A história recente de Portugal, orgulhosamente contada através da epopeia pacífica do 25 de Abril de 1974, tem nas suas margens uma mancha impossível de apagar: as Forças Populares 25 de Abril, ou simplesmente FP-25, organização armada que, nos anos 80, tentou, pelo terrorismo, impor a sua visão revolucionária num país que já se construía como democracia consolidada.
As FP-25 foram criadas em 1980, tendo como figura central Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do Movimento das Forças Armadas (MFA). A sua base ideológica misturava um messianismo revolucionário com ressentimento político. Segundo os próprios documentos da organização, as FP-25 consideravam que o “processo revolucionário” iniciado em 1974 tinha sido traído pela institucionalização da democracia representativa e pela entrada de Portugal na CEE.
A solução repugnante que encontraram foi a luta armada com o objetivo de forçar o retorno ao ideal revolucionário puro, de tipo marxista-leninista, numa altura em que o país já vivia em paz, com eleições livres e imprensa plural.
A estrutura das FP-25 era complexa. Havia um núcleo operativo clandestino, responsável pelas ações armadas e terroristas, e uma frente política legal, Força de Unidade Popular (FUP), que procurava dar cobertura ideológica ao grupo. Usavam nomes de código, esconderijos, e métodos próprios de organizações terroristas como as Brigadas Vermelhas de Itália ou a RAF alemã. O financiamento vinha de assaltos a bancos, extorsão a empresários e roubo de armas, com um “modus operandi” profissionalizado.
A atuação das FP-25 encaixou-se numa estratégia de terror deliberada, instrumentalizando a violência para fins políticos e ideológicos. Entre 1980 e 1987, mataram de pelo menos 17 pessoas, incluindo um bebé de 4 meses em São Manços. O padrão era claro: alvos considerados representantes do “capitalismo”, da “repressão”, ou da “traição revolucionária”, através de assassinatos seletivos a empresários e forças de segurança, atentados bombistas e assaltos à mão armada a bancos e carrinhas de valores.
Em 1984, a PJ e o Ministério Público coordenaram a “Operação Orion” que desmantelou grande parte da organização. O chamado Processo FP-25 envolveu 73 arguidos, incluindo Otelo. As provas recolhidas incluíam planos de ação, armamento escondido, ligações financeiras e confissões.
O julgamento foi um marco pelo que significou em termos de afirmação do Estado de Direito. Otelo foi condenado a 15 anos de prisão por associação terrorista. A sua pena, porém, seria extinta por uma polémica amnistia aprovada pelo PS e PCP e consequente indulto presidencial em 1996, concedido por Mário Soares. Foi um erro que não pode fazer jurisprudência.
As vítimas, por sua vez, nunca tiveram reconhecimento ou compensação condigna. O silêncio, o esquecimento e a indiferença triunfaram sobre a memória e a justiça.
A história das FP-25 é um mote para recordarmos que haverá sempre radicais incapazes de aceitar os rumos plurais e moderados da democracia. A sua violência foi um atentado direto à liberdade e à vida humana, motivado por uma ideologia dogmática e arrogante que tentou instrumentalizar o medo para condicionar a democracia portuguesa.
A democracia não é um fim. É um processo imperfeito e contínuo. Nesse processo não há lugar para armas, bombas ou assassinatos. As FP-25 não foram a continuação do 25 de Abril, foram a sua negação. O tempo demonstrou que a memória dos crimes políticos, para além das justificações ideológicas, exige da sociedade uma pedagogia de clareza e repúdio inequívoco da violência como modo de intervenção política.
A história, essa juíza imparcial, tem a responsabilidade de lembrar que não há causa que justifique o terrorismo, e que o preço da liberdade nunca pode ser cobrado em sangue, porque nenhuma utopia justifica o terror.
O esquecimento é o solo fértil da repetição.