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Muitos portugueses – não todos, lembremo-nos! – estão a gozar férias ou vão iniciá-las ainda. É um período em que há uma maior possibilidade de nos tornarmos algo soberanos do nosso tempo – embora soberanos não-absolutos, pois, para aqueles que têm dependentes a seu cargo, há responsabilidades que não contemplam férias e para a maioria dos outros haverá limitações orçamentais que os impedem de saírem dos seus habitats diários. Para além do simples descanso, laser ou dolce far niente, podemos usufruir de mais convívios descontraídos; degustar de refeições mais prolongadas; ter maior abertura para sedimentar conversas sérias ou simplesmente banais e divertidas; rever parentes ou amigos de sempre; visitar pessoas doentes; ir a banhos; passear e praticar desportos.

A possível libertação de algum do stress profissional, ajuda a que voltemos o nosso foco de atenção também para áreas da vida tão esquecidas na azáfama do quotidiano, como a introspecção, a meditação sobre o rumo da vida pessoal, o seu sentido último, erros a corrigir ou objectivos a manter. Para quem gosta de ler, a oferta é obviamente imensíssima. E, como que embebendo todas estas possibilidades de fruição, para quem cultive a chamada virtude da religião, ou seja, «a justiça para com Deus» (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1807), terá certamente uma disponibilidade interior e exterior mais favorável a uma oração pessoal ou litúrgica mais gozosa e participativa ou, pelo menos, produtiva.

Neste ponto, venho então sugerir que nestas férias se junte o útil ao agradável ou seja, venho propor uma excelente leitura (in)formativa que, pelo vasto tema tratado, proporciona simultaneamente belíssimos tempos e temas de oração e meditação. Refiro-me a um livro/tratado de teologia dogmática católica, intitulado Truth Is A Synthesis (A Verdade É Uma Síntese), uma tradução em inglês (publicada em finais de 2020) do original italiano, da autoria de Mauro Gagliardi. O autor, deste e muitos outros livros, é um padre católico italiano, teólogo e professor universitário em Itália, que também ensinou em Espanha e nos Estados Unidos, além de ser Consultor em vários departamentos da Cúria Romana. Aliás, o Cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito Emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi quem apresentou a obra original em Itália, em finais de 2017, com um notável texto que aparece no livro como Introdução (pp. 1-11); o que constitui, só por si, garantia segura de qualidade. Uma encomenda através da Internet traz-nos o livro a casa em poucos dias.

Deixem-me explicar melhor: foi ao ler no Observador o último dos excelentes artigos da Prof.ª Patrícia Fernandes sobre a nova ideologia do movimento Woke (de 26 de Junho e 9 de Julho passados) que me ocorreu fazer aqui esta atrevida proposta de leitura. Diz a autora sobre o conteúdo nuclear das correntes filosóficas onde bebe a referida ideologia: «Elas assentam numa atitude de suspeita generalizada face ao conceito de verdade, [ao] conhecimento objetivo, [à] ciência, [à] razão, [ao] progresso, [e ao] pluralismo». E, mais à frente no mesmo artigo afirma: «A desconfiança pós-moderna face à verdade objectiva e ao conhecimento científico resulta do seu entendimento da linguagem: para estes autores, a função da linguagem não é representar o mundo; ela é constitutiva do próprio mundo e da realidade (nas versões mais ligeiras, as palavras condicionam o modo como vemos o mundo; nas versões mais radicais, o mundo é uma construção linguística). E se a linguagem é constitutiva de sentido e compreensão, tal significa que não há um conhecimento final e único sobre a realidade; a realidade depende antes da linguagem que usamos. Tal significa também que quem controla a linguagem controla as dinâmicas de poder» (art. de 9 de Julho). Já no seu primeiro artigo (de 26 de Junho) sobre este movimento Woke, começava a autora por reconhecer que «felizmente, o mundo dos livros continua a ser útil para que possamos compreender o mundo e fazer a travessia entre o fumo das novas palavras, conceitos e ideias que marcam a discussão política atual». Marcam a discussão política sim, mas não só: aquele mesmo fumo ou fumaça – que traz à memória uma célebre declaração de Paulo VI, a 29 de Junho de 1972 – também marca o debate cultural e filosófico, assim como a própria teologia actual e algumas das suas escolas; e até certos membros da hierarquia da Igreja, com os seus «novos paradigmas».

