sinto vergonha, meu amigo. Vergonha pela ignorância que campeia, pela boçalidade que se levanta, pela violência que vos ameaça. A tua presença enriquece-nos. E é por isso que, ao escrever-te, não o faço apenas como amigo, mas como cidadão. Sinto o dever de testemunhar.
Este não é o país em que me reconheço. Mas, enquanto puder escrever, falar e testemunhar, este também será o país da tua dignidade.
Com amizade e respeito sempre renovado,
Vasco Medeiros