Nos últimos anos de geringonça o PS acabou com o denominado período de silly season, sem que isso seja propriamente uma boa notícia. Dos incêndios e mortes de 2017 às golas inflamáveis de 2019, percebeu-se como a incompetência, desresponsabilização e nepotismo eram as principais marcas que o socialismo trazia para o Estado.

Este ano nem Lisboa escapou. Quando o país se preparava para ir a banhos, o vereador do urbanismo de Lisboa, Manuel Salgado, anunciou a saída definitiva do lugar que ocupa, desde 2007, à frente do planeamento urbanístico lisboeta e que lhe valeu o cognome de DDT (Dono Disto Tudo).

O homem que, em mais de uma década, mandou em Lisboa, relegando Fernando Medina para um papel secundário, afirma que está na hora de dar o lugar a outros no momento em que atinge 75 anos.

Numa leitura simplista, de renovação e mudança, não deixa de ser positiva a saída do homem que está ligado a projectos urbanísticos fortemente contestados e, também, à criação do sistema de créditos de construção que, como tive oportunidade de alertar, podem e estão a ser colocados ao serviço de um péssimo planeamento da nossa cidade.

Esta saída também revela algo grave e profundo para além da avaliação do trabalho desenvolvido por Salgado. Mostra a reiterada táctica socialista de ludibriar os lisboetas, em particular aqueles que votaram no PS (apesar de suspeitar que muitos destes não se importam).

A entrevista ao Expresso não deixa espaço para dúvidas: a saída de Salgado foi planeada antes da apresentação das listas candidatas às autárquicas de 2017 e a sua sucessão está a ser premeditada desde então, o que demonstra a mentira eleitoralista dos socialistas: o homem que se candidata a vereador do urbanismo, afinal, não o será nem tem vontade de cumprir o mandato até ao fim, de resto, acordado com Medina. Ou seja, os lisboetas que votaram no PS caíram num esquema que, de resto, já faz escola em Lisboa.

Recorde-se a renúncia ao mandato do presidente da junta de freguesia de Alvalade, invocando o facto de ser chefe de gabinete do ministro das Finanças, condição essa que já usufruía quando decidiu candidatar-se. O PS quis garantir a vitória naquela freguesia e sabia que a mesma só poderia ser alcançada mantendo a mesma figura presidencial como candidato, mesmo que se traduzisse num acto premeditado de enganar o eleitorado.

A esta manipulação socialista acresce o anúncio de que o sucessor de Salgado será Ricardo Veludo. Entre o último eleito socialista e Veludo estão quatro suplentes, um deles o independente Rui Franco (Cidadãos por Lisboa) – que já tem substituído a vereadora Paula Marques – e a secretária-geral da JS, Maria Begonha. Assim, decide o PS excluir da equação dois elementos importantes para a estrutura partidária e para o movimento independente para colocar aquele que a dupla Salgado & Medina prepararam para a sucessão. Regista-se o desrespeito e a falta de transparência com os lisboetas, para que tudo fique na mesma. Porquê?

Além de Salgado deixar o pelouro do urbanismo e o planeamento delineados estrategicamente para o novo sucessor, os socialistas insuflaram a empresa municipal SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana com milhões, com mais competências, aumentando significativamente o quadro de pessoal da empresa e substituíram a anterior administração por outra onde figuram o próprio Salgado e o vice-presidente do município.

O PS criou deliberadamente uma mini-câmara, na qual Manuel Salgado já não pretende dar o lugar a outros, manifestando a intenção de manter-se à frente da SRU. Por algum motivo quer sair da luz dos holofotes, mas não pretende alienar o poder que controla na sombra.

Este modus operandi do PS, com paralelo na estrutura do Estado, não é aceitável. E muito menos o é para o futuro sadio da cidade.

O CDS reforça o desafio lançado a Salgado: se não tiver unanimidade de votos para continuar na administração da SRU não deve aceitar o cargo.

No momento que se discute o direito à habitação, fica explícito que em 12 anos de governação de Lisboa o PS não teve uma única política pública de habitação. A extinção da EPUL foi a última machadada na habitação; depois disso, só assistimos ao lançamento do falhado programa “Reabilita Primeiro, Paga Depois” e a um “Programa de Renda Acessível” (da responsabilidade de Veludo) ao qual o Tribunal de Contas não emitiu, até à presente data e com meses de espera, parecer favorável.

Não se pode esperar muito de quem, durante anos, pouco fez. E a situação é mais preocupante quando, com mais de uma década de atraso, Helena Roseta revela que António Costa, enquanto presidente da câmara, quis vender os bairros municipais sociais, o único instrumento de habitação para socorrer quem mais necessita. Que mais nos falta saber?

Aos poucos, o engodo socialista é revelado. Só cai quem quer.

Diogo Moura é presidente da concelhia de Lisboa do CDS e líder de bancada na AML