O Papa Francisco morreu na madrugada da segunda-feira da oitava da Páscoa, menos de 24 horas depois de, pela derradeira vez, nos agraciar com a sua bênção Urbi et Orbi, à Cidade e ao Mundo. Ainda convalescente de uma gravíssima situação bronco-pulmonar que o ia levando deste mundo, foi a última vez que pudemos ouvi-lo de viva voz a augurar-nos uma boa Páscoa. Após alguns dias de velório público dos seus restos mortais, venerados por dezenas ou centenas de milhar de pessoas de todo o globo, e das solenes exéquias perante o poder do mundo, foi sepultado no sábado, véspera do Domingo da Pascoela. O seu pontificado durou precisamente 12 anos, 1 mês e 9 dias, bastante mais do que os poucos anos que o próprio estimou ao início.

Assim que acordei, pelo cedo, na referida segunda-feira, e depois de ligado o telemóvel que noticiava a súbita morte do Papa, fui tomado imediatamente por um sentimento de sincera comoção que instantaneamente e ainda estremunhado me levou a rezar uma breve oração pela sua alma. Dentro do costume português e enquanto católico associo-me assim na apresentação dos “meus sentimentos”: que Deus o tenha na Sua misericórdia, aliás tão pregada por ele próprio; o mantenha na Sua paz e finalmente no esplendor da Sua Luz perpétua! Mas quero confessar que ao mesmo tempo a comoção também carregou à boleia como que um sentimento de alívio (passe a expressão) do embaraçante desconforto intelectual e também psicológico que este pontificado foi provocando em mim à medida que se desenrolavam os anos.

Já muito se tem dito e comentado sobre o pontificado do Papa Bergoglio. A larga maioria dos testemunhos, orais ou escritos, são naturalmente laudatórios de tudo quanto constituiu uma genuína manifestação do “doce Cristo na Terra”, para usar a conhecida expressão de Santa Catarina de Siena. De facto, já muito se disse e escreveu publicamente sobre a pessoa e o pontificado de Francisco, reflectindo perspectivas contraditórias, mais ou menos apaixonadas ou objectivas, laudatórias ou críticas, de diversas pessoas que se identificam ora como católicas ora agnósticas ou até mesmo ateias, seja com autoridade ou sem ela. Realmente, é impossível negar que, com a morte de Francisco, findou um dos pontificados dos últimos séculos da história da Igreja que certamente ficará entre os que mais controvérsia gerou.

Como se pode constatar por algumas crónicas minhas publicadas há mais de dois anos aqui no Observador, a minha formação doutrinária e convicção católica confirmou-se e ficou a dever muitíssimo aos 35 anos do magistério de João Paulo II (Papa 27 anos) e Bento XVI (Papa 8 anos). Para quem, como eu, foi acompanhando com atenção e o devido respeito e de modo intelectualmente sério o pontificado de Francisco, também verificará que suscitou em muitos sectores uma grande perplexidade. Não faltam livros, artigos, ensaios e declarações públicas de clérigos ou leigos de vários quadrantes e sensibilidades teológicas que demonstram o quanto Francisco foi disruptivo relativamente aos seus dois predecessores. Não é difícil fazer já um elenco de factos que manifestamente contrastam com a forma mentis pastoral de João Paulo II e Bento XVI; palavras, gestos e decisões essas de Francisco e/ou dos seus colaboradores de confiança que deram substância à famosa e incontestável “mudança de paradigma” eclesial. Uma vez respeitado e feito o luto pelo tempo, e a reserva dos arquivos levantada, a História falará um dia por sua vez.

O meu desconforto (e de tantos outros, leigos ou clérigos), no fundo resumia-se a isto: como manter-me fiel e em plena comunhão com o Papa cujo nome ouvia em cada Missa e ao mesmo tempo, em consciência que sempre procurei ser rectamente formada, não concordar (assentir) plenamente com algumas afirmações, escritos e atitudes de Francisco ou dos seus colaboradores, que foram objectivamente geradoras de divisão e ambiguidade, até mesmo entre o episcopado? Ao longo dos 35 anos dos dois pontificados anteriores eu nunca tinha sentido qualquer sentimento involuntário de ambiguidade relativamente à comunhão com o magistério do Papa; não me recordo de alguma vez me ter sentido confuso ao ler o que ensinaram. Como era possível o que se estava a passar? Um dos truques disponíveis foi o de me esforçar por olhar sempre com boa vontade para tudo o que Papa Francisco fazia. Mas não raro a “mudança de paradigma” tornava a manifestar-se e até chegou a aparecer um apelo à “revolução cultural”… e lá voltava a perplexidade.

