Nem se compreende como é que Luís Montenegro e a sua cúpula não anteciparam ou sequer vislumbraram, passo o pleonasmo, a hecatombe que estava para vir. Era por demais evidente. E agora ficam, mais uma vez, cerca de dois milhões e meio de eleitores sem ter verdadeiramente onde votar.

Não sendo o eleitorado a soma de Seguro e Ventura, os números aproximam‑se, António José Seguro reuniu 1 754 904 votos e André Ventura 1 326 648. Somando ambos, 3 081 552 eleitores, sobraram para o centro‑direita moderado, incluindo o almirante, cujo mandatário foi Rui Rio, algo que afastou eleitorado, e não pouco, somente 2 235 056 votos. Isto corresponde a cerca de 72% dos eleitores dos dois candidatos que passam à segunda volta sem saber o que fazer, ou cerca de 22% de todos os que votaram.

Mais confrangedor ainda é a abstenção: 47,7%. Traduzindo de outra forma: quase mais do que o somatório dos votos dos cinco principais candidatos. Se ninguém quiser pensar nisto, não pense… mas as consequências não tardarão a fazer‑se sentir.
Matemática pura: 22,3% dos que votaram não elegeram ninguém; 47,7% não votaram. Setenta por cento dos cidadãos não estão representados — uns por opção, outros por inerência. A questão que se coloca é simples: alguém, seja quem for, tem legitimidade sólida para exercer o cargo nestas condições? A matemática pode ser difícil, mas dá factos (“Deem‑me números, farei deles o que quiserem”). Somando os que não elegeram e os que não votaram, sobram cerca de 17% para António José Seguro e 13% para André Ventura. Representam isto a população? São estes os tais 50% + 1?
No distrito de Bragança, venceu a abstenção com 51,6%, mais 0,9% de votos nulos e 1,1% de brancos. No total, 53,9%.

Será possível que ninguém faça uma leitura política disto? Não sendo necessária análise especializada, o cenário parece evidente: Marques Mendes não servia; muitos eleitores não conseguiram votar contra a indicação do partido — ao contrário do que aconteceu noutras zonas do país — e, por isso, não votaram. Ou, indo às urnas, votaram nulo ou branco. Há ainda disciplina partidária em alguns pontos do país.

O que mais inquieta é ver transformarem os eleitores em rebanho. Ou em “Maria vai com as outras”. Como dizia um velho ditado: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Os eleitores não são obtusos, e muito menos “atrasados mentais”, como Sérgio Sousa Pinto afirmou. Longe disso. Alguns têm dificuldade em antecipar a jogada seguinte ou a estratégia, mas isso não nos torna mentecaptos.

Há, porém, certezas que se repetem em muitos: não querer o PS de volta, não querer o socialismo de volta, não querer nunca mais uma geringonça no país. Milhões de eleitores sentem o mesmo. Muitos são órfãos de Cotrim, muitos são militantes do PSD desde a adolescência, e muitos não sabem o que fazer. Os votos nulos e brancos continuam a não merecer análise de ninguém.

Por outro lado, preocupa a análise que André Ventura — ou o comentariado do costume, maioritariamente socialista ou de extrema‑esquerda, e que não quer Luís Montenegro — possa fazer do número de votos que obteve. Também não há vontade de ver o Chega na Presidência ou no Governo.

Na leitura de muitos, esta poderá ser a primeira vez na história de Portugal em que um Presidente não renovará o mandato. Resta a questão que paira sobre milhões de eleitores: Que fazer no próximo ato eleitoral?