O regresso às aulas, tal como o regresso à vida, depende da nossa capacidade de vencer o medo. Ora, dificilmente se vence o medo sem esperança.

É certo que a melancolia deste confinamento atingiu o ponto Ruckert-Lieder, com o discurso da chanceler Merkel a defender o fim do princípio da esperança – tão desolador como os célebres versos de Holderlin, sobre uma terra sem sulcos de arado.

Opto por citar outra alemã, Hannah Arendt, recordando que: “as pessoas estão dotadas da capacidade de começar e por isso podem realizar o inesperado e infinitamente improvável. A capacidade de atuar é a possibilidade de realizar “milagres””.

É preciso atuar e manda a precaução que tenhamos vários planos, daqueles que são sociologicamente capazes de demonstrar porque falham as curvas das previsões matemáticas.

O SNESup fez o trabalho de casa. Atempadamente, preparámos uma lista sobre o que importava acautelar, no confinamento e a seguir no desconfinamento.

O ministro Manuel Heitor fingiu ignorar essa lista. Continuou na sua senda de não reunir com a organização mais representativa de docentes e investigadores (a lista de desprezo pela liberdade e independência sindical está cada vez mais longa).

Depois, emulou parte dessa lista e enviou umas ideias vagas, para as instituições ponderarem.

A confusão que se seguiu e as sucessivas aparições de reitores e presidentes de politécnico a dizerem tudo e o seu contrário, lembra a nau de insensatos.

Sejamos sinceros. Não temos uma rede de Ensino Superior e Ciência. Temos cada vez mais feudos, receosos de perder um pequeno poder e embrião de ideias tão alucinadas como substituir para sempre todo o ensino presencial por ensino à distância.

Esse desconcerto reflete-se na equidade, dado que vamos ter diplomados com níveis de formação profundamente desequilibrados (uns efetivamente com parte prática, outros nada disso), aumentando uma desconfiança óbvia e nunca validada à partida (a avaliação da qualidade foi suspensa totalmente e sine die?).

Não podemos deixar de estar preocupados com os alunos, nomeadamente os que estão em situações frágeis e que não terão a formação que deveriam ter.

A chave para sair do medo é a confiança. Não é algo que se conquista com um polícia em cada varanda. Conquista-se sim com a capacidade de nos sentirmos seguros perante um problema de saúde pública no nosso local de trabalho, como nos sentimos em casa, ou noutros espaços.

Daí as medidas de higiene propostas pelo SNESup, incluindo materiais e adaptação dos espaços letivos, bem como a reorganização do tempo de trabalho e a dimensão das turmas, entre muitas outras, num regresso faseado.

Sairemos do medo quando nos sentirmos confiantes. Sem mais, nem menos. E é por isso que é tão importante o trabalho de comunidade, articulado, dialogante, representativo.

É nisso que estamos concentrados. Infelizmente, faltam os interlocutores. A razão é simples e reside num outro medo: o medo de perder o poder. Esse medo reflete em sim uma impotência e a materialização dessa impotência é o cadeado sobre as instituições.

Fica um país triste, isolado, descoordenado e com muito medo. Incapaz de restabelecer a confiança, a começar pelas instituições de ensino superior e ciência. Não pode ser. Não podemos continuar presos nisto.