A recente reunião entre Donald Trump, Volodymyr Zelensky e os líderes europeus não foi apenas mais um encontro diplomático de alto nível. Foi, acima de tudo, um espelho da dependência estrutural que a Europa mantém em relação aos Estados Unidos, especialmente no domínio da defesa.

Enquanto se discutia o futuro da Ucrânia e a estabilidade da ordem internacional, nos bastidores desenhava-se uma realidade menos visível, mas profundamente inquietante, a crescente pressão sobre os países da União Europeia, para canalizarem milhares de milhões de euros, para a indústria de defesa norte-americana.

É um retrato inquietante da Europa, pois está presente, mas não é protagonista, é estratégica, mas não é soberana, onde se viu obrigada a participar para não desaparecer. Onde saiu obrigada a comprar para agradar.

Uma aliança assimétrica

Sob o pretexto da solidariedade transatlântica e da necessidade de reforçar a NATO, os Estados Unidos têm vindo a exigir aos seus aliados europeus que aumentem substancialmente os seus orçamentos militares. Mas, o que parece ser um apelo à responsabilidade colectiva, esconde uma lógica comercial agressiva, pois grande parte desses investimentos, no actual contexto, irão acabar por beneficiar directamente a indústria de defesa americana.

A Europa, com capacidade industrial própria e centros de excelência em tecnologia de defesa, vê-se assim condicionada a comprar sistemas, armamento e serviços aos EUA, muitas vezes em detrimento das suas próprias empresas. Esta dependência não é apenas económica, é também estratégica. E compromete a autonomia que o continente tanto proclama querer alcançar.

Os números são impressionantes. Desde 2022, os países europeus aumentaram os seus gastos militares, com uma fatia significativa destinada à aquisição de equipamento norte-americano. Tanques de guerra, aviões de combate, sistemas de mísseis, tudo isto com selo “made in USA”, e tudo isto pago com fundos públicos europeus, muitas vezes desviados de áreas sociais e de infraestruturas urgentes. Este modelo de dependência levanta uma questão fundamental, estará a Europa a reforçar a sua segurança ou a financiar a hegemonia industrial americana?

O potencial europeu, adiado

A Europa possui capacidades técnicas, talentos e recursos para desenvolver uma indústria de defesa robusta e competitiva. França, Alemanha, Suécia, Itália, todos têm empresas capazes de produzir sistemas de ponta. Mas sem uma estratégia comum e sem vontade política para resistir às pressões externas, esse potencial permanece subaproveitado.

A reunião de Agosto de 2025, em Washington, longe de ser um momento de afirmação europeia, revelou uma Europa que continua a agir em função dos interesses dos outros. Uma Europa que paga caro para estar presente, mas que raramente dita os termos do jogo.

Conclusão: autonomia ou submissão?

A Europa e a NATO, precisam dos EUA. Mas não pode, por motivos estratégicos ficar dependente dos humores e devaneios de quem tem como primeira motivação o desenvolvimento da sua economia interna.

A Europa e a Nato terão de saber refrear a ganância americana.

Se por um lado, por exemplo torna-se relevante, a aquisição aos EUA, dos novos caças de 5ª geração, os F-35 por tudo o que são capazes de fazer, por outro torna-se imperativo à Europa, não só continuar a desenvolver tecnologias de combate, mas também incrementar a produção de armamento e de munições, para que se consiga equilibrar, uma política de aquisições com uma estratégia de desenvolvimento de uma indústria de defesa, que não parte na “pole-position”.

Teremos ainda, de copiar os americanos na promoção da atractividade das forças armadas, potenciando o duplo uso das mesmas, não só no campo da protecção civil, mas sobretudo no do desenvolvimento estratégico e científico.

Se a Europa deseja verdadeiramente afirmar-se como potência, terá de começar por libertar-se das amarras que a mantêm dependente militarmente. Isso exige coragem, visão estratégica e, acima de tudo, vontade de investir em si própria.

Porque uma Europa que não controla a sua defesa, não controla o seu destino.