Começo com duas referências bibliográficas. Sobre a filantropia nos E.U.A., um capítulo que Kennet Prewitt escreveu no livro de Stefan Toepler. Sobre o papel da filantropia nas universidades americanas, um texto de Cassie Barnhardt.

São apenas duas de várias leituras, mas onde se pode verificar as raízes antigas da filantropia na sociedade dos E.U.A., as quais envolvem disputas religiosas, apropriação privada do bem comum, entre muitas outras matérias, algumas positivas e outras negativas.

Uma das questões que merece atenção é a ascensão da ideia (que se desenvolveu com particular vigor na Gilded Age), de que alguns privados definem melhor o bem comum, do que a própria democracia.

Daqui até à influência sobre as eleições e a opinião pública foi um passo, sobretudo a partir dos anos 80, com think tanks que procuraram responder ao crescimento da affirmative action nas universidades.

O que ainda falta refletir é o impacto dessa ideia na erosão da democracia e da res publica.

O próprio arranjo institucional dos E.U.A. manifesta um contraste entre ortodoxia de alguns setores, com o país em que a liberdade de expressão e o espírito crítico são considerados património nacional.

Pelo que temos filantropias de caráter mais ortodoxo e outras mais heterodoxas.

O projeto NOVA SBE sinaliza a importação de um modelo ortodoxo. O voluntarismo entusiasta sobrepôs-se às diferenças institucionais significativas entre os dois países, desde a base económica que suporta a filantropia (grupos industriais, financeiros e tecnológicos no caso dos E.U.A. versus setor do retalho e antigos monopolistas e rentistas no caso português), até à origem dos projetos (universidades que remontam à competição religiosa entre fações do cristianismo e outras clivagens comunitárias, versus universidades públicas recentemente desviadas para um papel semi-público, dito fundacional, ao que se acrescentou ainda a criação de uma fundação para gestão pouco transparente e paralela das doações).

A imitação portuguesa não entendeu a própria pluralidade das formas de organização universitária nos E.U.A (maioritariamente públicas).

A falta de um debate plural, incluindo com obstáculos à livre ação sindical, agravou o sentido único.

Ficou patente uma incapacidade de compreender que os nove séculos de existência da instituição (forma coletiva) universitária se alicerçam na autonomia científica e pedagógica de docentes, investigadores e alunos – sendo certo que parte significativa desse erro está também na deturpada conceção de autonomia, meramente organizacional e autocrática, que preside ao Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES).

Que em Portugal a importação da filantropia universitária tenha começado por limitar a razão de ser da própria universidade, é um fenómeno que só demonstra os nossos problemas.

Um colégio de catedráticos, sem base legal, demonstra a incapacidade de considerar uma ampla comunidade de pares.

O recurso constante a professores precários demonstra o modelo socioeconómico, sendo óbvio que tal favorece a censura da opinião divergente, ou o assédio.

A acumulação de vencimentos, numa violação gravosa da exclusividade (tão ciosamente imposta para tudo e para nada aos demais) demonstra um profundo cinismo, colmatado por comissões ad hoc, ao arrepio das normas legais em vigor.

O afã de destruir a universidade como instituição, para a tornar numa simples organização de mercado, tem um custo.

O maior problema, é a ascensão de uma ortodoxia, incapaz de perceber o seu problema, olhando para os demais como perigosos subversivos ou sabotadores.

Ora, sem pluralidade, não há universidade.

Referências:
BARNHARDT, Cassie L. – “Philanthropic Foundations’ Social Agendas and the Field of Higher Education”. Em PAULSEN, MICHAEL B. (Ed.) – Higher Education: Handbook of Theory and Research. Springer International Publishing, 2017. ISBN 978-3-319-48983-4. p. 181–257.
PREWITT, Kenneth – “American Foundations: What Justifies Their Unique Previleges and Power”. Em TOEPLER, STEFAN (Ed.) – Legitimacy of Philanthropic Foundations: United States and European Perspectives. New York, Russell Sage Foundation, 2006. p. 27–47.