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Curioso é que já há muito, muito tempo também no Novo Testamento, os evangelhos e o livro do Apocalipse nos falam de estar whoke, ou seja, acordados, despertos, vigilantes, num estado activo de alerta. Aliás, é o próprio Jesus a exortar à vigilância em discurso directo, mas não relativamente aos temas fracturantes para cuja militância apela o movimento Woke: «Vigiai, portanto, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor» (Mt 24, 42); «Atenção, e vigiai, pois não sabeis quando será o momento. […] Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o senhor da casa voltará: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, ou de manhã, para que vindo de repente, não vos encontre dormindo. E o que vos digo, digo a todos: vigiai!» (Mc 13, 33. 35-37). «Felizes os servos que o Senhor, à sua chegada, encontrar vigilantes» (Lc 12, 37). E no último livro da Bíblia, ainda é dito à Igreja de Sardes: «Torna-te vigilante e consolida o resto [da Igreja] que estava para morrer, pois não achei perfeita a tua conduta diante do meu Deus. Lembra-te, portanto, de como recebeste e ouviste, observa-o e converte-te! Caso não vigies, virei como um ladrão, sem que saibas em que hora venho surpreender-te» (Ap 3, 2-3).

Ora, neste contexto global, filosófico e cultural, tão confuso e desestruturante da sociedade, onde tantos como que dormem perante ameaças letais para a civilização, propor um livro para férias que nos fala da Verdade em Pessoa, isto é, d’Aquele que a fé católica crê ser a Palavra, a Razão (o Logos), reveladora de Deus e do verdadeiro ser do Homem à humanidade, parece-me muito oportuno. O livro trata de modo desenvolvido e actualizado (incluindo já referências do Magistério do Papa Francisco) das verdades fundamentais da fé católica. Para quem queira conhecer, com certa exigência de profundidade, a doutrina acreditada pela Igreja, exposta também de um ponto de vista histórico da própria formulação das verdades, afigura-se-me como uma obra notabilíssima. Naturalmente que também pode (e deverá) interessar a estudiosos envolvidos na formação teológica ou simplesmente catequética, sejam eles docentes ou discentes, simplesmente leigos ou religiosos, clérigos ou seminaristas.

A exposição está muito bem organizada e sistematizada. Basta ver a extensão dos quatro Índices no final: Bíblico, do Antigo e Novo Testamentos; de Nomes de todos os Autores referidos no livro; dos Documentos do Magistério, desde Papas dos primórdios da Igreja até Francisco, Concílios, Catecismos, Códigos e organismos da Cúria romana; e o Índice Geral. A escrita é intelectualmente muito clara e está num inglês acessível a um anglófono mediano; e a leitura, sendo naturalmente especializada e técnica, é muito agradável e iluminante pelo modo surpreendentemente novo de dizer coisas de sempre. O livro, é, efectivamente, na apreciação que dele faz o Cardeal Müller na Introdução, «de todos os modos um magnum opus, quer do ponto de vista qualitativo quer quantitativo» (p. 2). De facto, não é para ser lido de seguida. Longe disso: o corpo do texto principal, compreende nada menos que 941 páginas (!), desde a Introdução ao Epílogo (constituído este, exclusivamente por um notável excerto da Apologia pro Vita Sua, de São John Henry Newman). É obviamente um livro de consulta e estudo, que aqui atrevidamente alvitro para que nas férias, ao menos, se possa dar início a uma relação com ele. Ao longo das suas páginas, «o leitor é acompanhado na exploração do inesgotável legado acumulado ao longo dos 3.500 anos da Revelação bíblica e da evolução do pensamento, iniciado com a antiga filosofia».

