Neste texto falamos de um caminho, trilho calcorreado por um sem-fim de caminhantes, e das dificuldades e oportunidades desse percurso.

Ponto de partida: a pandemia provocada pelo Covid-19 teve repercussões em todas as áreas da atividade social e económica, obrigando os países afetados a encerrarem as escolas. Ponto de chegada: as crianças e jovens que ficaram confinados às suas casas terão de demonstrar que mantiveram a capacidade de aprender e as escolas, por seu turno, terão de dar provas de que mantiveram a sua competência para ensinar.

Entre um ponto e outro, o caminho está eivado de dificuldades, que todos – alunos, famílias e professores – de algum modo sentiram ou testemunharam, mas também de desafios, oportunamente traduzidos em possibilidades. A capacidade de chegarem juntos a este horizonte advém da capacidade das instituições educativas em conviverem com as dificuldades e saberem retirar algumas lições para o futuro. São elas, mais do que as dificuldades, que verdadeiramente ficarão como balanço desta crise.

Vem esta metáfora a propósito do trabalho inovador que o ensino particular e cooperativo (EPC) tem desenvolvido ao longo dos tempos. Não apenas durante o encerramento das escolas e da necessária conversão da dinâmica de ensino e aprendizagem, nem apenas por causa disso. A existência de projetos pedagógicos claros, pensados em concreto para os alunos e livremente escolhidos pelas famílias, a liderança das escolas e a estabilidade do corpo docente há muito que permitiram posicionar o EPC como um referencial de inovação e de evolução positiva no ensino e na educação.

Há cerca de mês e meio, o país encontrou-se quase de um dia para o outro fechado em casa e forçado a adaptar-se a uma realidade nova. A mudança surgiu mais por necessidade do que por vontade, tornando-se intrusiva e, por vezes, perturbadora. O computador e os programas de videoconferência tomaram conta do nosso quotidiano. Um meio de comunicação poderoso, infelizmente não acessível a todos. Para muitos estudantes, este não tem sido um período fácil. Há famílias sem acesso ao computador, casas sem ligação à internet, ou equipamentos que têm de ser partilhados entre crianças e pais em teletrabalho. Já para não falar na dificuldade em conciliar tantas frentes abertas, sobretudo em famílias numerosas e com crianças pequenas, que precisam de atenção e de muita disponibilidade. Mas, apesar das dificuldades logísticas associadas a este processo, e das incertezas que se antecipam (desde logo, que efeito que vai ter na aprendizagem dos alunos a substituição das aulas presenciais pela formação online e a distância?), não tenho dúvida em afirmar que para a generalidade dos alunos, e de um modo geral para os alunos do EPC, o processo de adaptação a esta realidade do ensino à distância foi mais fácil. Em primeiro lugar, porque sendo este um tempo novo, nem tudo foi uma completa novidade.

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Cabe assinalar a este respeito que na educação presencial já se utilizam as tecnologias de comunicação como meio para individualizar a formação dos alunos e procurar corresponder às necessidades de cada um. Um dos resultados que nas atuais circunstâncias se poderia potenciar. Temos de aproveitar as vantagens da formação online como a possibilidade de personalizar a formação e reforçar os pontos mais frágeis de cada aluno.

A inovação a que me referia no início do texto permitiu, por exemplo, que muitas escolas incorporassem já muita tecnologia na sala-de-aula, que os alunos utilizassem computadores e o acesso à internet para muitas das suas tarefas, na escola e em casa. O que este tempo novo que vivemos nos mostrou é que é possível, à distância, ensinar e aprender de forma eficaz. Há muito que melhorar? Claro que há, em inúmeros domínios mas, como afirmam os autores do documento da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), se as atividades formativas online estiverem bem ajustadas, a metodologia e os conteúdos forem adequados e o professor tiver a formação apropriada, os resultados não têm de diferir da educação presencial.

Desde a forma como os professores ensinam e interagem nestas plataformas, até ao modo como os alunos se desenvolvem, ganham competências e conhecimento, há muito mais caminho do que aquele que separa os ecrãs de quem dá as aulas e de quem as recebe.

O avançar da inteligência artificial, da internet das coisas (interconexão digital de objetos quotidianos com a internet) e de novas aplicações que monitorizem as atividades dos alunos (reservando sempre e de forma inegociável os seus dados pessoais), poderá abrir novas fronteiras na educação. Esta pandemia, se algo de bom teve foi o de mostrar como a tecnologia pode contribuir para esta nobre missão de educar. Contudo, e há que sublinhar este aspeto, a inovação e a tecnologia, por si só, não substituem o papel humano das escolas, a sua função de proporem um local partilhado de aprendizagem em contexto presencial e participativo, no qual as relações interpessoais desempenham um insubstituível papel de socialização e de formação dos indivíduos. A escola não se resume a professores a ensinarem e a alunos a aprenderem. A escola é vida e ganha vida com as vidas das suas crianças e jovens. O gradual regresso à normalidade vai permitir compreender essa realidade de forma mais plena e, como comunidade, iremos valorizar devidamente as escolas por este papel único. Devemos continuar a inovar, em integral fidelidade aos nossos projetos educativos. Não devemos ter medo de investir em soluções e aplicações tecnológicas inovadoras que permitam melhorar a performance educativa fora da sala-de-aula, bem como potenciar a criatividade dos alunos.

Nesta conjuntura, e graças ao uso das tecnologias, é possível oferecer aos alunos com dificuldades na aprendizagem um reforço pessoal e individualizado mais direcionado.

Também aqui, o EPC está a ir à frente e a apontar o caminho. Há, contudo, um aspeto da maior importância: neste processo de transição tecnológica, nenhum aluno pode ficar para trás. Seja através de um “vale tecnológico”, como propõe o presidente do CDS, seja através de um sistema de dedução plena da aquisição de equipamento informático em sede de IRS, a verdade é que, como país, temos de apostar na tecnologia e na inovação para todos, como fatores da maior importância para o futuro da educação. E não por uma questão de necessidade, como agora sucedeu com o confinamento. É mesmo por uma questão de vontade, porque o mundo vai voltar a acelerar e a educação deve acelerar com o mundo, não contra ele. Mais inovação, mais tecnologia, mas também mais humanidade.

Numa palavra, mais e melhor escola, porque é aí, mais do que em qualquer outro local na escola física e na continuação da escola em casa que estas duas dimensões têm potencial para coexistir e gerar excelentes resultados.

Concluindo, subscrevemos as palavras do professor Antonio Cabrales: “Professores de todo o mundo ensinam online. Não importa como, mas ensinam. Estudantes, frequentem essas aulas.”

Vice-presidente da Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP)

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.