Paralelamente à realidade política de todos os dias, aqui e ali vivida com diplomática adrenalina – e porque já se vai afirmando e anunciando com um crescente fulgor e entusiasmo pelos meios de comunicação em geral – , somos chamados a reparar num inescapável acontecimento que virá ocupar as atenções de biliões de cidadãos deste nosso universo: durante cerca de um mês- de 11 de Junho a 19 de Julho – realizar-se-á a fase final do Campeonato Mundial de Futebol organizado pelo trio Canadá/EUA/México, numa demonstração concreta e inspiradora da possibilidade destes três países trabalharem em conjunto com vista a uma comum finalidade, a saber, a coordenação e desejável sucesso deste magno evento internacional.

Portugal voltará a participar nesta etapa de encerramento de um processo que se iniciou 4 anos atrás- logo após o termo do precedente Campeonato Mundial -, e o seu primeiro responsável técnico é o catalão Roberto Martinez: sim, é verdade, o principal responsável pela nossa seleção não é português, mas a esmagadora maioria dos lusos seres nada se importa com isso, até porque o «mister» já detém um recomendável palmarés ao nosso serviço.

Portugal e a região da Catalunha, dois espaços geográfico-políticos que uma porção de políticos e intelectuais de ambos os lados, ao longo de séculos, quiseram ver reunidos num grupo tripartido de que igualmente fazia parte a Galiza – vide o interessante livro do galego Ramón Villares de 2023, intitulado « Repensar Iberia- Del Iberismo Peninsular al Horizonte Europeo » – , reencontram-se agora numa aliança meramente futebolística. Esta descomplexada prática não desperta, pelo menos em tempo ( ainda) marcado por uma prevalecente paz no Globo, uma qualquer animosidade no planeta futebolístico: na Europa comunitária, por exemplo, além de Portugal, também a Áustria e a Hungria têm selecionadores de outras origens. E temos observado uma repetida experiência de treinadores portugueses enquanto selecionadores de equipas nacionais estrangeiras.

Felizmente, as questiúnculas político-bairristas nunca se impuseram neste contexto, e a contratação ou demissão de um selecionador nacional prende-se exclusivamente com a sua prestação e competência, o mesmo é dizer, com a sua capacidade, em última análise, de formar uma equipa que sacie a fome dos milhões de fãs que só pensam em golos e vitórias.

Curiosamente, apetece recordar que o primeiro grande sucesso de uma nossa seleção de futebol teve lugar quando o selecionador, de seu nome Otto Glória, era um simpático brasileiro: foi com ele que conquistámos, em 1966, um histórico terceiro lugar no campeonato Mundial.

Festejou-se o inédito resultado com uma extraordinária manifestação popular de incontido júbilo, acompanhando e cercando os autocarros que transportavam os nossos heróis ao longo da lisboeta Avenida da Liberdade, com o nosso quase-íntimo «bigodes» acenando também à «sua» multidão.

Ao mesmo tempo, e em paralelo, o Professor Adriano Moreira, que fora ministro do Ultramar de 1961 a 1963, lembrava aos seus alunos no então ISCSPU a perene valia do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre.

Voltando ao tempo presente, e conhecido que foi o lote de jogadores escolhidos para a seleção «de todos nós», algumas vozes logo se ergueram contra a omissão de outros profissionais que alegadamente garantiriam uma maior estabilidade ou ´acutilância` – termo popularizado no universo particular dos relatadores de jogos de futebol pelo inesquecível Artur Agostinho- à equipa nacional, questionando com veemência certas decisões tomadas por Martinez. Tudo normal. Afinal, e não obstante a diversidade de opiniões de tantos ´selecionadores de bancada`, um dado é já adquirido: todos os portugueses de boa vontade e razoável discernimento, apoiarão o «onze» escolhido, a partir do primeiro apito do árbitro no nosso jogo inaugural.

É já sabido que iniciaremos a nossa participação jogando contra a seleção da República Democrática do Congo-  que eu conheci intimamente numa outra encarnação, chamava-se então ´ Zaire`: essa designação era  o resultado de uma descontraída adaptação portuguesa , nos finais do Século XV, do termo, em linguagem Kikongo,´Nzadi`( rio) – , fazendo votos para que a terrível reedição da Ébola não venha a ter reflexos negativos no desempenho desse nosso adversário: que venham a apresentar a sua melhor equipa, desse modo enriquecendo o espetáculo que tantos espetadores in loco, e tele- espetadores, desejarão acompanhar.

Em princípio, e em qualquer circunstância, trata-se teoricamente de um adversário que nos é claramente inferior, embora convenha que os respeitemos, não vá surgir um case study como o do valoroso e ´agostiniano´(de Joaquim Agostinho, naturalmente) Torreense…

É grande a expetativa no que respeita ao que se passará em torno do relvado: os fãs da equipa congolesa não deixarão de nos brindar, a todos nós, um permanente ambiente festivo, com suas contagiantes músicas e batuques, e alegres e coloridas vestes. Este previsível espetáculo- no espetáculo, a ser interpretado por pessoas pagantes – deveria ser o contrário!- em torno do relvado onde se movem os 11 jogadores de cada Seleção, são com efeito uma marca d`água característica das claques das seleções de países do Sul – não confundamos com o  « global South» : chega inclusive a ser a principal atração durante as quase duas horas de duração de certas emaranhadas compitas bilaterais: são sucessivas coreografias e improvisadas danças, cânticos de incitamento aos seus representantes e heróis, e apelos a que todos os outros se lhes associem numa ode de homenagem ao desporto-rei: esta é sempre uma eloquente demonstração daquilo que todos os desafios de futebol, seja qual for a latitude da ocorrência ou o nível das competições, poderiam e deveriam ser.  Tudo e todos envolvidos numa funtástica atmosfera de otimismo e boa-disposicão : para uns, uma espécie de vibrante e saudável desforra sobre um quotidiano tantas vezes doloroso, e para outros, uma bela lição a aprender.

Também por isso, em Houston, no dia 14 deste mês de Junho,o nosso Onze terá a obrigação de oferecer uma exibição com a magia de que somos capazes, desse modo contribuindo igualmente com a sua quota-parte, para a criação da desejável ´onda` bon-enfant . E , em seguida, pede-se-lhe que prossiga nessa onda positiva até atingir o derradeiro dia da prova, em 17 de Julho, em New Jersey, com milhares dos nossos emigrantes ali radicados a aclamar a equipa em língua luso-americana.

No intervalo entre os dois 45 minutos desse derradeiro jogo do Campeonato, haverá tempo para se ouvir e ver, entre outras participações musicais, a talentosa e endiabrada Shakira – replicando assim o figurino do que anualmente acontece na pausa do Super Bowl, o famoso e espetacular jogo de futebol americano que decide quem será o campeão da temporada.

Pois Que venga Shakira!

Se não conseguirmos o almejado troféu, que venha o segundo lugar: ninguém de boa-fé desdenharia esse ´vice-reinado`.

A terceira alternativa- onde terminaria, para muitos de nós, o estado de entusiasmados co-participantes neste tão relevante empreendimento desportivo – , traduzir-se-ia na obtenção de um honroso terceiro lugar , até porque significaria uma dupla comemoração: a de um magnífico lugar entre as 48 seleções em contenda, e a dos sessenta anos decorridos desde o notável feito de Otto Glória e da seleção que ficou então imortalizada, através do jornalista Carlos Pinhão, com o qualificativo de Seleção dos Magriços.

Aguardemos então.