Vai uma aposta em como a vossa cultura geral está de rastos? Sabiam que desde 2022 há uma editora chamada Vírgula d’Interrogação? Sabiam que a Vírgula d’Interrogação tem procurado a “disrupção com a norma estabelecida” desde a sua fundação? Sabiam que já publicou autores de comunidades marginalizadas do calibre de, por exemplo, Miss Major (“Miss Major Fala: Conversas com uma Revolucionária Trans Negra”)? Sabiam que agora a editora tem uma “chancela”, a Kiala, que só lançará livros de pessoas negras? Hã?

Não é gralha. Não é sequer uma maneira abrutalhada de dizer que a tal Kiala se especializará em temas africanos ou alusivos aos descendentes de africanos que vivem por cá. Não, senhor. O título do artigo da “Time Out Lisboa” em que aprendi tudo isto é, sem trocadilho, claro: “Na portuguesa Kiala, só se publicam livros de pessoas negras”. E Elga Fontes, que vai coordenar o projecto conforme tem coordenado o Clube de Leitura Antirracista (que visa “descolonizar as nossas leituras”), confirma. Confirma e reforça, dado que, segundo a senhora dona Elga, a Kiala prefere trabalhar com profissionais negros em todas as etapas do processo editorial, da tradução e revisão ao design.

A senhora dona Elga explica a origem da ideia: “Qualquer leitor mais atento que vá a uma livraria constata que há uma grande lacuna na edição de autores negros em Portugal” (o leitor mais desatento, esse ignorante terminal, vai a uma livraria à procura de determinados livros, e não para analisar a quantidade de melanina dos respectivos autores). Ela, que é atenta, foi e constatou. Vai daí, nasceu a Kiala, que quer “contribuir para a diversidade do mercado editorial português”. “Diversidade”, aliás, poderia muito bem ser o nome do meio da senhora dona Elga, a quem falta um mero “H” para se confundir com uma alemã de antigamente.

Nesta história resta esclarecer alguns aspectos pouco, sem trocadilho, claros. Um romancista mulato, perdão, mestiço cabe na Kiala? E se couber, publicam-lhe a obra na íntegra ou apenas a parte proporcional à percentagem de negritude? Se fosse vivo, escrevesse sobre microagressões e heteropatriarcado e, em cima disso, carecesse de editor, Machado de Assis teria lugar na visão da senhora dona Elga? A senhora dona Elga editaria Thomas Sowell e Stanley Crouch ou, apesar das bazófias, a ideologia sobrepõe-se à cor da pele? Não sei.

Sei, e no fundo é o que importa, que a Kiala prevê dois (2) lançamentos em 2026, uma autêntica avalanche de alternativas étnicas. O primeiro lançamento, a 27 de Maio, será “Feminismo na Periferia”, da (negra) Mikki Kendall. A capa original foi adaptada pela designer (negra) Inês Borges e o prefácio é assinado pela (negra) Nuna, autora do primeiro livro infantil português com uma protagonista negra (negra). Elabora a senhora dona Elga: “É uma crítica muito necessária ao movimento feminista dominante. Há tantos livros sobre feminismo editados em Portugal, mas quantos temos que estudem e analisem de uma perspectiva interseccional e se foque nas pessoas que o movimento feminista tem excluído ao longo dos anos?” Pouquíssimos, arrisco eu.

O segundo livro, a sair em Novembro, é “A Morte de Vivek Oji”, de Akwaeke Emezi, aut@r não binári@ nigerian@. A capa é de Denise Santos, outra designer negra. “Se tudo correr bem”, informa a Time Out Lisboa, “não está excluída a possibilidade de [a Kiala] publicar também para o público infanto-juvenil”. Quer dizer que os livros citados se destinam a adultos? Adiante.

Em suma, estamos possivelmente perante a primeira empresa assumidamente racista do Portugal contemporâneo. Admito que tivesse havido, e com certeza ainda haverá, empresas que evitam funcionários de determinadas “raças” – mas o crivo era, e é, discreto. A Kiala actua, sem trocadilhos, às claras. Ali, branco com pretensões literárias não entra, excepto para lhe ser apontada a porta da rua ou receber um sermão acerca das formas insidiosas do neo-colonialismo. É ilegal? Possivelmente não. O art. 13.º da Constituição, que proíbe a discriminação com base na “raça”, vê-se enxovalhado quando a raça em questão é “minoritária” e, se necessário, os discriminadores invocarem a “acção afirmativa”, a “reparação simbólica” e, claro (sem trocadilho), a promoção da “diversidade”. Suspeito que uma editora confessamente limitada a brancos não se safaria da perseguição judicial de modo tão airoso.

Porém, face à Kiala ou a uma hipotética editora Ariana, é absurdo pensar em meter a lei ao barulho. Por ridículos que sejam os propósitos e os resultados, a liberdade de expressão deve ter prioridade. Além disso, episódios assim servem para exibir o espírito do tempo, provar que o tempo não anda bem e, se o dia estiver de feição, divertir.