Simultaneamente, perante tantas e tantas coisas evidentemente bonitas e profundamente evangélicas que Francisco também escreveu, fez ou promoveu (por ex. a Sextas-feiras da Misericórdia ou a Encíclica Dilexit nos, sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus), muitas vezes pedi e ainda peço perdão por qualquer juízo injusto que tivesse feito involuntariamente, embora muitos dos autores eclesiásticos que li tenham eles próprios autoridade nas matérias tratadas. Em suma: foi com esta ambivalência de sentimentos relativamente a Francisco que fui vivendo estes últimos 12 anos da minha vida que já conta 73, mas sem nunca colocar o meu acto ou profissão de fé em causa.

Foi de facto um papa assumidamente revolucionário, sem hesitar usar esta palavra e conceito até em documentos oficiais. Por exemplo, na sua Carta Apostólica em forma de Motu Próprio Ad theologiam promovendam, de 1 de Novembro 2023, em que aprova os novos Estatutos da Pontifícia Academia de Teologia, no nº 4, Francisco afirma que “a reflexão teológica é, por isso, chamada a uma viragem, a um cambio de paradigma e”, citando o nº 114 da sua Encíclica Laudato si, “a uma ‘corajosa revolução cultural’ […]“. Tanto quanto me lembro, são termos inéditos na linguagem teológica e pontifícia. De facto, mostrou ser fundamentalmente um homem da acção, mais interessado com a práxis, e menos com a reafirmação insistente nas verdades doutrinais de sempre. Preferiu antes iniciar serenamente hábeis processos de mudança em diversos âmbitos da Igreja que sabia difíceis de implementar por diferentes ordens de razão. O processo do recente Sínodo da Sinodalidade, projecto culminante do seu pontificado que tem ainda previsto um desfecho com uma inédita “Assembleia Eclesial” em 2028, é o melhor exemplo. Veja-se, por exemplo, a obra de Gerry O’Hanlon, SJ, um antigo Provincial dos jesuítas irlandeses, intitulado The Quiet Revolution of Pope Francis: A Synodal Catholic Church in Ireland, (Messenger Publications, Edição revista, 2019). O Papa Francisco foi mesmo considerado e até louvado por alguns, como um homem disruptivo, tal como demonstrou recentemente Michael W. Higgins, um seu entusiasta biógrafo do Canadá, na densa obra The Jesuit Disruptor — A personal portray of Pope Francis (House of Anansi Press, 2024).

Também no mundo estamos efectivamente atravessando um momento de grande confusão e mais disrupção em novos blocos, num processo de reconfiguração geo-estratégica global; e não faltam avisos das mais altas patentes militares do grande risco de um confronto armado mais alargado ou mesmo mundial. Confusão a que não escapa a Igreja hierárquica, nem os seus fiéis, desorientados na sua fé simples mas autêntica por frequentes afirmações públicas heterodoxas ou mesmo heréticas da mais alta hierarquia — com autorizadas personalidades académicas e outras eclesiásticas a falarem por sua vez mesmo em apostasia e a subscreverem correcções e a escreverem livros de ajuda da manutenção da fé.

Mas enfim, mais do que focar-se no passado, seja denunciando as controvérsias seja louvando os factos indiscutivelmente bons — pois, graças a Deus e conforme era de esperar, aconteceram também muitas coisas boas e meritórias — importa agora sobretudo cuidar do futuro imediato, ou seja, do Conclave, em relação ao qual nós os vulgares católicos, só podemos fazer uma coisa: rezar! Para que cada um dos Cardeias Eleitores ajuíze em consciência qual deles servirá melhor a Igreja e a sua missão na cátedra de Pedro, nesta fase tão turbulenta do mundo e da sua própria história.

Em sentido próprio os Papas não se sucedem uns aos outros: cronologicamente sim, mas não institucionalmente. Há em cada um deles como que uma presença de Pedro, pois cada um deles é de per si sucessor de Pedro. Por isso, é muito redutor falar em suceder a Francisco. Assim, nesta expectativa de quem será ou deve ser o próximo Pontífice Romano a grande e maior preocupação, a meu ver, não deve ser se ele seguirá ou não a mesma orientação do pontificado de Francisco, mas sim se reúne as condições pessoais e as virtudes necessárias para cumprir o que Cristo instituiu em Pedro e mandou a Pedro.

Atendendo ao bem maior procurado pela Igreja, que é a salvação eterna de todos, também podemos, nós os leigos, perguntar: mas que Papa, interessa agora mais à Igreja? Não, não me refiro aos papabile escrutinados e propagandeados pelos meios de comunicação social. Na iminência do Conclave para a eleição do 267º sucessor de Pedro, é mais relevante ter presente o que é ser bispo titular da Santa Sé de Roma, diocese onde Pedro deu o supremo testemunho da fé ao ser martirizado pelo ano 64. Para saber quais são os deveres e atribuições do Papa o melhor é relermos os excertos dos evangelhos a respeito.

