Andreas Mindt, chefe do departamento de design do grupo Volkswagen desde Março passado, declarou recentemente que “We will never, ever make this mistake any more… No guessing any more. There’s feedback, it’s real, and people love this. Honestly, it’s a car. It’s not a phone: it’s a car.”

Boa, Andreas, já tardava. E para começo de conversa nos próximos modelos o volume de som, o aquecimento, a velocidade da ventoinha, as luzes de perigo e o ar condicionado regressa tudo a botões.

Ainda é pouco. Que na realidade a ideia de passar os dedos por um écran ensebado, seguindo um percurso obscuro de menus, para uma coisa tão simples como pôr a ventilação a soprar para os pés em vez de para a fachada, foi sempre coisa de chanfrados da modernidade. E é melhor nem falar do volante cheio de botões, como se carregar num deles à toa não pudesse interferir com aquele mínimo de atenção que o volante propriamente dito requer. Há tempos, numa viagem de Guimarães para Lisboa, num automóvel que não era o meu, ouvi de repente uma voz feminina que me interrogava sobre o que queria fazer. Ao mesmo tempo, no televisor de salão que ocupava parte do tablier apareceu uma imagem qualquer que tinha num canto um xis, que pressionei precipitadamente a ver se a intrometida se calava. Fechou a matraca, graças a Deus, mas uns quilómetros volvidos voltou à carga. Desta vez respondi de forma relativamente acerba, cuidado que não tive das vezes seguintes, em que a insultei nos termos mais soezes.

Que as autoridades de homologação dos veículos achem um progresso transformar o habitáculo num departamento de informática, e que nisso não vejam os óbvios riscos para a segurança, não surpreende: as burocracias acabam sempre por asneirar. Já os utilizadores, enfim, nem se percebe por que carga de água não reclamam para os televisores de suas casas comandos directamente no écran, para efeito de verem filmes através de uma película de suor empoeirado.

Ó, isto não é um hino ao passado. Que Nosso Senhor, na sua infinita bondade, abençoe o GPS, os telemóveis, a internet, as redes sociais e j’en passe (a IA não sei ainda se merece bênçãos, apura-se mais à frente). Mas, como se vê nos automóveis, às vezes vai-se longe de mais.

É aqui que entra a reforma do mecanismo dos exames e o ministro Fernando Alexandre. Digamo-lo francamente: a instalação precipitada de novos sistemas em veículos de novos modelos é causa muitas vezes de chamada de milhares de veículos às oficinas, com gravíssimos prejuízos para os fabricantes.

Porque o fazem, então? Porque a pressão para melhorar é imensa e a inovação é um caminho não isento de perigos.

Fernando Alexandre lançou um novo modelo. O homem é professor numa faculdade onde se ensina gestão (também economia, mas não desejo envergonhá-lo com esta revelação) e gerir, hoje mais do que alguma vez, é mudar.

A sério que tentei perceber exactamente o que correu mal, quem arrastou os pés quando não devia, quem deixou para o dia seguinte o que só podia ser feito a desoras, quem projectou uma imagem de grande competência que não resistiu à prova, quem calou o que realmente pensava porque os ministros passam e os misters Humphrey ficam. As dúvidas – estas e outras – que tinha ao princípio são as mesmas que tenho no fim. E não ajudam nada opiniões de partes interessadas (como a FENPROF, cuja reacção negativa, se alguma coisa é, é uma recomendação), professores (dos quais só chegam à opinião pública as vozes dos que apoiam, e criticam, entusiasticamente), e de jornalistas, que glosam embaraçadamente, se forem apoiantes do Governo, ou com gozo, se forem esquerdosos, os episódios que se vão desenrolando. E não posso avaliar se Fernando Alexandre foi imprudente mais do que o bom senso admitiria.

Isso não sei. Mas não contem comigo para a crucificação de um homem que não se resigna. Carreiristas que não correm riscos é gado que sempre abundou nos currais da política, e nestes um touro que investe, e um cavalo que escouceia, sempre são animais de vitalidade.

A comparação das inovações nos automóveis e no ensino faz uma analogia improvável. Que completo dizendo duas coisas:

Uma que, corrigidos todos os defeitos mas não ficando por aqui, é provável que se entre no domínio do asneirol se em algum momento futuro se rejeitar a redacção manuscrita a benefício do teclado, se se generalizarem os questionários de resposta múltipla, pelo menos nas humanidades, e se (como parece que já sucede) cada professor classificar não uma prova inteira mas apenas parte dela, supostamente para limitar as diferenças de grau de exigência de professor para professor mas esquecendo que a prova toda, com os seus erros muitas vezes apenas parciais, dá uma visão global do examinando que a classificação às postas não dá;

Outra que os automóveis que recolheram à oficina por defeito de origem representaram um custo para o fabricante. É mais do que justo que alunos que foram prejudicados não apenas não paguem nada (ouço dizer que governantes com alma de guarda-livros entendem que segundas-chamadas, ou lá o que é, implicam pagamento) mas se torçam os prazos que for necessário torcer para lhes minorar a aflição.

E então, Fernando Alexandre fica ou não fica? Mesmo que tivesse filhos em idade escolar, e ainda que tivessem sofrido transtornos e angústias, diria que sim porque nos melhores panos caem nódoas. Como não tenho… já usted vê.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.