Quando eu tinha 6 anos chegava da escola às 4 da tarde, sentava-me na cozinha, comia uma carcaça com tulicreme e via o Dartacão… a preto e branco. Os meus pais tinham duas televisões. Uma a cores, na sala, e outra a preto e branco na cozinha. Convenhamos que ver o Dartacão a preto e branco não é a mesma coisa que vê-lo a cores, mas enfim, era o que havia.

Quando estava farto daquilo, ia brincar para a rua ou jogar à Glória ou ao Ludo na marquise.

30 anos depois o caso mudou de figura. E muito! Os meus filhos também vêm o Dartacão, mas a cores. E escolhem o episódio que querem ver, com a ajuda do nosso amigo Netflix. Quando estão fartos, o que normalmente demora apenas meio episódio, vão brincar ou jogar e até ver vídeos… no iPad. Sim, no iPad. O computador já é um objecto estranho para eles.

O que é divertido de observar é que 30 anos depois da apresentação do Windows, os computadores estão fechados nos ditos escritórios caseiros. Diria mais, o conceito de computador está a perder-se. Os miúdos cada vez mais procuram algo portátil, ainda mais portátil que um computador portátil, querem estar conectados, mas em pequenas porções e em pequenas doses.

E serão só os miúdos?

Estas doses de divertimento são doses de informação que aplicações como o iTunes ou o Youtube vão registando e criando um perfil de utilizador. Mas o melhor está para vir! Ou melhor, já chegou. E tem o nome de inteligência artificial.

Se há 30 anos eu via o Dartacão a preto e branco, hoje através da Google Home e da Echo da Amazon, o conceito de televisão, computador ou até mesmo de device cairá rapidamente. O que irá distinguir os produtos uns dos outros serão as experiências que nos poderão dar. Estas duas interfaces de conversação centrados no utilizador, marcarão as nossas reuniões, enviarão mensagens se lho pedirmos, farão as reservas no restaurante para levarmos a família a jantar. Ao fim ao cabo o que se pretende é que estes “aparelhos” se desvaneçam da sua forma física e que estejam em todo o lado, que transcendam o hardware e que nos sigam! Seja isto assustador ou não, o facto é que é para aqui que caminhamos.

Hector Ouilhet, chief designer da Google confessou que o que mais o excita no Google Home é estar a construir um futuro em que a sua filha possa usar alguma coisa sem ter que a aprender a usar. Será a forma de encontrarmos o que quisermos quase sem estarmos à procura. Se o mundo já esteve à distância de clique, agora poderá estar à distância de uma simples pergunta.

Serão aparelhos de acção/reacção. À medida que os vamos usando, eles vão aprendendo quem nós somos, o que gostamos, o que queremos. O que não deixa de ser uma reflexão curiosa se atentarmos que antes da invenção do próprio computador se achava que o cérebro era uma espécie de “black box” indecifrável. Até que se percebeu que afinal o nosso cérebro era e é um aparelho onde imperavam e imperam variadas revoluções cognitivas. Tínhamos e temos a capacidade de argumentar, discutir, ouvir e racionar, desencadear uma acção consoante a informação recebida e era tudo menos uma compilação de respostas pré-feitas.

Ouvimos, decidimos, fazemos e por vezes erramos. E será isso o futuro destes novos devices, dos “Echos” e dos “Google Homes” da nossa vida.

Ouvem, decidem, respondem, sugerem e provavelmente irão errar. E muito.

Tal e qual como eu erro. Como todos nós erramos.

E é essa a condição humana.

Que está a um pequeno passo de ser também a condição da máquina.

Designer e Dean da Escola de Tecnologias, Artes e Comunicação na Universidade Europeia; carlos.rosa@universidadeeuropeia.pt