Henrique Raposo escreveu recentemente que muitos jovens católicos vivem uma religiosidade pomposa, feita de rituais exteriores e poses teatrais. Falou de missas em latim, de comunhões de joelhos, de bocas abertas como passarinhos à espera de papa. E, com ironia, sugeriu que essa fé é mais aparência do que essência, mais etiqueta do que caridade.

Mas há aqui uma falsa dicotomia.

Na tradição da Igreja, ajoelhar-se diante de Deus não exclui ajoelhar-se diante do próximo. Pelo contrário, exige-o. O mesmo Cristo que se oferece na Eucaristia, realmente presente, Corpo, Sangue, Alma e Divindade, é o Cristo que lavou os pés aos discípulos e que nos manda fazer o mesmo. Ajoelhar-se para comungar não é teatro, é reconhecimento humilde da presença real de Deus. E ajoelhar-se diante do pobre, do invisível, do esquecido, é reconhecer essa mesma presença em cada rosto humano.

Não são apenas os jovens que se ajoelham. Muitos adultos, que durante anos comungaram de pé e na mão, ao aprofundarem a sua fé e ao se aperceberem do grande mistério da Eucaristia, começaram também a dobrar o joelho. Não por nostalgia ou teatralidade, mas por reverência, por amor, por reconhecimento da presença viva de Cristo. Este gesto, longe de ser uma moda ou imposição, nasce de uma experiência interior que transforma a forma como se vive a liturgia.

A imagem do passarinho que Henrique usa para ridicularizar os jovens que comungam de boca aberta é, curiosamente, uma das mais belas imagens da tradição cristã. O pelicano, símbolo de Cristo, é representado a abrir o peito para alimentar os seus filhos com o próprio corpo. A hóstia não é papa, é o próprio Cristo que se dá, e nós somos esses filhos famintos, que só Dele recebem a vida eterna.

Não é ignorância, é mistério. Não é teatro, é fé.

E sim, há jovens que comungam de joelhos e que também lavam pés. Que fazem voluntariado, que visitam prisões, que ajudam em bairros pobres, que servem em cantinas sociais, que rezam e agem. A fé não é uma escolha entre liturgia e caridade. É ambas. É o amor a Deus e ao próximo. É a cruz com dois braços: vertical e horizontal.

A crítica de Raposo acerta num ponto importante: há sempre o risco de uma religiosidade sem coração. Mas erra ao generalizar e ao desprezar os sinais visíveis da fé como se fossem vazios por natureza. A Igreja ensina que os sinais exteriores são expressão da interioridade, e que a beleza da liturgia pode elevar a alma. De facto, os próprios sacramentos são espírito (forma) e corpo (matéria) pelo que na liturgia a própria expressão corporal assume uma dimensão da maior relevância.

A fé católica não é uma pose. É uma vida oferecida, como a do pelicano. E muitos jovens hoje, contra todas as expectativas, estão a viver essa fé com profundidade, com entrega, com verdade.

Veja-se, por exemplo, a paróquia de São Nicolau, na Baixa de Lisboa. Ali, é habitual ver jovens ajoelhados nas missas, com genuflexórios e reverência. Mas ali também se vive uma caridade constante. Jovens que organizam campos de serviço e voluntariado como o Ora et Labora, onde estudantes e trabalhadores abdicam das suas férias para passar dez dias num convento, ajudando irmãs ou irmãos nas obras que precisam, trabalhando de sol a sol no calor, para apoiar esse pulmão da Igreja.

Ou o campo Alfa J, nascido das catequeses semanais no bairro da Mouraria, que acolhe crianças vindas de lares marcados por pais presos, por tráfico de droga, por abandono. Ou ainda o grupo de jovens que ia ao bairro do Padre Cruz, dando catequese, explicações, e levando Cristo aos mais pobres.

Por isso, deixo um convite ao próprio Henrique Raposo: venha à missa nestas igrejas. Converse com os jovens. Veja como se ajoelham perante Deus e perante os irmãos. Veja como gostam de missas em latim e como vivem a caridade com alegria. Pode encontrá-los de segunda a sexta às 19h, ao sábado às 10h30 e ao domingo às 10h e às 18h na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha.

Talvez descubra que a fé não é um teatro. É um dom. E que os jovens, afinal, não estão a regressar ao passado: estão a caminhar para o coração da Igreja.