Nos últimos 50 anos, o sistema educativo português sofreu profundas alterações e conheceu várias  melhorias relevantes. No entanto, com raras exceções, o sistema ainda assenta, naquilo que é mais  substantivo, numa matriz educativa herdada das Primeira e Segunda Revoluções Industriais, como  se pouco tivesse mudado. Continuamos com umas dezenas de jovens da mesma idade, sentados por

ordem alfabética numa sala retangular, em filas, virados para um quadro ou ecrã, para aprenderem  as mesmas coisas, da mesma forma, com o mesmo grau de profundidade e ao mesmo ritmo.  “Entregues” a um professor e a um manual didático, muitas vezes são estes os únicos veículos do  conhecimento na sala de aula, apesar da abundância de processos e ferramentas pedagógicas hoje  disponíveis.

Persistimos numa visão do sistema educativo como uma “indústria da educação”, excessivamente  baseada numa lógica de ensino em série, num tempo de crescente diversidade social e económica.  Mesmo com alguma variedade na oferta educativa — insuficiente, mal pensada e caoticamente  distribuída —, continuamos presos a um modelo que privilegia a conformidade e a normalização,  em detrimento de uma formação personalizada e orientada para o desenvolvimento das “forças”  específicas de cada jovem. E, para além do conhecimento e do saber-fazer, a criatividade e a  diversidade de perspetivas serão fundamentais para o desenvolvimento social e económico.

Espartilhar a realidade em “caixas estanques” — a Matemática aqui, a Biologia ali, a História, a  Filosofia… e as Artes acolá —, para além de conduzir a redundâncias desnecessárias, não  proporciona uma cabal compreensão dos conteúdos em estudo nem uma visão equilibrada da  realidade, o que se torna pouco eficaz na preparação dos jovens para um mundo em rápida e  permanente mudança. Num tempo em que a IA já demonstrou ser muito superior à simples  reprodução do que aprende, fazer assentar a educação num sistema tão dependente da memorização  dos conteúdos “distribuídos” para responder em testes e exames excessivamente académicos —  estuda-se quando os testes se aproximam, para se esquecer logo de seguida — é uma opção  educativa pouco inteligente, desumana e ineficaz.

Para a maioria dos alunos, muitos dos conteúdos das Aprendizagens Essenciais são dispensáveis,  pelo que estas vão muito para além do que é verdadeiramente essencial. Exigimos demasiada  gramática, e muitos acabam por mal saber ler e escrever; demasiada matemática, e muitos acabam

por mal saber contar; demasiado de Física e Química, Biologia, História e Filosofia, e muitos  terminam a escolaridade obrigatória com uma compreensão muito frágil do mundo em que vivem.  Para uma minoria, paradoxalmente, esses mesmos conteúdos são manifestamente insuficientes e  superficiais.

Continuamos a não fazer a “prometida” educação política, a educação para a economia e o  empreendedorismo, nem uma educação para a cidadania de forma sistemática e consequente. Na  generalidade das escolas, estes temas são abordados de modo excessivamente teórico e com uma  aplicação prática muito superficial ou mesmo nula — ou até contraproducente, como são,  maioritariamente, as campanhas para as eleições das Associações de Estudantes.

É indispensável definir um core curriculum transversal mais conciso e coerente, e libertar as escolas do centralismo vigente — imposto por governos sucessivos —, permitindo que, para além desse  núcleo de conteúdos comum, estas possam desenhar ofertas educativas próprias, mais flexíveis e  ajustadas às realidades concretas que enfrentam. Se queremos, de facto, um sistema educativo capaz de garantir uma formação robusta, personalizada e verdadeiramente orientada para o  desenvolvimento das especificidades de cada jovem — materializando-se no tão invocado  “elevador social” de que o país desesperadamente necessita —, então não há como escapar a  alterações profundas, estruturais e até radicais. E estas não são uma abstração teórica nem uma  fantasia pedagógica: existem exemplos concretos, há décadas, no próprio sistema público  português, como o da Escola da Ponte, onde, há cerca de 50 anos, José Pacheco e a sua equipa  demonstraram que é possível cumprir com sucesso os conteúdos hoje inscritos nas Aprendizagens  Essenciais sem professores a “dar aulas”, sem salas de aula, sem turmas nem anos de escolaridade,  sem testes obrigatórios, e sem grande parte do aparato burocrático e disciplinar da escola dita  “normal”. Uma escola que educa efetivamente para a democracia, para a autonomia e para valores  morais exigentes; que é referência e objeto de estudo internacional e que, apesar disso, em Portugal  continua a ser sistematicamente ignorada ou reduzida a uma curiosidade pedagógica, em vez de  assumida como aquilo que realmente é: uma acusação viva à inércia, ao conformismo e à falta de  coragem do nosso sistema educativo.

Mostra a minha experiência pessoal no ensino das Artes Visuais e da Geometria Descritiva que,  quando damos aos nossos alunos a possibilidade de serem atores de facto nos seus processos de  aprendizagem, fazendo eles próprios parte significativa da gestão do que aprendem e quando  aprendem, cada um à sua maneira, verificamos que o seu interesse e gosto por aprender se  transforma e, maioria das vezes com o telemóvel à parte, se aplicam de forma muito mais incisiva  nas propostas e desafios que lhes fazemos, muito especialmente se as soubermos materializar e dar  um sentido tangível ao que lhes propomos que aprendam.

Manter o modelo atual é continuar a desperdiçar o talento de gerações inteiras, e os nossos mais  jovens não nos merecem isso…

Nota editorial: ver ainda Global Teacher Prize.