Enfrentamos atualmente uma transformação sistémica global: a guerra na Ucrânia como catalisador de multipolaridade, a presidência Trump a exigir um “burden-sharing” rigoroso e a rivalidade EUA-China a redefinir a superioridade tecnológica.
Em 2026, a Europa não pode ser um mero pagador de contas transatlânticas — deve emergir como pilar industrial e inovador da Aliança.
Debatemos a resiliência democrática e a autonomia estratégica, ligando o apoio a Kiev à nossa própria capacidade de dissuasão.
Capacidade Industrial de Defesa Europeia
A defesa europeia permanece “fragmentada e lenta”: Segundo a Agência de Defesa Europeia o investimento da UE em I&D de defesa é cerca de 10 vezes inferior ao dos EUA, com cadeias de fornecimento dispersas e produção insuficiente de munições. A UE reage com o European Defence IndustryProgramme (EDIP) (1,5 mil milhões de € até 2027 para projetos comuns) e um plano para reconverter 600 mil trabalhadores da indústria da área civil para uma área crescente de duplo-uso (civil e militar) em capacidades críticas como drones e sistemas antimísseis. Portugal contribui ativamente: 300 empresas no ecossistema aeroespacial-defesa, 30 mil empregos diretos, participação em 17 projetos de Cooperação Estruturada Permanente e 220 milhões de € em ajuda militar à Ucrânia até 2024. Aqui, faço um apontamento pessoal de apoio a uma empresa do meu concelho – Caldas da Rainha – a Tekever, empresa unicórnio que é hoje líder mundial de sistemas aéreos não tripulados, e da qual muito me orgulho.
Urge acelerar aquisições conjuntas (meta UE: 40% até 2030), priorizando lacunas nacionais em ciberdefesa e aeroespacial para alinhar com standards NATO.
Futuro da Ucrânia na NATO
Kiev não espera milagres institucionais: investiu em IA para drones (200 empresas e 70 sistemas autónomos ativos), reduzindo a dependência chinesa e transformando o conflito em guerra “algorítmica” — onde algoritmos escolhem alvos em tempo real. A adesão plena permanece condicionada por Washington e Berlim, mas Kiev sinaliza flexibilidade: pronta a priorizar “garantias de segurança ampla” sobre um membership imediato.
A integração industrial UE-Ucrânia via EDIP é estratégica: transfere know-how ucraniano em low-cost tech para Europa, enquanto reforça a frente oriental. Portugal, com portos e indústria naval, pode liderar parcerias concretas.
Fosso de Inovação Tecnológica
A Europa perde terreno em IA, computação quântica e semicondutores, onde EUA e China monopolizam 80% dos investimentos disruptivos, deixando-nos reféns em hipersónica e swarms. Soluções passam por 10% dos orçamentos de defesa para tech de duplo uso, “fundo de fundos” (1 B€ inicial) e pontes startups-PMO. Na NATO, parcerias transatlânticas como a da EO Solutions — garantem interoperabilidade, mas exigem escala europeia para não ficarmos para trás.
Conclusão
Na transformação sistémica, a NATO precisa de uma Europa industrialmente soberana, pró-Ucrânia e tecnologicamente competitiva — ou arriscamos irrelevância face a Pequim e Moscovo.