“A imagem é para o analfabeto o que as letras são para os que sabem ler”. Este pensamento do Papa Gregório Magno data do século VI, quando os vitrais e os frescos das igrejas funcionavam como catecismos visuais. A imagem era pedagógica instruindo quem não dominava a leitura. Era o livro dos iletrados. Hoje, paradoxalmente, a situação inverteu-se. Somos uma sociedade alfabetizada, mas alienada dos livros. A imagem voltou a ocupar o lugar central, mas agora como meio de manipulação e não como instrumento de instrução. Só que desta vez não transmite apenas ideias: fabrica realidades. As imagens já não precisam de ser destruídas para desaparecerem: basta fabricá-las. Este é o paradoxo do nosso tempo. Se antes se queimavam livros ou se tapavam figuras, hoje basta um algoritmo para substituir um rosto, alterar um discurso, criar uma guerra inexistente. Uma espécie de iconoclastia da fabricação. O que resta da memória quando já não sabemos se aquilo que vemos alguma vez existiu? Vivemos tempos de cripto-realidade. Uma realidade cifrada que se manifesta através de um sem número de véus.
Durante séculos, a Europa construiu-se em torno da palavra escrita. O Homo Legens era também o homem crítico: ler exigia silêncio, tempo, disciplina. Mas Giovanni Sartori já denunciava, em Homo Videns, a mutação em curso. A televisão e a internet deslocaram a hegemonia da palavra para a hegemonia da imagem — não pensamos discursivamente, apenas reagimos visualmente. A nova catequese já não é religiosa: é digital. Milhões consomem diariamente um fluxo de imagens rápidas que dispensam a demora da análise. No entanto, havia uma diferença crucial: até há pouco tempo, a imagem remetia para algo real. O vitral representava uma narrativa bíblica, a fotografia registava um instante, o vídeo testemunhava um acontecimento. A aura de realidade estava presente, mesmo quando manipulada. A manipulação denunciava a sua natureza.
O presente já não funciona assim. Não é preciso destruir nada, basta inundar o espaço público com imagens falsas. Não se apaga uma imagem perturbadora: cria-se outra, indiscernível do real, e deixa-se a dúvida corroer a confiança. É a passagem da iconoclastia da ausência para a iconoclastia da fabricação. No século XX, temíamos o lápis azul da censura e o martelo dos iconoclastas. No século XXI, a ameaça é mais insidiosa: não é o silêncio, é o ruído; não é a ausência, é o excesso.
George Orwell pressentiu este perigo em 1984. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.” O Ministério da Verdade reescrevia a história, apagando registos incómodos e fabricando outros novos. O objectivo era simples: controlar a memória colectiva. A IA poderá realizar hoje esse desígnio com uma eficácia assustadora. Não é preciso reescrever arquivos: basta gerar imagens convincentes que se espalham viralmente. Não é preciso impor uma mentira: basta lançar centenas de imagens contraditórias até que a verdade se dissolva. É a materialização daquilo a que Orwell chamou duplo-pensar: acreditar simultaneamente no verdadeiro e no falso. E assim, a profecia cumpre-se. Se a “novilíngua” empobrecia o vocabulário para limitar o pensamento, a avalanche de imagens fabricadas cumpre a mesma função. Não elimina ideias pela proibição, mas pela saturação. Já suspeitando da iminente chegada à sociedade orwelliana, Marion Marguerite Stokes assumiu a hercúlea tarefa de gravar ininterruptamente emissões televisivas, entre 1977 e 2012, arquivou 400 mil horas com o intuito de fixar a memória.
Vive-se hoje um “analfabetismo de segundo grau”. As pessoas sabem ler, mas não têm tempo ou ferramentas para duvidar. Confundem registo com fabricação, documento com simulação. Em O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginzburg, Menocchio inventava mitos para pensar o mundo; o Menocchio contemporâneo consome simulações que o fazem esquecer o mundo. O primeiro foi condenado pela leitura. O segundo será pela negação da mesma.
Se para Gregório Magno a imagem era catequese para o iletrado, hoje, a imagem artificial é ilusão para o letrado. Vivemos numa sociedade que lê mais do que nunca em caracteres, mas que pensa menos em profundidade. O resultado é uma população refém da emoção visual, incapaz de distinguir verdade de artifício. A política percebeu-o rapidamente. Em campanhas recentes, deepfakes circularam como armas retóricas: líderes a dizer o que nunca disseram, multidões inventadas, guerras que nunca aconteceram. A democracia transforma-se em teatro visual, onde o eleitorado decide com base em imagens virais e emoções fabricadas. A democracia transformou-se numa democracia TikTok: breve, repetitiva, feita de flashes visuais que excitam, mas não iluminam.
A iconoclastia algorítmica não precisa de martelo nem de fogo. Basta um prompt malicioso para abalar a confiança colectiva. O inimigo já não é o censor que apaga, mas o programador que cria. Se antes temíamos perder as imagens, agora tememos afogar-nos no seu excesso.