Marty Supreme, que já valeu a Timothée Chalamet o Globo de Ouro de Melhor Ator, é um daqueles filmes que nos primeiros minutos nos faz imaginar: “Isto vai ser épico”, mas, no final, se calhar saímos da sala a perguntar aos nossos botões: “…Mas era só isto?”
Marty é um jovem tenista de mesa que quer ganhar o seu sucesso à custa de quase tudo. O filme começa como um épico, agarra-nos logo na introdução, com Forever Young a tocar em pano de fundo, enquanto um destemido espermatozoide tenta encontrar o seu óvulo, naquela que talvez seja a viagem mais derradeira da nossa existência. O óvulo fecundado transforma-se numa bola de ténis de mesa e o serviço está lançado para que Marty se transforme num exemplar único da sua espécie.
O filme prende-nos com esta ideia inicial, talvez porque apela à nossa vaidade. Marty não vai ser apenas mais um tenista de mesa, não vai ser apenas mais um jovem em busca de sucesso, Marty vai ser “o” tenista, vai ser “o” homem, vai ser a excepção que foge à regra. E a verdade é que durante algum tempo tudo leva a crer que sim. Marty é tempestuoso, lutador, retorcido, astuto, matreiro. Escala altos e baixos numa personagem que tem laivos de um Woody Allen em apuros, mas que se perde muito menos em crises existenciais.
Marty deixa-se enamorar pelos caminhos estreitos que por vezes é preciso percorrer para chegar a um lugar alto. Marty falha, conta tostões, demite-se do seu papel de pai, porque, bem no início do filme, ainda ao som de Forever Young, Marty põe os seus espermatozoides em jogo com a amiga de infância que nunca assumiu como mais do que isso. Enquanto vende a alma e o corpo para tentar ser “alguém” no mundo (do ténis de mesa), Marty esquiva-se à ideia de que vem aí um outro exemplar único da espécie, o seu futuro filho.
A ideia com que se fica desde o início é a de que Marty quer ser alguém, quer desesperadamente ser alguém. Tem muito que se lhe diga isto de querer ser alguém, e parece que para a ambição humana não basta, nunca bastou, ser apenas um espermatozoide que se encontra com o seu óvulo. Mas, com o desenrolar do filme, eis que Marty se parece cada vez mais com uma “pessoa normal”. A cada minuto de ecrã, reconhecemos-lhe menos esses dotes de estrela, de um ser com conquistas para lá da sua humanidade. Marty vai-se apoderando do seu estado natural e da sua mortalidade, vai falhando, e as vitórias, apesar de louváveis e cheias de esforço, não parecem caber nos moldes que temos para os grandes heróis.
Estaremos a ficar habituados a humanos que não falham? Ou melhor, a humanos que falham, mas cujas conquistas compensam sempre grandiosamente os seus percalços? Marty não consegue a glória como a esperamos. O filme chega ao fim sem aquela apoteose a que os filmes de Hollywood já nos habituaram. Não há o grande amor conquistado, não há o grande prémio há tanto tempo perseguido, não há a grande viragem para a vida outrora sonhada.
Marty regressa à realidade, quase sem nada, para ver o filho recém-nascido amparado nos braços da enfermeira, e eis a surpresa, ou não, desdobra-se em lágrimas. Que saberá o novo pai? Que tudo acabou? Que os vislumbres do sonho de ser um grande tenista de mesa não passaram disso mesmo? Que a vida não é feita de casos de sucesso? Que simplesmente tudo está a começar? Ou que o sucesso é o novo espécime que tem à sua frente? Fica a dúvida e as lágrimas de Marty que não desvia os olhos do seu bebé, escolhido a dedo com um ar de sábio preocupado, como se ele já soubesse que isto de tentar ser alguém é mesmo complicado.
Quando o filme acabou, o meu primeiro instinto foi perguntar: “… Mas era só isto?”. Mas o bichinho que me consumia a cabeça já era outro: “Isto não é pouco…”