Defronte da casa que os Maias habitaram em Lisboa, na rua das Janelas Verdes, não passaria o féretro que transportaria Eça de Queirós até ao Panteão Nacional. Os distintos turistas alojados no hotel de cinco estrelas, das “estreitas varandas de ferro” ou olhando através das vidraças, não teriam oportunidade de dirigir o último adeus ao escritor, se porventura o houvessem lido. Além do mais, “a cinzenta e arrepiada manhã de chuva” não convida a abrir as portadas. O palácio onde há longos anos não habitam Maias, tivera, mais recentemente, Madonna como ilustre inquilina, a rainha da música pop. Dos painéis de girassóis ficaram apenas as largas pétalas amarelas que decoram as paredes da marmórea escadaria. No dia da transladação de Eça de Queirós, os criados não fardaram luto, não pendiam estandartes negros da fachada, negrume apenas o das nuvens carregadas. Neste lacrimoso dia, em que o escritor ressurgia das cinzas do esquecimento e a obra se libertava do sudário de pó, não se ouviam réquiens no convento de S. Francisco de Paula, não tocavam os seus torreões a rebate, apenas a chuva cantava triste. Rodando pela estrada encharcada pela chuva da manhã, o esquife ainda avistaria, à sua esquerda, antes de chegar ao Ramalhete, a larga bacia de mármore no centro do largo, onde das águas da chuva, emergia a estátua da Vénus Citereia, trazendo pela mão um cupido irrequieto.

No entanto, o meticuloso protocolo determinava que a cerimónia tivesse início ao Palácio de São Bento. Entre os demais parlamentares na arcada do peristilo neoclássico, faltava o conselheiro Acácio, na empáfia do seu paletó, distribuindo efusivas saudações e vigorosos apertos de mão. Estaria já em Santa Engrácia. De alta estatura um tanto encurvada, os cabelos já grisalhos sobre a testa franzida, “o pescoço entalado no colarinho direito” de onde brotava uma gravata azul-celeste, esboçava um sorriso sardónico e comentava toda a sorte de assuntos com grande eloquência e autoridade, gesticulando sempre. Com a maior solenidade, prestaria os mais elevados encómios à obra do nosso escritor, agora no reino celeste, certamente entre os doutores da patrística, redigindo louvores ao altíssimo, na sua agudíssima ironia. A obra queirosiana encontrava-se ainda incorrupta, são páginas que a traça não corrói. A sua transladação confirmava, uma vez mais, que Lisboa apenas se revela verdadeiramente grandiosa quando os deputados da nação assumem os verdadeiros interesses do país. Acácio passaria, acto contínuo, ao elogio da cidade, “uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente”.

Mais abaixo, aos pés da escadaria, os esfíngicos leões de pedra, amansados e serenos, aguardavam a partida a charrete que conduziria a urna através das principais artérias da cidade. Acaso a escolta seguisse pelo Bairro Alto, encontraria o miradouro de S. Pedro de Alcântara abraçado pelo temporal. A custo se conseguia avistava, além das grades, por entre a chuva, “o castelo atarracado”, “as casas da Mouraria e de Alfama”, “as pesadas torres da Sé”. Entre as brumas da paisagem triste, parecia desvelar-se, sob o guarda-chuva, a figura do poeta Alencar “de longos bigodes românticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarelara”. Àquela hora iria certamente ao hotel Bragança, para se encontrar com João da Ega e Carlos da Maia, que não via há meia dúzia de anos.  “Estás típico, Alencar”, diria Carlos, “a preceito para a gravura e para a estátua”. Na Gazeta do Chiado, lera Alencar que os restos mortais do escritor Eça de Queirós seriam transladados para o Panteão Nacional. Era nesse momento que, à sua frente, passava a memória do que Eça havia sido. Alencar, levado pela emoção, atravessou a esplanada até ao muro para chorar com o rio e as colinas a passagem à eternidade desse escritor nacional. Era nele triste a chuva fora. Mesmo sendo a poesia a mais nobre das artes, não deixava de admirar a escrita prodigiosa do nosso Zola, do nosso Flaubert, João da Ega c’est moi. Sentindo-se impelido a recitar alguma estrofe, nenhuma expressão lhe parecia digna. Ainda assim, cofiando pensativamente os bigodes, declamou estes versos, numa reverência incontida:

Os homens são como folhas
Caindo na fria estação.
Alguns, porém, não fenecem:
Descansam no Panteão!

