Saiu no mês passado a quarta colectânea das crónicas sobre questões de história colonial que desde 2017 tenho vindo a fazer na imprensa. Foi publicada, como as colectâneas anteriores, pela Guerra e Paz e o seu título é Reparações e Outras Penitências Históricas. A capa mostra Seh-Dong-Hong-Beh, uma comandante das amazonas, ou mulheres-guerreiras do Daomé, segurando a cabeça decapitada de um negro, num desenho de Frederick E. Forbes (ver imagem).

Forbes, um oficial da Royal Navy, visitou o reino do Daomé em meados do século XIX, residiu aí durante muitos meses e deixou-nos, numa memória publicada em 1851, a narrativa dessa estadia bem como várias ilustrações de habitantes do reino africano. Muito simpaticamente a revista do Expresso referiu a minha colectânea na sua secção de livros, o que lhe agradeço, mas surpreendentemente, em vez de reproduzir a imagem da capa, como é usual, substituiu-a por uma fotografia de ferros e outros apetrechos presumivelmente usados por europeus e destinados a prender escravos. Ou seja, substituiu a imagem da brutalidade africana pela alusão à brutalidade europeia. Terá sido uma simples opção de paginação, ou terá havido relutância politicamente correcta em expor as violências que os africanos faziam uns aos outros? Não sei dizer e não quero fazer processos de intenção, mas lá que é insólito…é.

Imagens à parte, o Expresso afirma que as reparações são “um dos grandes temas de discussão na actualidade” e assegura, muito acertadamente, que eu sou contra elas. E porque é que sou contra reparações a pessoas que se dizem descendentes de escravos? Por um conjunto de razões que fui expondo ao longo do tempo, algumas das quais se encontram nesta colectânea, e sobretudo porque considero que as reparações que havia a fazer já foram feitas no século XIX, época em que os povos ocidentais, com destaque para os britânicos, proibiram e suprimiram o tráfico transatlântico da escravatura e acabaram com a escravidão. Defendi essa posição por escrito e ao vivo, num debate no programa “É ou Não É?”, na RTP, o que muito enervou a gente woke. Algumas dessas pessoas reagiram de imediato. Com uma manifesta propensão para se alongar a falar do que não sabe, a colunista do Público Luísa Semedo fez mesmo um curioso paralelo. Escreveu ela o seguinte: “E, como quer (João Pedro Marques) que o levemos a sério quando hoje, num debate televisivo, é capaz de utilizar com toda a convicção argumentos tão extravagantes como já reparámos o crime da Escravatura porque o cessámos e porque nos custou muito parar, que podemos resumir a” — e a comparação é de Luísa Semedo — “se um homem parar de bater numa mulher isto já é reparação do crime, e a mulher só tem é de agradecer, até porque custou muito ao macho parar de bater. Quando se diz que não se pode olhar com os olhos do presente o passado… Então que olhos são os de JPM?”.

Bom, Luísa Semedo, são os olhos de quem não tem palas ideológicas que o impeçam de olhar tanto à esquerda como à direita, de quem não tem, felizmente, diplopia, que o faça ver imagens a duplicar e a complicar os problemas abolicionistas com os de género — não, não dou para o peditório da interseccionalidade — e sobretudo os olhos de quem sabe alguma coisa de História. E é principalmente por esta última razão que lhe digo que a analogia com o homem que bate na mulher só pode vir de alguém que não faz a mínima ideia do que está a falar. É uma analogia imprestável porque não foi assim que as coisas se passaram. Os ocidentais não deixaram apenas de praticar uma actividade condenável e condenada, isto é, não se limitaram a “deixar de bater” — para usar a infeliz comparação de Luísa Semedo —, trataram também de impedir que outros, nomeadamente muitos chefes e reis africanos, continuassem a fazê-lo. Sim, houve países — a Dinamarca, a Holanda — que se limitaram a parar o seu tráfico de escravos. Mas o Reino Unido, a França, Portugal e outros países ocidentais não se ficaram pela simples abolição dessa prática, também procuraram suprimi-la. Proibir e suprimir não são sinónimos, não são a mesma coisa, Luísa Semedo. Para suprimir o tráfico transatlântico e, também, no Índico, foi necessário pagar indemnizações, fazer intervenções militares em terra e colocar navios de guerra a patrulhar esses oceanos.

Foi um esforço mantido ao longo de décadas cujo custo foi elevadíssimo. O Reino Unido, por exemplo, gastou nisso cerca de 12 milhões de libras. Portugal, cujos navios de cruzeiro começaram a actuar mais tarde do que os britânicos, tinha gastado, até 1860, isto é, nos primeiros vinte anos da sua acção supressora, cerca de 4 mil contos, uma enorme despesa face às suas disponibilidades financeiras na época. A isto há que adicionar o custo em vidas. A costa de África era altamente mortífera devido às febres tropicais (malária, febre amarela) e outras doenças. Era tão mortífera que a Serra Leoa e,  por analogia, outras partes da costa, ficaram conhecidas por “o sepulcro do europeu” — ou “the white man’s grave”, em inglês —, uma expressão inventada em 1819 pelo português César de Figanière e Morão. Deixem-me dar três ou quatro exemplos: em 1841, morreram na costa do Biafra, 25 dos 140 homens da tripulação do Wolverine; 46 marinheiros dos 50 que penetraram no rio Pongos morreram em meia-dúzia de dias; segundo os dados estatísticos britânicos, a mortalidade por doença nos navios que serviam em África era o quíntuplo da verificada nos navios que cruzavam os mares da Europa; e quem ler o romance Eugénio, escrito em meados do século XIX pelo oficial da Armada Francisco Maria Bordalo, ficará imediatamente a par do sacrifício e altíssimo risco de vida que o serviço na Estação Naval, em Luanda, implicava.

Qual o resultado prático desse esforço e desse risco? Os britânicos apresaram 1.575 embarcações negreiras; os franceses, 214; os portugueses, 168; os norte-americanos, 68; etc. A política de supressão obrigou ao uso de muitos meios militares e financeiros e custou vidas, não apenas por doença, mas também em combate com os negreiros. Portugal participou nessa supressão. Eu abordei esse aspecto da história portuguesa em África em 1999, numa obra que está esgotada, mas felizmente há, para quem estiver interessado no tema, um bom e mais recente livro que narra com grande detalhe o que foi a intervenção da Armada portuguesa no combate ao tráfico de escravos.

Em suma, o que importa acima de tudo realçar, no contexto desta nota, é que, no que se refere ao tráfico de escravos africanos, os países ocidentais — Portugal incluído — não tiveram uma atitude meramente passiva de “deixar de bater” que a colunista Luísa Semedo e outras vozes woke imaginam. E no que se refere ao fim da escravidão bastará pensar no que foi a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, que implicou a morte de mais de 600 mil pessoas, para perceber que também nesse caso não houve passividade, não foi só “deixar de bater”. Não há, por isso, mais reparações a fazer. O fim do tráfico e da escravidão constitui reparação suficiente e essa reparação foi feita no século XIX, há cerca de 200 anos.