Se há dimensão humana distintiva é a inteligência, processo através do qual interagimos, interpretamos os outros e resolvemos problemas no mundo das coisas. Por vezes confundida com Quociente de Inteligência (QI), a escala criada por Alfred Binet e Théodore Simon em 1905 foi seguida de outras com diversos autores, nunca consensuais, por se tratar de uma área subjetiva que inclui factores culturais, emocionais, aptidões inatas e adquiridas numa panóplia de características fluidas que não podem, nem devem, ser reduzidas a um teste de medida.
Formas múltiplas de inteligência têm respondido historicamente à imprevisibilidade da vida com objetivo último comum aos outros seres; sobreviver. Através de decisões inusitadas, contrariando até métodos e saberes usuais, a flexibilidade cognitiva é fonte de criação humana, aquele dedo de Adão que quase toca o divino, imortalizado pela genialidade de Miguel Ângelo (1475-1564).
Fascinados por drones, geolocalização, metadados, e análises preditivas da medicina à justiça, usamos o termo inteligência para nomear a lógica fria da técnica que consegue coerência e potencialidades notáveis, mas ainda assim, designação inadequada. A produção da “inteligência” artificial (IA) tem rigor, padronização e níveis de resultados com eficácia superior à inteligência humana que nem sempre é eficaz, porque é empática e misto de percepção crítica com a emoção de um Eu autobiográfico sujeito a erro. Em ambas subjaz potencial de elevação humana quando canalizado positivamente, mas nocivo quando ao serviço de fins perversos.
Que impacto terá a IA na organização social? Temos sensação de que o mecanismo introduzido já em todas as áreas do saber, pode comandar o mecânico dispensado da necessidade de pensar, de se dar ao trabalho, porque as soluções provêm do banco de dados simplificador da vida que sempre se quis fácil. Por outro lado, há um sentimento de poder com informação sem limite, mas de difícil gestão, surgindo percepção de que somos insuficientes e inúteis.
Na ambivalência que nos caracteriza e numa relação de amor-ódio com esta mecânica informática qualificada, teremos no quotidiano um comportamento aditivo ao cenário perfeito de resposta certa, mas que concorre também para alguma dose de imbecilidade onde arriscamos papaguear todos o mesmo. Com pensamento inerte torna-se fácil nele implantar uma qualquer corrente ideológica e poderão ser inúmeros os embaraços da sociedade articulada por poderes políticos e económicos oportunistas, sem pudor e preocupação de defesa da vida como bem superior.
Não somos negacionistas da inovação, mas receamos marasmo e disfuncionalidade, associados à incapacidade de viver princípios existenciais como autonomia e autodeterminação. A mente necessita de desafio construtivo, questionamento e desconhecido, ora, se a IA retirar estes elementos vitais à equação da psique, esse espaço tende a ser preenchido com duvidosos interesses para suprir o déficit de realização pessoal. Parece-nos lícito por isso presumir que a IA com todas as conveniências, se afigura também vicissitude de uma humanidade sempre carente de obstáculo.
Nunca precisámos tanto daquela emoção ligada à incerteza do resultado que vivifica a performance cerebral. Só a vaidade, o narciso em nós, pode balizar os artifícios desta “inteligência” quando se sentir subtraído na pessoalidade, mas o duelo contingente da IA com o QI humano em decréscimo por falta de estímulo, tem já vencedor anunciado e ainda agora o jogo começou. Na certeza de que a criação submete de algum modo o criador, é melhor abraçar este novo adversário e usar as suas vantagens com noção de que tanto nos podem destruir como salvar. Já agora, o texto foi produzido sem recurso a IA.