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Na minha primeira visita ao museu do Louvre, depois de subir as escadas até ao primeiro andar, encontrei-me na sala Mollien, dedicada ao período romântico. O meu olhar foi atraído para o lado esquerdo, impelido pela atração gravítica de uma pesada moldura, prodigiosamente suspensa, que se abria como janela dourada, aberta de par em par com a tempestade e a ventania, perante uma paisagem dramática e tenebrosa. Na legenda, podia ler-se o nome do pintor, GÉRICAULT (J.L.A. THÉODORE) 1791 + 1824, assim como o título da obra, O NAUFRÁGIO DA MEDUSA.

O NAUFRÁGIO DA MEDUSA

Ao contemplar esta obra de proporções monumentais, fui arrebatado pelo o tumulto da tempestade, vendo aproximar-se, na minha direção, uma jangada feita em destroços que o mar abocanhou como tubarão faminto e o vento fustigou como inclemente algoz. Impressiona como não submerge esta jangada em ruínas – traves quebradas, velas rasgadas, mastros caídos – ao mesmo tempo que embala, ao colo das ondas,  numerosa multidão desesperada. Estes náufragos, certamente mais débeis do que as convenções do cânone os fizeram representar, destacam-se lívidos como clarão esmoreecido de um farol à deriva na intempérie – dramáticos contrastes entre claro e escuro, que fazem lembrar Caravaggio.

Olhando com atenção, damos conta que nem todos estão vivos. Porém, alguns ainda tiveram forças para recusar o funesto convite das ondas que cercavam o frágil esquife. No momento em que os sobreviventes adivinham, ao longe, a pequena figura cinzenta de um navio que se aproxima, um membro da tripulação investe as últimas forças que  sobraram de trabalhos excessivos, para trepar, apressadamente, até ao cimo da moldura, da tela sairia, se assim pudesse salvar-se. Empoleirado de um barril, de que se socorrera como etérea gávea, numa ânsia incrédula, agitava a camisa, tentando, ao mesmo tempo, sobrepor os seus brados ao estrépito das ondas, na esperança de que aquele brigue o libertasse da marítima prisão.

A tela que temos diante pretende retratar o naufrágio da fragata Medusa, ocorrido em 1816, ao largo da costa da Mauritânia. Com uma lotação máxima de 250 pessoas, seguiam a bordo mais de 400 passageiros – tripulação, soldados, cientistas e funcionários do governo francês – que embarcaram numa viagem até ao Senegal, que para a maioria não teria regresso. O colossal navio, de imponentes dimensões e intransponível amurada, era uma górgona dos mares: abertas as escotilhas, alojava-se, no casco, um ninho se serpentes – uma bateria de quarenta e quatro canhões de pólvora que petrificava, amedrontado, qualquer adversário que, temerário, se aproxima-se. Não obstante a ameaçadora artilharia, a fragata, que, um ano antes, tivera de assistir, impotente, à rendição do Imperador no cais de Rochefort, dada a desvantagem numérica da esquadra francesa, vê-se agora incapaz de vencer a fúria do mar indómito, que em funesto naufrágio decide pôr cobro à titânica ousadia.

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Eis a nau catrineta que tem muito que contar, ouvi agora senhores um relato de alto mar. Enquanto a fragata media, com as imensas velas côncavas, as milhas da superfície do atlântico, a majestoso navio despenhou-se sua soberba, ao encalhar num banco de areia que bordejava a costa africana. Frustadas várias tentativas para resgatar a Medusa dos procelosos baixos, logo o incauto capitão deu ordem para abandonar o navio. Construíram os marinheiros uma jangada, com quanta madeira conseguiram encontrar: mastros, pranchas, remos, tonéis. Ferindo com o machado o navio, fizeram gemer as tábuas, arrancaram as ripas e, assim, derrubaram a orgulhosa fragata. Esta jangada, edificada de improviso para aliviar a carga do navio, acabou por acolher centena e meia de tripulantes. Os restantes passageiros embarcaram em pequenas canoas e batéis, remando, aflitos, para fugir ao naufrágio. Os oficiais de bordo, temendo que a pesada jangada os lançasse no abismo, deram ordem para decapitar os cordames que a amarravam às demais embarcações.