A caleche desaparecia pela rua de S. Roque. Do teatro da Trindade, saiu Artur Corvelo, contrariado por ninguém reconhecer, lamentavelmente, o seu talento artístico. Debaixo do braço, trazia as páginas do drama que recentemente acabara de escrever, sem dúvida alguma digno dos mais sonoros aplausos nos meios literários. No fim de contas, foi na ilusória esperança de fama literária que viera até à capital. Quisera o fatídico destino, ao rodeá-lo de más influências e de amizades interesseiras, que acabasse por dissipar toda a sua herança em convívios, jantares e paixões. Assim arruinado, via-se obrigado a regressar a Oliveira de Azeméis, não sem antes passar na luvaria da rua Garrett para comprar dois pares de luvas pretas, queria exibir “coisas chics, coisas de Lisboa, no luto da tia Sabina”.

O Largo de Camões, “velho coração da capital”, não conservava o mesmo “ar mudo e deserto” de finais do século XIX. Nos últimos anos, muita coisa mudara. Nos nossos dias, multidões de turistas atravessam a praça, numa Babel de idiomas distintos, como é próprio de uma capital inovadora, cosmopolita, que pretende ser “a inveja da Europa”. A estátua de Camões, fustigada pelas vagas de aguaceiros, procura, uma vez mais, salvar das águas a sua epopeia. Ega e Carlos da Maia, indo para o almoço com Alencar, caminhavam “sob o frio olhar de bronze do velho poeta”. Conversam sobre Paris, de mulheres e dos amigos. Lamentavam, porém, os vadios e os sem-abrigo daquela época. Criticavam também os políticos que então faziam lembrar “bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis…”.

Da igreja dos Mártires saía o padre Amaro, onde acabara de dizer missa, quando reconheceu, entre a multidão, a voz do cónego Dias a chamar por si. A fim de tratar de assuntos burocráticos, viera de Leiria, onde Amaro se deixara seduzir pelos encantos de Amélia, que “no fundo das suas imaginações e dos seus sonhos” fazia arder o seu desejo “como uma brasa silenciosa”. Mas essa chama há muito se extinguira. O cónego Dias, comentando os acontecimentos políticos internacionais, acreditava que a derrota da Comuna serviria de exemplo para não mais se “ouvir falar de república, nem de questão social, nem de povo”. A História aguardava apenas ao virar do século para revelar o equívoco dessa conjetura. Tal como os ímpetos do coração, essas gloriosas certezas também passam.

Quem por eles passava, nesse instante, era a carruagem fúnebre de Eça de Queirós. Se acaso virasse para a rua do Alecrim, em direção ao Cais do Sodré, passaria diante da estátua do escritor, na sua elegante casaca de diplomata, tentando suster, nos seus braços, as formas curvilíneas de uma verdade nua, que procura libertar-se do manto diáfano que ocultava a sua sensualidade aos olhares mais indiscretos.  Mas já no interior do Panteão, as mais altas figuras do estado aguardam ansiosamente a chegada do escritor. No interior do edifício, ao abrigo da chuva, do vento e do povo, encontram-se os políticos. Um deles bocejava molemente. Teria Eça a venturosa honra de conseguir avistar o garboso almirante? Entre outros heróis da nação seria agora sepultado, passando a ter por ilustre companhia “aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”.  Assim terminam as memórias póstumas de Eça de Queirós, no dia da sua transladação, que ia tardando quase tanto tempo quanto a construção do monumento onde agora jaz.