As últimas semanas trouxeram novamente a discussão sobre a criação da linha circular do Metropolitano de Lisboa e as consequentes alterações na linha amarela. Ao contrário da maioria dos partidos, e da população, o Governo diz que vai melhorar a circulação.

Observemos o que está em cima da mesa. A linha circular vai criar duas novas estações, Santos e Estrela, ligando o Rato ao Cais Sodré. Uma alteração que implica mudar de linha no Campo Grande, para os utilizadores da linha amarela, em particular os da zona norte de Lisboa e de quem vem da área Oeste do distrito, para poderem prosseguir para o centro da cidade.

E é aqui que encontramos a primeira incoerência do Governo do país e da cidade, ambos socialistas. Pretendem defender o ambiente, mas promovem a entrada de mais veículos na cidade (porque os parques dissuasores estão longe de ser uma realidade exequível) e colocam entraves nos fluxos de acesso ao metro, aumentando os tempos de espera na linha amarela.

Inúmeros especialistas criticam esta opção do ponto de vista técnico. De geólogos a engenheiros passando por petições com estudos de impacto claros, todos apontam para o notório risco de uma obra destas, a que acresce a experiência advinda das obras das estações do Terreiro do Paço e Santa Apolónia. O governo, esse, não aprendeu nada. Mesmo tendo a Ordem dos Engenheiros a contestar o projecto.

Outra incoerência é manifestada pelos que não aceitam a suspensão das obras da linha circular do metro, considerando “inaceitável” e um “abuso e intromissão” no poder executivo do Estado. São os mesmos que consideram a geringonça de 2015 como normal. No fundo, são ambas legitimamente legais mas, para o PS, a irresponsabilidade só impera quando a solução não lhes convém.

Depois, a chantagem com a perda de fundos comunitários. Os ciclos são temporalmente distantes e é por essa mesma razão que se devia priorizar a expansão da rede para a zona ocidental da cidade. Quanto a fundos, o ministro do Planeamento diz uma coisa, o do Ambiente diz outra. Se nem dentro do mesmo governo, do mesmo partido, se entendem, é possível confiar nas decisões de quem vai ao leme dos destinos do país?

Mas há mais incoerências do Partido Socialista, agora em Lisboa. No PDM de 1994, de Jorge Sampaio, ficou clara a necessidade de avançar com a expansão da rede para a zona ocidental, abrindo estações nas Amoreiras, Campo de Ourique e Alcântara. Foi também nesta altura que foi aprovado o Plano de Pormenor das Amoreiras, em que as condicionantes de mobilidade apresentavam, com compromisso do Metropolitano, a abertura da estação das Amoreiras. Nunca aconteceu. Volvidos quase 20 anos, Lisboa aprova novo PDM, em cima de um novo Plano de Pormenor das Amoreiras, aprovado no início de 2011 e comprometendo-se com a mesma premissa: a abertura da estação das Amoreiras para combater a redução do uso automóvel, em particular de quem acede à cidade pela A5/Viaduto Duarte Pacheco, reduzindo faixas de rodagem na Rua D. João V. Cinco anos depois, as mudanças urbanísticas estão em curso e a redução de faixas também. O metro, esse, fica para as calendas gregas.

Em suma, o PS não consegue cumprir com a estratégia de planeamento da cidade que os próprios conceberam e viram aprovada. A estratégia falhada de Costa, Medina e Salgado.

Mas nesta matéria há uma incoerência gritante, uma esquizofrenia político-partidária relativamente à expansão do metro.

CDS, PSD, PCP e PEV sempre defenderam que a prioridade devia ser a expansão para a zona ocidental, desde logo, por ser a zona menos servida de transportes públicos e para fazer cumprir o planeamento da cidade, principalmente o PDM mas também de planos urbanísticos como o das Amoreiras ou de Alcântara.

E onde entra a nova incoerência? Comecemos pelo PAN. Na proposta aprovada na Assembleia da República, defendem a suspensão da linha circular e pedem que seja estudada a possibilidade da expansão para a zona ocidental. Na Assembleia Municipal, defendem, de forma incontestável, a prioridade para esta zona.

O BE segue o mesmo modus operandi. No Parlamento pede a suspensão e clama pela priorização da zona ocidental. Na Câmara de Lisboa abstém-se, para não criar atritos com o parceiro socialista. Na Assembleia Municipal, votam contra a suspensão da linha circular e defendem a expansão da rede para a zona ocidental. Uma cartilha que contraria o acordo PS/BE e que deita por terra aquilo que o desaparecido Ricardo Robles defendeu durante a campanha de 2017. Não nos surpreende.

Por fim, o PS. No Governo, na Câmara e na Assembleia Municipal apoiam e defendem a construção da linha circular. Na freguesia do Lumiar, presidida pelo também deputado socialista Pedro Delgado Alves, diz-se contra a linha circular pelo impacto que terá nas deslocações dos seus fregueses ao centro da cidade.

Se a divergência de posições do PAN, BE e PS em vários órgãos se pode definir como incoerência e desnorte, a gravidade assume outro patamar quando os mesmos deputados, que têm assento quer no Parlamento quer na Assembleia Municipal, defendem posições opostas. Já não é apenas incoerência, é desrespeito pelos portugueses, pelos lisboetas e acima de tudo demonstra oportunismo consoante o palco mediático.

Lisboa merece bem melhor.