Stultorum numerus est infinitus. A frase do Eclesiastes legenda uma gravura singular. Um barrete de bobo envolve um rosto formado pelo planeta. O atlas ilustra a terra conhecida em 1590: vemos a América completamente cartografada, assim como a maioria dos países asiáticos. Por cima desta figura uma frase emblemática: Nosce te Ipsum. O convite seiscentista está feito: conhece-te a ti próprio, louco do mundo, toma consciência da tua loucura. Que espécie é esta capaz de criar sistemas de inteligência artificial que aparentam roçar a consciência, e ao mesmo tempo, condenam o seu espaço vital à obsolescência? Que espécie é esta capaz de comunicar com o universo infindo, mas que extingue os ecossistemas com que se cruza? Ouvimos e vemos o universo a anos-luz de distância. Aparentemente sem reparar no que se espraia sob os nossos pés, ou no som que as pegadas fazem ao cruzar um areal. Todos os areais e todas as costas, onde todas as ondas batem e rebatem, regurgitando tudo aquilo que não lhes pertence.
A 31 de Janeiro, passeava pela Praia do Norte, na Nazaré, tantas vezes filmada e fotografada pelas suas ondas gigantes, quando me confrontei com a dimensão do atentado. Foi na Praia do Norte, mas poderia ter sido em qualquer outra. Mas o facto de ser nesta praia adiciona sarcasmo à questão: aqui, travam-se duelos contra a ferocidade do mar. E uns reúnem-se para ver os outros a desafiar as regras da vida, heróicos, enfrentando monstros feitos de água e algas que se abatem sobre a costa. Monstros terríveis. Mitológicos. E ainda assim derrotados, como sempre foram derrotados todos os monstros marinhos: Cila, Caríbdis, Cetus, A Hidra de Lerna, Kraken, Leviatã, Jormungandr, Umibozu, Adamastor…Foi o desconhecido quem baptizou estes monstros, pela ignorância do nunca antes visto. Monstros porque ameaçam uma espécie que ameaça a sua extinção e a de todas as outras.
O mar regurgita o que não lhe pertence, o que não é natural. Pela praia, acumulam-se toneladas de plásticos de várias dimensões, cores, feitios e funções. Pedaços de cordas, recipientes repletos de cracas, redes, estranhos reflexos multicolores que estendem a tragédia pelo areal.
Enquanto humanos, somos seres de excepção: excepcionalmente prodigiosos e estúpidos. Criamos sinfonias, aceleradores de partículas, sondas capazes de explorar Marte e, simultaneamente, continentes de lixo. O sétimo continente a flutuar no pacífico, com cerca de 1.8 triliões de pedaços de plástico e uma dimensão aproximada de três vezes a França (1.6 milhões de quilómetros quadrados). Os fragmentos mais antigos dessa ilha datam de 1977: um cumulativo extracto da nova versão da estupidez humana: o homo plasticus. Camada sobre camada, uma arqueologia da extinção. Os artistas têm sido os principais veículos de alerta para a catástrofe em curso. É essa a função social da arte. Reflectimos com Vik Muniz, Sayaka Ganz, Erika Iris, Alejandro Durán, Bordalo II e Lizzy. Reutilizando detritos, constroem obras distintas, com consciência uníssona veiculando discursos de preservação.
Quando questionada acerca da incoerência existencial do ser que destrói o seu meio ambiente, condenando o seu futuro e o das outras espécies, a IA atreve-se a explicar: Curto-prazismo, consumismo desenfreado e obsolescência programada; Ilusão de separação e independência da natureza; ficção sistémica de crescimento económico ilimitado; e o paradoxo do conhecimento. Quanto mais sabemos sobre os impactos ambientais, mais percebemos a dificuldade de mudar-lhes o curso. Isso pode gerar tanto acção transformadora quanto um sentimento de impotência. Se a IA conhece estas quatro razões, é porque os humanos as conhecem também.
Poderemos ainda reverter este processo? Haverá tempo? A acção é individual. Através dos actos, amar a natureza. Não basta saber, importa agir. Ecoar as palavras de Lanza del Vasto: A razão pode provar a sua própria verdade a propósito de não importa o quê, mas somente a acção pode engatar a verdade à idiotia do real.