Diane Keaton. Hoje o texto é sobre ela, sobre a forma como entrou nas vidas de muitos de nós através do ecrã. Há atores, escritores, músicos, homens e mulheres que, de alguma forma, não nos sendo nada, se agarram à nossa existência, e que lhe dão um sentido para além do que acontece dentro dos limites do nosso corpo, do nosso quotidiano. E, sejamos sinceros, a vida, apenas circunscrita à nossa própria realidade, não tem a mesma graça. É aqui que a Arte nos salva, tantas vezes.
Ninguém que tenha visto o Manhattan se irá esquecer da silhueta dela, numa sombra perfeita, sentada ao lado de Woody Allen, com a ponte de Queensboro em pano de fundo. Ninguém se vai esquecer de Diane em Annie Hall, do seu sorriso aberto, da gravata icónica presa num colete, da voz melodiosa a cantar “seems like old times…”, do envergonhado “lá di dá, lá di dá, lá lá”. Ninguém se vai esquecer de como Diane deu vida a todos os nossos resquícios humanos ansiosos, excêntricos, neuróticos, confusos, perdidos, autocríticos. Diane sabia interpretar personagens que não eram só dos filmes. Ela era capaz de lhes dar um cunho de realidade que nos fazia sentir que aquela mulher, ali representada no ecrã, também estava à procura de um caminho, também estava à procura de sentir que não era só um pedaço de carne no rodopio da humanidade.
Ninguém se vai esquecer de Diane como Kay Adams, nos magníficos Padrinhos, dos momentos de tensão em que contracenou com Al Pacino, mas também dos momentos de ternura e, principalmente, dos momentos de grande sofrimento e dor psicológica. Os grandes atores têm esta capacidade omnipotente e omnipresente de nos fazer sentir uma dor que nem existe nem é nossa. E era isso que conseguíamos sentir de cada vez que Diane Keaton surgia na tela, fosse quando confessou a Michael Corleone que o casamento estava acabado, fosse quando ambos gritaram e choraram a morte da filha Mary.
Todos sabemos que é o normal ciclo da vida, mas há pessoas que nos deixam saudades, não porque as conhecemos, mas porque, à distância, acompanharam várias fases da nossa vida e lhes deram um significado. As formas de arte têm uma forma particular de nos marcar. Os filmes, os livros, as personagens são, tantas vezes, vidas que não vivemos e que gostávamos de ter vivido; vidas que projectamos nos outros; vidas que nos fazem repensar as nossas. Afinal, só na arte encontramos um reflexo à altura das nossas próprias vidas. A arte permite-nos olhar para algo quase proibido. Através das formas de arte, somos espectadores de acontecimentos que, de outra forma, nunca poderíamos testemunhar nem ver de fora. É por isso que muitas vezes nos conseguimos sentir emocionados quando saímos da sala de cinema — é porque temos a oportunidade de nos ver fora do nosso corpo. Os atores das histórias, sejam os dos livros ou dos filmes, não são mais do que retratos fragmentados de nós próprios, e a forma como olhamos para eles revela aquilo que andamos à procura dentro de nós.
Diane Keaton não é para ser comparada, mas as saudades que vamos ter dela fazem-nos pensar nas saudades que vamos ter de outras mulheres e homens que nos deixaram de olhos bem abertos, mesmo depois do filme ter acabado. Que a imortalidade do cinema nunca se perca e que as salas não se fechem, porque a verdade é que nos falta cada vez mais “alimentar a alma”, e sem dúvida que ela não se alimenta com o imediatismo dos vídeos fabricados no Tik Tok e nas outras redes. O prazo de validade de quase tudo o que nos rodeia é muito curto, mas ainda vale a pena ir à procura de lugares que perduram no nosso imaginário.