É cada vez mais evidente que André Ventura tem um problema com a arte. Sabe que esta será sempre uma força de bloqueio à sua emanação, e como tal, tudo fará para desvalorizar um sector que aparentemente, considera uma ameaça. Se por um lado, o candidato do Chega desvaloriza como “supérflua” a deslocação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para visitar em Londres uma exposição de Paula Rego, do outro, André Ventura anuncia solenemente que, se vencer as eleições, a sua primeira viagem será a Roma, para agradecer ao Papa. E, pelo caminho, recupera o velho mantra: Deus, Pátria e Família. Não é preciso comentar de imediato. Basta colocar os dois gestos lado a lado. O museu torna-se supérfluo — o altar converte-se em programa político. E é aqui que começa o problema, ou melhor, um dos muitos problemas que esta proposta política encerra. A opção do corte enquanto escolha civilizacional.
Esta afirmação de Ventura não representa nenhuma forma de turismo institucional nem devoção privada. Antes, encerra uma questão ontológica. Ventura estabelece claramente uma hierarquia de valores, uma declaração sobre aquilo que uma determinada comunidade considera essencial, e a arte não faz parte desses valores. À velha questão sobre se a cultura é de esquerda ou de direita, Ventura questiona: – Qual cultura? Ao considerar o contacto institucional com a arte algo supérfluo, Ventura não descarta apenas uma dimensão civilizacional. Descarta a imaginação crítica, a ambiguidade, o desconforto — a própria capacidade de olhar para o corpo social sem filtros morais. Afirma, implicitamente, que pensar é um luxo, que a arte é ornamento e que o pensamento disruptivo e contestatário é uma ameaça.
É um facto que Paula Rego nunca foi decorativa. A sua obra fala de violência, de aborto, de infância ferida, de poder, de submissão, de medo. E é precisamente por isso que é genial. A sua pintura não consola: interroga. Não adorna: expõe. E é precisamente por isso que incomoda. Para quem prefere uma sociedade obediente, uma arte que desestabiliza é sempre inútil. Ventura opta pelo menino da lágrima — pela imagem flácida e obediente, pia e casta. O decoro é o mandatário da sua ideologia. Por isso odeia tanto a obra da Paula Rego. Se a artista fosse viva faria uma actualização da sua famosa obra Salazar a vomitar a Pátria. Também Ventura vomita: impropérios e uma aversão à realidade. Será caricato imaginar sequer a existência de um António Ferro no universo de Ventura.
Em paralelo, a promessa de uma peregrinação inaugural ao Vaticano não é expressão de fé íntima. É coreografia pública. É a transformação do sagrado em selo de legitimidade política. Não estamos perante religiosidade; estamos perante teologia eleitoral. O candidato que vai à missa antes da noite eleitoral não procura transcendência: faz branding moral. Quando Deus entra no discurso partidário, deixa de ser mistério e passa a ser instrumento. A recuperação do trinómio Deus, Pátria e Família não é inocente. É uma fórmula antiga, testada, que procura substituir pensamento por pertença, complexidade por identidade, crítica por obediência. Uma fórmula que não convida à reflexão, mas à adesão.
Convém dizê-lo com clareza: não está em causa a fé, que pertence ao domínio íntimo de cada um. O que está em causa é o uso político da fé, a sua conversão em argumento de autoridade, a sua instrumentalização como fundamento de hierarquias sociais e de consensos forçados. É aqui que se desenham duas ideias de civilização. De um lado, museus, artistas, pensamento crítico, perguntas sem resposta, ambiguidade, complexidade. Uma cultura que aceita a incerteza como condição humana e que entende a arte como espaço de liberdade. Do outro, slogans, rituais, pureza moral, identidades fechadas, respostas prontas. Um modelo que precisa de absolutos para governar e de símbolos sagrados para silenciar o dissenso.
Mas o paradoxo torna-se ainda mais evidente quando olhamos para as consequências concretas deste discurso moralizante. O mesmo vocabulário que exalta Deus e Família é frequentemente aquele que normaliza a humilhação dos emigrantes, a suspeição permanente sobre o estrangeiro, a linguagem que reduz pessoas a números, a ameaças ou sanções. É também o que incentiva práticas que atentam quotidianamente contra a dignidade humana. Não é preciso recorrer a grandes abstrações. Basta observar os procedimentos, a retórica pública, as pequenas violências normalizadas. Uma fé que não protege o frágil é apenas decoração ideológica. Um moralismo que não se traduz em compaixão concreta é apenas encenação.
Almada Negreiros já o disse há tempos e importa repetir: Uma geração, que consente deixar-se representar por um Ventura é uma geração que nunca o foi. Uma geração com um Ventura à proa é uma canoa em seco. O Ventura é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe que vai sair… O Ventura é um soneto dele-próprio. E ainda há quem não core quando diz admirar o Ventura! Basta pum basta!