Há um abismo incomensurável entre a chamada bolha político-mediática e os outros. Os outros somos todos nós, os que acordam cedo, preparam os lanches das crianças e as levam à escola ou ao colégio, público ou privado – escolhas de vida que, honestamente, nem deveriam ser julgadas ou debatidas. Somos os que enfrentam períodos de trabalho extenuantes, acumulando muitas vezes dois ou três empregos para garantir que os filhos tenham um seguro de saúde, porque o Serviço Nacional de Saúde, aquele que deveria ser um verdadeiro pilar de suporte – na verdadeira acepção da frase –, não o é, e continua a falhar.
Somos os outros, os que vão ao supermercado e que chegaram a pagar 6,35€ pela garrafa de azeite virgem mais barata do mercado e que aguentaram tudo sem qualquer queixume. Somos os outros que passaram a consumir óleo em vez de azeite, porque nem os 6,35€ conseguiam pagar nessa altura. Somos os outros que ouvem todos os dias as rádios – Observador, Comercial ou Antena 3, entre outras – que ainda nos fazem rir e sair do marasmo onde nos encontramos, e que aguentamos, dia após dia. Somos todos os outros que saem de casa atrasados, por inerência, e não porque isso faça parte do modo ou do estado de vida, mas porque a vida é difícil e custa muito levantar cada vez que o despertador toca, até porque o trabalho diário, profissional e familiar, ultrapassa em muito as oito horas diárias estipuladas.
Somos os outros que vão num comboio cheio… cheio de pessoas como nós próprios, desprovidos de esperança, objectivos ou ideias, porque, no fundo, apenas queremos chegar ao fim do dia. Somos os outros que exasperam e desesperam cinco horas por dia em filas de trânsito de e para o trabalho. Somos os outros que nem sequer notícias ou comentários ouvem, dado o cansaço que se acumula e a estupidez ou facciosismo que prolifera – “muda o canal, vê bola”. Somos os outros, cuja esperança vai morrendo, dia após dia, porque qualquer pequena melhoria introduzida é revertida pouco tempo depois. Somos os que saem de casa apressados, não porque gostamos ou porque escolhemos uma vida caótica, mas porque o peso da rotina e das responsabilidades torna impossível o contrário.
Somos os outros que pagamos impostos atrás de impostos – IVA, IRC, IRS, IUC, IMT, contribuição para a Segurança Social, entre tantos outros – e que ainda temos de pagar mais para ter alguma qualidade de vida: seguros, colégios, ATL, carrinhas de transporte, amas e todas as fontes de suporte que nos permitem produzir, podendo ou não tendo possibilidade. Somos os outros que anseiam reformas e que delas nem vislumbre. E, no meio de tudo isto, somos os outros que percorremos a cidade rodeados por rostos como os nossos, marcados pelo cansaço, pela falta de esperança, pela ausência de um propósito maior. Não vivemos – sobrevivemos!
Enquanto isso, existe a bolha. A bolha político-mediática que vive num universo paralelo, desconectada das realidades que enfrentamos. Em 2025, decide submeter o primeiro-ministro a um escrutínio tal que já ninguém consegue acompanhar, nem mesmo vós, quanto mais nós, os outros. É a mesma bolha que, anos atrás, deixou Sócrates governar sem oposição aparente. Não nos esqueçamos das extravagâncias, como os fatos luxuosos comprados em Los Angeles ou o mestrado na Sorbonne – obtido por quem, alegadamente, nem licenciatura tinha. Onde estava a bolha nessa altura? Certamente não connosco, os outros.
E, no entanto, os mesmos, a bolha, dizem que “os outros” estão divorciados da política, que procuramos antipolíticos ou que somos extremistas. Mas será mesmo assim? Se os outros, nós, realmente tivessem abandonado a política, não haveria tanto espaço para comentários políticos. O simples facto de haver proliferação de comentadores, imparciais, sem qualificação e muitas das vezes energúmenos, significa que há consumo, porque faz parte da lei do mercado, só há oferta, se houver procura. Os outros ainda se interessam, mas esse interesse está por um fio. O divórcio que tanto mencionam não é inevitável, mas a bolha insiste em empurrar-nos para esse caminho.
O que a bolha não entende – ou escolhe ignorar – é que a paciência dos outros tem limites. Dia após dia, suportamos as falhas, as incertezas, as decisões que nos afectam profundamente sem termos voz. Mas a desconexão aumenta. E, se os outros se afastarem por completo da política, não será por desinteresse, mas porque a bolha nunca nos reconheceu como parte da equação.