1 O deslumbre da resposta instantânea 

Bastam segundos para que um chatbot como o ChatGPT nos devolva a resposta. Não uma entre  várias, mas “a certa” – apresentada com segurança, referências se as pedirmos e até imagens. É  tentador aceitar, copiar e seguir em frente. Afinal, quantas vezes temos tempo (ou disposição)  para duvidar?

Em abril de 2025, a OpenAI encerrou o acesso ao antigo GPT-4 e substituiu-o integralmente pelo  multimodal GPT-4º, um modelo capaz de “raciocinar em tempo-real sobre texto, som e imagem”.  Desde então, a plataforma supera os 200 milhões de utilizadores diários. Nunca tanta gente  confiou em algoritmos para decidir o que ler, comprar ou pensar.

2 Da automatização à delegação cognitiva 

Primeiro pedíamos à IA que nos poupasse trabalho mecânico: traduzir, somar faturas, sugerir  rotas. Hoje delegamos-lhe raciocínios inteiros — da recomendação de medicamentos  over-the-counter à elaboração de planos de negócio. O resultado? Cascatas de decisão  automatizada em que os humanos surgem apenas no fim da linha, a confirmar o que a máquina  já fez.

A tentação é ainda maior numa cultura cada vez mais digital. Redes como TikTok e X (ex-Twitter)  selecionam conteúdos que maximizam o nosso tempo de ecrã; algoritmos de “recompensa”  aprendem a servir-nos doses crescentes do mesmo, dispensando a dissonância que faz pensar.  Estamos, sem querer, a treinar um reflexo pavloviano de confiança: se vem rápido e formatado,  só pode ser verdade.

3 O perigo da “verdade única” 

A ciência cognitiva chama-lhe epistemic overconfidence: quanto menos sabemos sobre um  tema, mais convencidos ficamos da resposta fácil. A IA amplifica o fenómeno, porque oculta a  ambiguidade que existia nas pesquisas tradicionais. Anteriormente, a uma pesquisa sobre algo  que nos inquietava o Google devolvia dezenas de links relevantes para procurarmos a (nossa)  resposta; agora recebemos um texto sintético, sem margem para ver os dilemas que ficaram de  fora.

Com uma breve pesquisa (no Google, pois claro) encontramos exemplos dos riscos que corremos por seguir cegamente a IA, em áreas tão diversas como a Saúde – com diagnósticos errados produzidos por modelos “muito seguros de si” onde os pacientes seguem os conselhos do  modelo sem solicitar segunda opinião; a Educação – com o aumento de trabalhos académicos  gerados por IA e os professores a constatar que os estudantes aprendem a citar textos que não  chegaram a ler; e, claro, no campo Eleitoral – onde se verificaram deepfakes de líderes políticos  nas eleições indianas (2024) e mexicanas (2024), moldando perceções antes de as equipas de  fact-checking conseguirem reagir. Estes casos são sintomáticos do poder que a IA tem para distorcer a realidade e moldar perceções políticas, muitas vezes reforçando discursos simplistas  que evitam o confronto com a realidade.

4 Sociedade acrítica: sintomas e causas 

Portugal não foge à tendência. Os resultados do PISA 2022 já mostravam uma quebra de 15 pontos em literacia de leitura. Se acrescentarmos interfaces que dispensam leitura prolongada  — prompts de voz, resumos automáticos, reels — temos tudo para viver um ciclo em que a  verdadeira curiosidade diminui à medida que o scroll acelera.

E porquê? Essencialmente, por 3 motivos simples:

  1. Fadiga de escolha/decisão – perante excesso de informação, preferimos a via rápida (sim, tomar decisões é cansativo);
  2. Design persuasivo – as plataformas otimizam para retenção, não para reflexão (quem  diria?);
  3. Educação desatualizada – os currículos ainda ensinam a memorizar, não a questionar (e  com a falta de visão e o rodopio dos responsáveis pela pasta, não se prevê grande  melhoria a curto prazo).

