Todos os anos, entre junho e agosto, somos confrontados com os fogos rurais. Calha sempre nestes meses em que o calor e o vento se combinam numa mistura propícia à ignição. Calha sempre quando boa parte do país está de férias e, por isso, o fogo toma de assalto os noticiários — das seis da manhã até ao dia seguinte. Não que faltem outras notícias; é que o fogo, quando entra em cena, arrebata tudo o que tem pela frente.
Enquanto agrónomo de formação, este tema interessa-me de forma particular. Tento ouvir e compreender o que chega ao público comum, mas esbarro logo num problema: raros são os comentadores realmente especialistas. Nem sempre é fácil encontrar quem fale com base científica, técnica e ponderada (justa menção a Henrique Pereira dos Santos e a José Miguel Pereira).
Decidi então estudar. Percebi que, para entender o fogo, é preciso conhecer o ecossistema da floresta, das matas e dos terrenos rurais e a sua relação com a atmosfera. Mas, acima de tudo, percebi também que é preciso conhecer a história do fogo.
O fogo não é como a água, que existe por si. O fogo depende de uma reação, de um espaço e de um clima. O fogo não “é”; o fogo acontece.
Aconteceu pela primeira vez há muitos milhões de anos (cerca de 400 M de anos), quando a atmosfera se enriqueceu em oxigénio graças à vida que fixava carbono na Terra. Germinaram, cresceram e floresceram os campos, as florestas e as matas. A partir desse momento, as condições para tempestades, relâmpagos e ignições estavam reunidas e o fogo passou a fazer parte da paisagem do planeta.
O ser humano apareceu depois — uns milhões anos mais tarde — e aprendeu a domesticar o fogo. Com ele podia aquecer, cozinhar e, acima de tudo, viver. Usava-o para dar nova vida a paisagens saturadas: das cinzas nasciam rebentos para o gado pastar (os seus preferidos); sobreviviam as plantas mais resistentes, operando-se uma seleção natural. As queimadas eram frequentes, mas controladas e intencionais, cuidadas pelas comunidades para não ultrapassarem o necessário. Claro que o jogo era perigoso. Mas necessário. Nada seríamos sem o fogo. Para nos desenvolvermos, precisámos de desenvolver o fogo.
O tempo avançou e, com o Iluminismo e o confinamento do fogo em compartimentos, a sociedade ganhou-lhe fobia. Rompeu-se uma relação. O fogo “não servia”; servíamo-nos dele, mas sempre fechado: dentro de cilindros de motores, em caldeiras, em lamparinas. Fogo rural? Coisa de primitivos. Deixemos as florestas em paz, sozinhas.
Chegámos então aos nossos dias. Para muitos, o fogo rural continua a ser “coisa de primitivo”. Também a própria atividade rural o será: pouco apelativa, exige desconforto e lida com o inesperado. Não admira que alguns trocem quando se diz que mais cabras ajudam a combater incêndios. “Quem precisa de cabras quando há aviões? Estamos no século XXI, caramba!” Cada macaco no seu galho — e o homem moderno, era o que faltava, viver com cabras. Não têm LinkedIn appeal.
Caros concidadãos, quão enganados estamos. Achamos que trancámos o fogo a sete chaves. Achamos que as florestas se cuidam sozinhas. Como podemos espantar-nos com os fogos rurais? Não é óbvia a razão da sua fúria?
O fogo precisa de lugar e regras. A floresta precisa de atenção — de ser tratada e gerida, mimada. Só uma floresta bem cuidada e um fogo usado com técnica (queimas e fogo controlado) podem servir o ser humano.
Enquanto for o homem a apenas servir-se — e não servir a paisagem — quão furiosos ficarão estes velhos “amigos”! Bastará um cigarro mal apagado, um trator a trabalhar no pior dia, um churrasco mal partilhado ou a vontade egoísta de um só para arder tudo (sem distinção de espécies, qual moda woke dos nossos tempos). E nós ficaremos, como sempre, incrédulos.
Afinal, é o fogo que nos faz viver — desde que bem guardadinho nos nossos compartimentos.
Não somos donos do mundo. Vivemos nele. Não o podemos controlar e muito menos podemos achar razoável eliminar os seus próprios mecanismos de reinvenção. O fogo faz parte do mundo. É necessário ao mundo, às árvores, aos animais. Também não o devemos atiçar, provaremos quanta força tem o mundo para nos destruir (recordemos os incêndios de 2017). Somos pouco neste mundo, mas temos um papel importante: guardiões do fogo. Não o deixamos desaparecer, mas também não devemos provocar a sua expansão. É-nos pedido que sejamos a aliança que une a floresta, que ironicamente chamamos “nossa”, e o fogo. Que preparemos a floresta para o fogo e o fogo para a floresta, fomentando um casamento saudável, mas inevitável.
O que falta para combater estas calamidades? Falta conexão com a ruralidade. Falta sermos mais rurais — para que a presença de uma só cabra não escandalize um montão de c******.
Recomenda-se a leitura de Piroceno de Stephen J. Pyne, do qual retirei importantes lições sobre o fogo.