Serviços de urgência fechados, demora do INEM, tempos exagerados de espera para consulta de especialidade, partos em ambulância na berma da estrada, falta de médicos de família, são factos que sustentam narrativas redutoras do SNS, desvirtuado por pagamentos milionários indevidos a profissionais e múltipla suspeição como o “caso gémeas”. Falamos de persistente indignação pública acentuada nos últimos anos a requer ordem administrativa, mas talvez não chegue. Vamos a razões!

A degradação do Sistema Nacional de Saúde relatada frequentemente com emoção de tragédia tem provocado ansiedade social que faz recorrer muitas pessoas à Linha SNS 24, antes que seja tarde demais, receando agravamento e falta de resposta atempada. A procura antecipatória de cuidados por medo de adoecer ou piorar, pressiona o atendimento e contribui significativamente para percepção de “caos”. Os recursos parecem ser sempre insuficientes para responder às solicitações, muitas das quais, problemas menores que ocupam meios e perturbam o socorro a casos urgentes e até emergentes. O INEM no centro de polémicas, não deixou de ser, porém, uma instituição qualificada de profissionais que exercem os melhores cuidados em difíceis condições pré-hospitalares com impagável dedicação e, lamentáveis ocorrências por falta de prontidão do sistema integrado de emergência (SIEM) são sentidas certamente como inadmissíveis pelo próprio INEM.

Nesta narrativa temos de incluir a população habituada a décadas de proteção compassiva por um sistema público de saúde, tradição assistencial, sobre a qual recai excesso de expectativa e exigência o que torna a máquina lenta e ineficaz. Para lá da efetiva reforma do SNS, é necessário reformar também o mindset social e adoptar medidas de valorização do sistema, para minimizar o número de chamadas telefónicas 112, que estimamos muito elevado, a pedir ambulância para situações idênticas à daquela pessoa que esta noite iniciou diarreia e vómitos depois de ter comido um cachorro na rua ontem. A intrincada problemática do SNS, faz-se destes e outros pequenos nadas cuja soma agigantou consequências que hoje vemos, onde o direito a tudo se encaminha, por isso mesmo, a pouco ou nada!

Mexer profundamente na estrutura da Saúde é arriscado do ponto de vista da popularidade política, e sucessivos governos têm ficado por diretivas introduzidas a conta-gotas, que não têm conseguido desfazer embaraços de uma instituição a perder performance. Da sustentabilidade económica à desmotivação dos profissionais, as principais questões estão amplamente estudadas pela comunidade académica, documentadas em relatórios oficiais, e corroboram a diminuição de eficiência dos cuidados de saúde observada nos relatórios sobre a Evolução do Desempenho do SNS, efectuados pelo Conselho das Finanças Públicas.

Conscientes das dificuldades em articular financiamento, aumento da procura e gastos no SNS, vemos a decisão política preocupada em gerir percepções e narrativas, quando deveria focar-se mais nas melhores evidências científicas da economia e gestão. A actualidade não se compadece com a tradição assistencial e o utente é hoje um cliente exigente, numa sociedade atenta ao bem-estar e à qualidade. Está aberta a porta à figura do consumidor de cuidados que traz à Saúde uma linguagem de mercado.

A insatisfação com o serviço público estimula o setor privado que oferece serviços de excelência, e está dotado de profissionais qualificados ao longo de anos com recursos públicos, mas que migram para empresas privadas sem oferecer contrapartidas ao Estado. Preocupa-nos esta consolidação enviesada onde cabe o escapismo do sector privado a tratamentos e intervenções de “custos incomportáveis” a clientes, seguradoras e sistemas convencionados, motivo pelo qual não tem interesse em seguir o doente crítico nem assumir respetivos gastos.

À vista de tais incongruências, é bem visível também o declínio do SNS, mas ainda em tempo de limar desajustes público-privado porque é inútil insistir no sistema tradicional, tendencialmente gratuito, mas em clara dificuldade em suprir o aumento das despesas assistenciais decorrentes em especial do envelhecimento da população e dos avanços científicos e tecnológicos introduzidos nos actuais tratamentos médicos.

Registos estatísticos oficiais permitem ver o crescimento de fontes de financiamento no SNS, além do Orçamento do Estado, como seguros de saúde, subsistemas, e gastos das famílias. Soma feita o SNS liberta-se já de larga percentagem dos encargos em saúde, o que faz da privatização um caminho a instituir-se sem volta num futuro de parcerias público-privadas, com supervisão do Estado que garanta acessibilidade à Saúde a todos os cidadãos. Já a Gestão fica melhor longe de chefias tóxicas, na mão de desejáveis lideranças que conjuguem objetivos com processos humanizados de proximidade, quer com o utente/cliente, quer com os seus recursos humanos prestadores de cuidados em visões colaborativas promotoras de satisfação profissional.

O SNS tem à frente o difícil desafio de minorar a ineficácia de que se vê acusado. Entre muitas sugestões possíveis deixamos uma: a reorganização do papel de suporte que cabe ao Hospital na cadeia assistencial, hoje responsável por uma miscelânea de intervenção, desde procedimentos diagnósticos e médico-cirúrgicos altamente diferenciados, até cuidados básicos a pessoas desidratadas e com fome que não encontram outra resposta na rede social de apoio.

Entendemos bem a fila de ambulâncias à porta dos Serviços de Urgência! Porque não se trata a pessoa idosa no conforto do seu ambiente habitual, no lar ou unidade de cuidados continuados, em vez de horas à espera em maca nos corredores da urgência hospitalar, para muitas vezes ter alta com receita de antibiótico para infecção urinária? Porque não levar mais o hospital a casa nas inúmeras situações em que é possível?

 O Sistema Nacional de Saúde não é mau! É provavelmente um dos melhores do mundo a agonizar de complacência, poderoso actractivo de Portugal ao lado da gastronomia e do sol que acolhe cidadãos de todas as latitudes, ricos e pobres, residentes nacionais e estrangeiros, turistas, emigrantes, contribuintes e não contribuintes. Não discrimina sequer pessoas sem hábitos saudáveis à procura de saúde, todos são igualmente cuidados, até quando?