Nesta sopa cultural de baixa literacia e reflexo crítico diminuído, o populismo encontra terreno  fértil. A simplificação excessiva das mensagens, a rejeição da complexidade e a promessa de  soluções fáceis alinham-se com uma audiência treinada para não duvidar.Não é coincidência que  mensagens políticas simplistas floresçam neste ambiente. A ascensão de partidos populistas  tem sido notória da Argentina à Suécia… e desde 18 de maio também neste nosso quintal. Num  eleitorado exposto diariamente a verdades instantâneas e pouco habituado ao contraditório, a  narrativa populista surge como uma extensão natural da experiência digital: rápida, emocional e  aparentemente clara. Quando a literacia crítica falha, o algoritmo e o populismo tornam-se  aliados invisíveis: ambos oferecem certezas a quem já desistiu de procurar perguntas.

5 Futuros possíveis: quem programa quem? 

Aqui entram as big tech e os legisladores. A União Europeia aprovou o AI Act, em vigor desde 1 de  agosto de 2024, com proibições de “IA de risco inaceitável” efetivas a 2 de fevereiro de 2025. É  um passo histórico, mas insuficiente se os cidadãos não entenderem porquê e como esses riscos  se materializam.

Mo Gawdat, no seu livro Scary Smart, compara os sistemas atuais a adolescentes  superdotados: aprendem rápido, testam limites e copiam os nossos valores (bons ou maus). Se  lhes damos exemplos de sensacionalismo para ganhar clicks, não podemos esperar ponderação objetiva. E é exatamente esta dinâmica que os movimentos populistas exploram: simplificar,  amplificar e repetir até que a narrativa se torne inquestionável.

6 Como recuperar o espírito crítico 

Recuperar o espírito crítico numa era de respostas automáticas e “certezas absolutas” exige mais  do que manuais de instruções digitais — exige uma reeducação cultural. Não basta saber usar a  tecnologia; é preciso reaprender a desconfiar dela. Isso começa por uma nova alfabetização digital — não apenas técnica, mas interpretativa. Ler uma resposta da IA deve ser como ler um  editorial: quem escreveu? com que fontes? que interesses ou vieses estão em jogo?

Depois, há que exigir transparência por defeito. Os modelos devem ser forçados a declarar os  seus níveis de confiança, as fontes que usam e, acima de tudo, a reconhecer quando não sabem.  Só assim se combate a ilusão de infalibilidade que os torna perigosos.

Importa também diversificar os instrumentos com que nos informamos: alternar entre motores  de busca, consultar especialistas humanos, comparar versões — como quem passa da rádio ao  jornal, e do jornal à conversa de café, para formar opinião.

A isto junta-se o hábito, quase revolucionário, de parar. Parar uns segundos antes de aceitar  qualquer resposta. Respirar. Duvidar. Contra-argumentar mentalmente. Esta microreflexão é  talvez o último reduto da liberdade cognitiva.

Mas nenhuma mudança será profunda se não começar na base: as políticas públicas têm de  incorporar o pensamento crítico em todas as disciplinas, da matemática ao português, do 1.º  ciclo ao ensino superior. Perguntar “porquê?” tem de voltar a ser mais importante do que decorar  a resposta certa. Só assim poderemos resistir à era da inteligência artificial com o que ela mais  teme: humanos que ainda pensam por si.

7 Conclusão: precisamos de perguntas para o amanhã 

A Inteligência Artificial não é o destino, é o design — e o seu código reflete, quase sempre, a  mediocridade de quem abdica de pensar. Cada vez que aceitamos uma resposta pronta, sem  hesitação ou confronto, estamos a dizer ao sistema (e a nós mesmos) que perguntar já não é  preciso.

A história nunca avançou graças a “certezas absolutas”, mas porque alguém, em algum momento,  se atreveu a perguntar “E se…?”. E hoje, mais do que nunca, essa pergunta tornou-se subversiva.  Numa era em que o autofill completa frases antes de pensarmos nelas, parar para duvidar é quase  um ato de resistência.

O futuro que a IA (e até o próprio populismo) vai moldar depende menos dos chips da Nvidia e  mais do músculo crítico entre os nossos ouvidos. Talvez seja hora precisamente de desligar o autofill e redescobrir o prazer de ficar, por instantes, sem resposta.