Perdidos no ruído, o mais difícil é perceber que quase tudo o que nos enche de vazio é esse ruído. Perdidos no ruído, temos dificuldade até em perceber que estamos perdidos. É esse o papel primordial do ruído, o de nos alienar do facto de já não sabermos onde estamos, muito menos para onde queremos ir.  Ruído é a nossa incapacidade fustigante, que nos assalta como se fosse uma normalidade, para comer, ouvir, pensar, viver sem interferência permanente. Ruído é como que não saber estar preso no estado permanente de existir sem sentir a necessidade vital de procurar pelo ruído.

O ruído assume várias formas nas nossas vidas. Para os mais graúdos, são as notificações no telemóvel; os canais de notícias que já não sabem o que é dar notícias, porque a notícia se substituiu àquilo que a fazia acontecer: a própria vida. Não deixamos espaço para o tempo correr nem para a vida acontecer, o alarme impõe-se em constância, como se tivéssemos de estar sempre a contar o que está para acontecer. E o ruído é esse esquecer que nos apanha na curva e que nos impede de viver o que estava para acontecer. Não sabemos saborear uma refeição sem estímulo, conversar com os pares sem interrupções, ver um filme sem deitar o olho ao telemóvel. Sempre na esperança de estarmos a fazer o que está mais correcto, de estarmos a escolher o caminho do lucro, do lucro que nos faz parecer adultos informados, adultos presentes, adultos inovadores, adultos que estão sempre um passo à frente do futuro. Talvez alguém nos pudesse segredar ao ouvido que esse passo em frente é um passo que damos de olhos de fechados, com os sentidos tapados, como se não fossemos mais do que sequestrados que, de cabeça baixa, caminham em direção à mortalidade.

Os mais miúdos seguem o exemplo dos pais, mas nós, os mais graúdos, vamos fingindo que eles, os miúdos, têm vontade própria, e que não somos nós que lhes estamos a mostrar que a vida é para ser vivida mesmo assim, à margem da própria vida. A vida que nós vivemos ao lado dos nossos miúdos é essa que eles depois imitam: a vida interrompida, onde o ruído é mais do que qualquer conversa. O verbo estar é uma raridade que só nos aparece nas frases, mas, curiosamente, cada vez menos. Os verbos que se impõe são os da ação, de tudo o que está para acontecer. Estar é agora uma maneira estranha de viver. Raramente estamos.

Vivemos à mercê do “estímulo”, e a verdade é que toda a gente já falou sobre ele, mas, ainda assim, ele sobrevive às nossas conversas paralelas. Especialistas, psicólogos, neuropsicólogos, cientistas, jornalistas, escritores, educadores, professores. Estamos todos preocupados com o “estímulo”, mas falamos dele como se nunca fossemos realmente nós que estamos viciados. São sempre os outros, as outras famílias, as outras realidades, os outros pedaços de vida que não se cruzam com a nossa. Mas não é assim.

A experiência de se permitir estar, apenas estar, cinco minutos, parado e confrontado com a existência e com o vazio do que não está a acontecer é um desafio para muitos. É que essa interrupção, que hoje só conseguimos fazer se for forçada, é o que nos confronta com a realidade do que estamos a deixar por acontecer. Nada está realmente a acontecer quando vivemos imersos no ruído. A comida que comemos não tem realmente sabor, o vinho que nos escorre rapidamente pelas goelas não faz mesmo a cabeça formigar de prazer, o riso do nosso filho não tem mesmo sabor a infância, a viagem de carro não nos faz sentir melancólicos e envolvidos pela paisagem. Nada acontece porque os nossos sentidos foram raptados, mas ninguém está à espera do resgate nem ninguém faz disso notícia.

Fomos roubados em direto, com toda a gente a ver, e com todos os meios para o documentar, mas deixámos passar, porque agora é essa a nossa forma de estar. Vivemos com a ilusão de estarmos sempre a aproveitar o tempo, somos os invencíveis que já conseguem dar conta de todos os recados. Criamos os filhos; trabalhamos que nem mouros; seguimos todas as news, fake news; alimentamo-nos à força, sem saber o que estamos a comer nem com quem o estamos a fazer; conhecemos pessoas que são assim, iguaizinhas a nós, porque, efectivamente, quando andamos assim distraídos tudo nos parece igual.

Somos os invencíveis. Mas, no final, ainda nos vamos aperceber, com espanto, de que ficou tudo por fazer.