São doze, tal como as antigas tribos de Israel e os Apóstolos, os capítulos em que se dividem as matérias tratadas. Por não ser possível alongar-me muito mais, permito-me destacar apenas quatro dos muitos temas abordados no tratado que me pareceram particularmente interessantes e dos quais me tornei mais consciente:

1 Em primeiro lugar, relativamente à justificação do título, A Verdade É Uma Síntese. A que síntese se refere o autor? Ele parte de um princípio, que é uma constante ao longo de toda a exposição, designado de sintético, o qual, conforme explica na nota 19 (do capítulo 1), quando é «usado num sentido técnico, comum aos escritos filosóficos e teológicos, remete para o resultado de uma síntese que comporta conjuntamente mais do que uma verdade ou aspectos da verdade». Ou seja, a síntese é «a união de aspectos que, entre eles, têm uma objectiva ordem hierárquica; uma união, não unificada extrinsecamente, mas uma que consta da [própria] realidade e é dela aprendida» (p. 22). Assim, nesta síntese, «há certos elementos que são mais importantes que outros; apesar disso, ambos são necessários» (itálico no original). Ele afirma que «a Tradição do pensamento católico traduziu esta visão com as duas conjugações do Latim et-et (ambas/e) […]». Este princípio do et-et, torna assim mais completa a expressão da verdade afirmada, mas também aquilo em que consiste propriamente uma heresia (do grego airesis, escolha): segundo o nosso autor acontece quando se escolhe um dos aspectos da síntese, exaltando-o ao ponto de negar o outro aspecto que a compõe. É muito interessante verificar que das muitas sínteses verificáveis nas verdades ou dogmas da fé cristã, abundantemente referidas ao longo do tratado, a suprema é naturalmente a realidade do próprio Cristo, Deus e Homem, o qual é «a causa e modelo de cada uma das outras composições sintéticas da fé». Por exemplo, aqui, qualquer exaltação de uma das duas naturezas de Cristo com negação da outra, constituiria uma heresia. Quanto às potencialidades do que se designa por teologia sintética sobressai a capacidade de observar a «conexão entre diferentes aspectos que aparentemente se contradizem um ao outro, mas, de facto, formam conjuntamente, a realidade das coisas e, portanto, a verdade das coisas tal qual são e tal qual são conhecidas por nós» (cf. pp. 22-23). Complementarmente, o autor não deixa de referir que um dos problemas da fé, da pregação e da teologia do nosso tempo – e, aliás, dos demais saberes – é justamente a «fragmentação do conhecimento», com a consequente falta da visão unificada da realidade estudada.

2 No capítulo 1, a secção 3, é muito interessante pois toda ela é dedicada a expor concisamente o que diferencia os Ortodoxos e os Protestantes e aquilo que os afasta, em termos conciliares, dogmáticos, sacramentais e de disciplina eclesiástica, da plena comunhão com a Igreja Católica. Concluem esta secção, umas breves considerações sobre o ecumenismo, onde o autor afirma o seguinte: «o Concílio [Vaticano II] diz-nos que o modo de expressar a fé Católica não deve constituir um obstáculo ao diálogo ecuménico. Hoje, muitos entendem esta afirmação no sentido em que haveria necessidade de truncar da profissão de fé ou, pelo menos, relativizar a sua importância, todas aquelas doutrinas que não podem ser harmonizadas (harmonized) com o pensamento de outros cristãos. Mas o Concílio afirma o oposto!» Ainda que obviamente os respeite e ame, e consciente de que esta afirmação pode soar escandalosa a alguns, reconhece corajosamente o autor que «os nossos irmãos e irmãs de outras confissões de fé que são baptizados e acreditam em Cristo […] erram relativamente a vários pontos». Mas logo acrescenta que «é absolutamente necessário, de acordo com aquela parrhesia a que nos chama frequentemente o Papa Francisco, que lhes comuniquemos claramente aquilo em que acreditamos e possamos assim juntamente com eles, encarar as diferenças entre nós, não para erigir muros, mas construir pontes. Contudo, nenhuma ponte é construída se as margens do rio não estiverem claramente marcadas» (pp. 82-83).

