O país teve de esperar até ao final de Junho para que Fernando Medina dissesse finalmente o que pensava sobre o fracasso do combate à pandemia, que na região de Lisboa e Vale do Tejo regista 80% dos casos nacionais.

Até então, foi só estranho que alguém com responsabilidade autárquica usasse o tempo de comentador na TV e na rádio para falar essencialmente de matérias nacionais. E também não havia sessão propagandística do Governo a que o presidente da CML não se colasse. Foi a distribuição de alimentos às pessoas em situação de sem-abrigo (nem falemos no caso da ocupação de imóvel em Arroios onde, até hoje, não se pronunciou…), a chegada do avião com material médico, ou a entrega do prémio “Champions” aos profissionais de saúde. Sem esquecer a inqualificável actuação, a solo, na entrega de bilhas de gás.

No dia 29 de Junho tudo mudou, ou não. Dias depois, suavizou o discurso e agora já não se lhe conhece a opinião. Mas nesse dia Medina falou alto. Seguramente com o beneplácito de António Costa, atacou a DGS e a ministra mais popular do Governo. Apesar de tardias, tem razão nas críticas de que “falhou a acção no terreno” e que “se tudo continuar na mesma deve haver uma alteração de chefias nas autoridades de saúde”.

Estará o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que também é o Presidente do Conselho Executivo da Área Metropolitana de Lisboa (AML), isento de responsabilidades em todo o processo? Não é ele uma “chefia territorial”?

Não está. Não é, por exemplo, a DGS que tutela os transportes que operam na Área Metropolitana de Lisboa – incluindo a Carris – e que são o exemplo de como o desconfinamento foi mal delineado e pior planeado.

A AML não se articulou politicamente. Foi cada município por si. Muitas empresas de transportes da Área Metropolitana de Lisboa têm os motoristas em lay-off, ou instituíram os horários de Verão, nomeadamente na Linha de Sintra, onde existe um maior número de casos de contágio e, em Lisboa, a Carris e Metropolitano estão com problemas de sobrelotação em determinados horários.

Medina devia ter falado e coordenado com estes operadores privados e públicos, que prestam serviço público. Sobre a sobrelotação de transportes na AML, não se pronuncia. E quanto à Carris, afirma mesmo não existir sobrelotação, apesar de ser diariamente desmentido pelas fotos que os utentes publicam.

Numa altura em que era do interesse de todos e da saúde pública, que os transportes públicos tivessem menor frequência de passageiros, não se compreende que a EMEL tenha voltado a cobrar o estacionamento, dificultando a opção de uso do transporte individual para quem vem trabalhar na cidade. Dirá Medina que não se deve incentivar o uso deste transporte, mas quando nos deparamos com uma crise pandémica sem precedentes, em que a resposta ao nível de transportes públicos é insuficiente, caberia à Câmara, numa competência exclusivamente sua, suspender o pagamento, tal como o CDS propôs, mas a Esquerda teima em boicotar. E, ao final do dia, quem sofre são os milhares de cidadãos que não têm opções viáveis para se deslocar para e fora de Lisboa.

A CML tem sido meramente reactiva e sem acção pedagógica ou preventiva, por contraste com os municípios de Oeiras e Cascais, que no âmbito da saúde ou da educação tem sido exemplares. O município dispõe de 18,5 milhões de euros para aquisição de equipamento de protecção e desinfecção, a que se juntam as doações de milhares de materiais para combater a Covid-19, e ainda assim e após inúmeras propostas para distribuição de máscaras à população, Medina não tomou a dianteira, correndo sempre atrás do prejuízo.

Nos bairros sociais funcionou – e bem – o apoio na distribuição de alimentos. Porém, falhou (e falha) a desinfecção dos locais, a distribuição de máscaras e até a sensibilização para os comportamentos de risco.

Apesar do já mencionado espaço de comentário, Medina também não antecipou uma palavra de desencorajamento ou de pedagogia contra as manifestações e comícios que aconteceram e persistem na cidade de Lisboa (do Bloco ao Chega, passando pelo PCP e suas organizações satélite, que ainda esta semana organizaram uma manifestação sobre um assunto que, como se sabe, afecta os todos os portugueses: Israel. É uma ideia que só lembraria a um anti-semita). Lisboa, pela voz de quem a governa, prescinde de ter uma palavra que conte.

Fernando Medina, que teve uma entrada de leão a pedir a alteração de chefias e uma saída de sendeiro a dizer que afinal era um alerta, tem, a par daqueles que criticou, um nítido problema de coordenação e implementação de medidas que tardam. Quando se fizer a história destes tempos, saberemos o que esta ineficácia custou ao país.