A jangada foi abandonada ao seu destino. Novamente, o mar soltou o seu rugido e, erguendo as garras de portentosa onda, arremessou vinte homens para as fauces do abismo. Os marinheiros a bordo já não tinham que comer, nem tão pouco que manjar: o saco de biscoito viu-se, por um braço incauto, lançado ao mar, enquanto outro braço, com reflexos que a fome tornou mais ágeis, imediatamente mergulhou para o salvar das água gelada. Se um momento de descuido fora causa suficiente para quase perder o insalubre alimento, um dia foi tempo bastante o consumir. A mesma sorte tiveram os barris de água doce, que o desvario lançou borda fora. Alguns náufragos, não suportando a fome e a sede, o corpo entregaram ao mar, em desespero. Assim, vogando ao acaso, a jangada não navega apenas no oceano em fúria  – flutua no vale das sombras da morte,  atravessa os meridianos da existência humana, submergindo os seus tripulantes em águas de negra cegueira. Deitaram sortes à ventura… Apenas quinze vidas se salvaram, por milagre, na jangada.

Resgatados os sobreviventes, as páginas dos jornais da época foram foi inundadas com as notícias do naufrágio. Impressionado pelas narrativas da viagem, Géricault empreendeu um trabalho de exaustiva investigação, antes de iniciar a composição do quadro. Entrevistou os sobreviventes a ao carpinteiro da Medusa, pediu que construísse um modelo detalhado da jangada. Nos hospitais, invadiu a morgue, à procura de membros amputados que servissem de modelo e percorreu apressadamente as enfermarias, na esperança de observar a tempo a cor da morte, no rosto dos agonizantes. Compôs estudos, traçou esboços, coloriu desenhos. O pintor Delacroix, amigo de Géricault,  serviu de modelo para o jovem que vemos ao centro, deitado de bruços, de cabeça tombada nas traves respingadas e alguns sobreviventes serviram de modelo para os vultos espectrais que se abrigam, encolhidos, na sombra da vela rasgada.

Com observadora intuição artística, o pintor encontrou, no Canal da Mancha, uma paisagem propensa semelhantes infortúnios. Assim se compreende que, na passada semana, o mesmo mar tivesse assistido a uma tragédia – uma pequena barca desamparada, sem quilha de sólidos troncos ou arrais de robusta espádua, foi incapaz de suportar o pesado número de leves corpos, exauridos de tão longa viagem. Ainda que, porventura, tivesse mastro o frágil batel, nenhuma bandeira poderia indicar a nacionalidade da sua tripulação: estes náufragos não têm outro país a que chamem pátria, além do mundo.

O historiador francês Jules Michelet, referindo-se à pintura de Géricault, vaticinava que toda a nossa sociedade embarcava na jangada de Medusa. De dia para dia, lamentavelmente, cada vez mais migrantes embarcam na mesma jangada. Aqui não vemos heróis lendários, nem protagonistas da história. Não são gregos nem romanos, turcos ou franceses, pois em qualquer período histórico se desenrola esta terrível catástrofe. Esses homens, essas mulheres, essas crianças fogem da guerra, aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. Arriscaram lançar-se aos golpes desferidos pelas ondas, no mar tanta tormenta e tanto dano, fugindo ao afogamento nas correntes dos conflitos bélicos, na terra tanta guerra, tanto engano. Aqueles que, por sorte ou desventura, conseguiram salvar-se deste naufrágio triste e miserando, nem no termo do caminho do exílio encontraram lugar para reclinar a cabeça. Onde pode acolher-se um fraco humano, é uma pergunta que permanece sem resposta.