Não é pequeno o espanto que o filósofo experimenta ao contemplar o estado presente da humanidade. Outrora, pensava-se que a morte era a mais universal das certezas. Hoje, constato que há uma exceção: o ridículo. Ele não morre, não adoece, não se arrepende: apenas se reproduz. Se nos fosse permitido propor uma nova lei da natureza, ela seria esta: todo o ser racional tende ao ridículo com a mesma constância com que a matéria tende à inércia. O fenómeno é universal, observável em todas as latitudes, classes e sistemas de crenças. Há quem nasça com génio, outros com virtude. Mas ninguém escapa a um quinhão de tolice. A diferença é apenas de intensidade e de ocasião.
Acontece, porém, que nos tempos modernos o ridículo deixou de ser acidente moral para tornar-se princípio constitutivo da vida pública. O homem contemporâneo não teme parecer tolo: teme apenas parecer invisível. E assim, aquilo que antes se escondia com pudor, agora se exibe com zelo missionário. O que era lapso tornou-se estilo, o que era erro tornou-se opinião, o que era ignorância tornou-se autenticidade.
Ser ridículo, hoje, é participar da liberdade. Que triunfo da razão prática! A humanidade, enfim emancipada de toda a vergonha, reclama o direito inalienável de se humilhar. Nada há de mais democrático: todos podemos ser objeto de riso e muitos, com mérito, de espanto.
Perguntar-nos-ão: por que o ridículo não mata? A resposta é simples e terrível. Porque o ridículo é moralmente inofensivo para quem o comete. Ele ofende apenas a inteligência alheia, que é sempre minoria. O indivíduo ridículo, longe de sofrer, floresce: é confirmado pelos aplausos dos seus semelhantes, que nele reconhecem um reflexo amável da sua própria mediocridade. É o imperativo categórico da tolice: age de tal modo que o teu disparate possa ser universalizado sem constrangimento.
Em rigor, o ridículo é o triunfo da aparência sobre o juízo. A razão, essa débil faculdade, ainda murmura prudência. Mas o ego responde com eloquência e filtro fotográfico. A moderação tornou-se imoral, o silêncio tornou-se suspeito. E o homem que não se exibe é julgado culpado de soberba. Que admirável progresso! A natureza moral converteu-se num espetáculo e a virtude num tipo de iluminação de palco.
Se o ridículo fosse mortal, talvez se restabelecesse a proporção das coisas: o sábio sobreviveria, o insensato não teria tempo de o saber. Mas como a natureza, na sua ironia divina, fez o ridículo indolor, o mundo prospera em disparates. Sobrevive-se a tudo, exceto à lucidez. Afinal, talvez o riso seja a única prova empírica de que ainda possuímos alma. Mas tememos que, ao ritmo atual, até o riso venha a ser automatizado e o homem, livre do embaraço, se torne finalmente perfeito na sua estupidez.
Não sei se o ridículo nos mata, mas é certo que já nos substituiu.