São estas as passagens relacionadas com a instituição do primado de Pedro na Igreja fundada por Cristo sobre os Doze apóstolos. Antes do mais as palavras da instituição propriamente dita (Mt 16, 13-19): Chegando Jesus ao território de Cesareia de Filipe, perguntou aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Disseram: “Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas”. Então perguntou-lhes: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Jesus respondeu-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne ou o sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”.

E estas outras também explicitamente dirigidas a Simão Pedro (Lc 22, 31-32): Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos.

E finalmente, já depois da ressurreição, numa aparição a alguns discípulos junto do mar de Tiberíades vemos Cristo a pronunciar o triplo mandato dirigido a Pedro (Jo 21, 15-17): Depois de comerem, Jesus disse a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?” Ele respondeu-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta os meus cordeiros”. Uma segunda vez lhe disse: “Simão, filho de João, tu amas-me?” — “Sim, Senhor”, disse ele, “tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez disse-lhe: “Simão, filho de João, tu amas-me?” Entristeceu- se Pedro porque pela terceira vez lhe perguntara “Tu amas-me?” e disse-lhe: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. Rematando com um “Segue-me” (v. 19).

Em suma, ser bispo titular da Santa Sé de Roma, sucessor de Pedro é: ser no mundo o fundamento perpétuo e visível da unidade sobre o qual é edificada a Igreja e nela ter, por si mesmo mas também em união com os outros bispos, a autoridade plena para deliberar em matérias da doutrina de fé, da moral e da disciplina, na certeza de que são ratificadas por Deus (quando proclamadas em circunstâncias especiais); confirmar os irmãos na perene verdade da fé católica e apostólica; ser o pastor das ovelhas (que são de Cristo, não suas). Ou seja, ser a imagem viva do único Bom Pastor (cf. Jo 10, 11) de quem o próprio Pedro disse “que passou fazendo o bem e curando a todos […]” (cf. At 10, 38).

Dito ainda de outro modo: edificar fazendo a Igreja na Liturgia, prestando a devida glória a Deus e santificando-nos através dos sacramentos como sumo sacerdote; segurar-nos na verdadeira fé, proclamando-a íntegra e claramente pela palavra, com a força e a coragem de um profeta; governar com justiça para servir e não ser servido, como faz um bom rei.

Aos incautos que viram o maléfico filme “Conclave”, sugiro que não se iludam sobre o que a dita fita faz passar por realidade ao reduzir tudo a um ambiente de pura intriga e guerra pelo poder: nós, católicos, temos suficientes razões de fé e testemunhos históricos para crer que entre muita e acesa discussão e conjecturas humanas o Espírito Santo sabe certamente os caminhos por onde sopra através da liberdade dos Cardeais eleitores — mesmo nos casos de eleição que possam surpreender alguns ou suscitar profundas e angustiosas interrogações a outros. Isto também aprendi eu com o pontificado de Francisco. Aliás, sobre se é o Espírito Santo a escolher o Papa, já em 1997 esclarecia o Cardeal Ratzinger, para desilusão dos ingénuos: “Eu não diria isso, no sentido de que é o Espírito Santo que o escolhe. Eu diria que o Espírito Santo não assume exactamente o controle do assunto, mas sim [o] do bom educador que Ele é. Ele deixa-nos muito espaço, muita liberdade, sem nos abandonar totalmente. De tal forma que o papel do Espírito seja entendido num sentido muito mais flexível, e não que Ele determine o candidato em quem se deve votar. Provavelmente, a única garantia que Ele oferece é que a coisa não pode ser totalmente arruinada. Há muitos exemplos de Papas que o Espírito Santo evidentemente não teria escolhido” (citado por Riccardo Cascioli, em La Nuova Bussola Quotidiana, 24-04-2025; tradução minha).

Por fim, rezo por um Papa justo, não autoritário, que respeite na Igreja o próprio Direito da Igreja; que não se comporte como um monarca absoluto, desligado de qualquer lei; que acabe o regime actual de apartheid litúrgico na Igreja latina e combata os abusos na celebração da Missa; que não ponha em disputa a pastoral com a doutrina; que declare que a abertura da Igreja à inclusão de todos não dispensa a abertura à conversão de todos os que querem nela entrar; que saiba trazer reconciliação, mais unidade e paz dentro da Igreja; e que não confunda aggiornamento com conformidade ao espírito do mundo.

Que Deus nos conceda um Papa integralmente fiel ao Depósito da Fé católica e apostólica; intrépido e claro anunciador da inaudita novidade de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem; verdadeiramente atento ao mundo e ao “seu príncipe”; que saiba governar com justiça; e, sobretudo, que deseje ser santo e nos ajude a sê-lo!