3 O capítulo 4 trata de Cristo, sob o título The Redeemer (O Redentor). A secção em que o autor disserta sobre a humanidade de Jesus enquanto instrumento da Divindade (1.2.3.) e aquela outra em que descreve a existência em Jesus de uma só Pessoa na qual coexistem duas naturezas (1.3.7.), é de uma rara clareza e limpidez. Repare-se só nesta afirmação: «Uma vez que a humanidade de Cristo é um instrumento da sua divindade, e a Pessoa que “sustenta” (sustains) ambas as naturezas é uma só, as acções que Cristo leva a cabo enquanto homem têm a Palavra divina como seu Sujeito. Por outras palavras, se perguntarmos por aquilo que está a actuar quando Jesus ensina, come, dorme, é maltratado por perseguidores e por aí fora, respondemos: a Sua natureza humana» (itálicos no original). Neste ponto, esclarece o autor em nota, remetendo para São Tomás de Aquino, que «todas estas coisas “não teriam sido verdadeiras” se Cristo não tivesse assumido um verdadeiro corpo humano, e, portanto, uma verdadeira humanidade (v. ST III, q. 5, a.2)». E prossegue de imediato, afirmando: «A natureza divina, eminentemente espiritual (Deus é espírito) não leva a cabo estas acções ou sofre a Paixão. Mas, se perguntarmos Quem executa ou sofre estas coisas, então dizemos que é a Palavra divina» (p. 268). De enorme importância para considerar o motivo da universalidade salvífica de Cristo, é a verdade sintetizada nesta frase: «Jesus não é um homem como outro qualquer, mas antes Deus feito homem» (p. 269). Esta mesma noção é ainda corroborada mais à frente, nesta notável passagem fundamentada, mais uma vez, em São Tomás (cf. Quaestio disputata de unione Verbi incarnati, art. 2): «A doutrina da Igreja relativa a Cristo e à sua constituição ontológica, vê n’Ele o único caso de um verdadeiro ser humano, ou um indivíduo com uma natureza humana como a nossa, que, contudo, não é uma pessoa humana, porque no caso único e irrepetível deste homem, o carácter pessoal […] é provido pela Pessoa divina da Palavra [a segunda Pessoa da S. Trindade]. No contexto teológico presente é necessário repeti-lo: Jesus é um homem verdadeiro, mas Ele não é uma pessoa humana. Seja como for, Jesus é uma Pessoa: Ele é a Palavra incarnada» (p. 280). Termino simplesmente com uma brevíssima referência ao quarto aspecto a destacar:

4 O capítulo 6, The Trinity (A Trindade) percorre sistematicamente tudo o que lhe diz respeito a começar, naturalmente, com uma minuciosa análise tanto do Antigo como do Novo Testamento. É admirável a história milenar das várias perspectivas que foi tomando a abordagem teológica do augustíssimo mistério da Santíssima Trindade. É-nos dado percorrer a empolgante descoberta de novos termos e noções filosóficas, cada vez mais adequados ao apuramento da formulação dogmática dessa verdade absolutamente central do cristianismo; e que começou logo no século I, através do pensamento dos grandes pensadores cristãos, tanto do Oriente como do Ocidente. O capítulo termina com uma revisão dos mais importantes pronunciamentos do Magistério da Igreja sobre o tema, desde os antiquíssimos Símbolos da fé ou Credos até às declarações papais.

Concluo, lembrando a todos os que reivindicam a condição de cristãos que nesta nova, confusa e agitada época em que nos adentramos, temos que nos munir cada vez mais das razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3, 15), de modo a que nos mantenhamos verdadeiramente woke. Esta obra é para este efeito um dom muito oportuno e precioso!