Ainda são muitos os países que apelidam de crise de aprendizagem o período que estamos a atravessar na educação, em que milhões de crianças e jovens não dominam as competências básicas de leitura e matemática, essenciais para alcançarem profissões mais qualificadas. Embora existam metas globais ambiciosas, como o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4 – Educação de Qualidade) das Nações Unidas, que defende educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todos, sabemos que o que temos hoje, por si só, não está a resultar – e muito dificilmente permitirá atingir estes objetivos até 2030.

Uma proposta que precisa ganhar terreno é a de que o sistema educativo abrace o que a ciência já sabe sobre como aprendemos. A ciência da aprendizagem – que combina conhecimentos da psicologia, das neurociências e da educação – tem vindo a oferecer evidências sobre práticas que podem apoiar a aprendizagem dos alunos. Já há alguns anos que surgem várias iniciativas de discussão em fóruns de especialidade transdisciplinares, como a Aliança Global pela Ciência da Aprendizagem (promovida pela UNESCO), que reúnem investigadores, educadores, decisores e tecnologia educativa para garantir que este conhecimento não fique apenas em artigos científicos, mas se traduza em mudanças reais nos currículos e nas salas de aula. Outro aspeto essencial para que a ciência da aprendizagem, que se alimenta de várias ciências, chegue às salas de aula é compreender que não se trata simplesmente de aplicar resultados pontuais de pesquisas, mas de explicar por que certos comportamentos ou estratégias estão associados a melhores resultados de aprendizagem, podendo orientar a prática diária.

Porém, o grande desafio não é apenas o dos formuladores de políticas, e sim o do trabalho diário dos professores na sala de aula. Ainda hoje, muitas decisões pedagógicas encontram-se fundamentadas em crenças populares sobre “o que funciona”, estando, ainda, na sombra várias evidências robustas. Sabemos, por exemplo, que compreender como a atenção, a memória e a motivação operam – campos estudados pelas ciências cognitivas ainda com escassa visibilidade junto dos professores – pode mudar a forma como estruturamos a prática educativa. Em vez de seguir “modas pedagógicas”, os professores podem beneficiar de um desenvolvimento profissional que os aproxime do pensamento científico sobre a aprendizagem eficaz e o desenvolvimento cognitivo. E será esse conhecimento e essa preparação que poderão, de facto, enriquecer a sala de aula.

Adotar um olhar científico não significa transformar todas as aulas em laboratórios, mas sim integrar princípios que sabemos serem eficazes, como a clareza na explicitação de objetivos, o ensino estruturado progressivo, o reforço espaçado e a prática deliberada — abordagens com base empírica sólida que melhoram a consolidação do conhecimento.

Não esquecer também que a aplicação de práticas passa por avaliar frequentemente, dando feedback que guia a próxima etapa de aprendizagem, por envolver os estudantes em tarefas que exigem pensar profundamente e por ajustar o ensino às necessidades sentidas.

Se quisermos realmente cuidar da educação e cumprir o ODS 4, precisamos de mais factualidade nas nossas escolhas pedagógicas – menos ideias charmosas e bem-intencionadas e mais decisões educativas ancoradas em ciência.